Direto da Redação
Gabriel Vieira: Em boa companhia
Jornalistas do Diário Gaúcho opinam sobre temas do cotidiano


Você gosta da própria companhia? A pergunta me encontrou durante as férias, num daqueles instantes silenciosos em que a mente desacelera só o suficiente para deixar algo pousar. A minha, quase sempre inquieta, vive cheia de pensamentos que passam como nuvens rápidas. Mas este ficou.
Numa sexta-feira ensolarada, decidi caminhar sozinho pelas áreas centrais de Porto Alegre e deixar que a cidade me atravessasse. Acabei sentado na grama do Parque da Farroupilha, com os pés tocando a terra, apenas observando o movimento ao redor.
Desde pequeno, sou muito observador, vejo que isso se tornou uma espécie de hobby. Durante esse período, percebi um padrão: quase todos que passavam estavam sozinhos. Talvez pelo horário, talvez porque descobriram o valor de estar consigo mesmos.
Solitude
Nesse tempo que passei por ali, avistei à minha volta três personagens principais: uma senhora, um senhor e um homem de meia idade. A primeira, uma senhora de cabelos bem brancos, caminhava devagar com sua ecobag bordada. Parava diante das flores como quem cumprimenta velhas amigas.
O segundo, um senhor que abriu uma canga sob a sombra e mergulhou num livro cujo título não pude identificar. Tornou-se parte da paisagem, tão imóvel quanto o tronco da árvore. O terceiro praticava yoga, com o corpo leve, respiração calma, como se conversasse com a brisa daquele dia.
Cada um vivia sua própria solidão, não a que isola, mas a que acalenta. A que permite observar, ler, sentir o próprio corpo. A que aproxima da vida ao redor. Eu fiquei ali, entre eles. Também gosto desse exercício, sobretudo quando pedalo pela cidade e deixo o ritmo das ruas se misturar ao meu. Talvez a própria companhia não seja ausência, mas presença em outro volume.