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"Independentemente da forma, tabagismo é doença"; entenda os perigos dos cigarros eletrônicos 

Especialista explica principais problemas causados pelos vapes e desmente os mitos que incentivam o uso do dispositivo

04/03/2026 - 15h34min


Breno Bauer*
Breno Bauer*
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fedorovacz/stock.adobe.com

De aparência colorida e formatos diferenciados, os Dispositivos Eletrônicos para Fumar (DEFs) vêm atraindo jovens com a mistura de nicotina e aromatizantes, que acrescentam diferentes sabores à droga. Um levantamento da Organização Mundial de Saúde (OMS), divulgado em outubro do ano passado, apontou que, no mundo todo, cerca de 15 milhões de jovens entre 13 e 15 anos usavam os aparelhos, popularmente conhecidos como vapes ou pods.  

O médico Gustavo Chatkin também percebe a aderência dessa parcela da população ao dispositivo.  

— Há 25 ou 30 anos, nós já recebemos pacientes querendo parar de fumar o cigarro convencional. E de uns cinco a sete anos para cá, os pais vêm trazendo seus filhos, entre 15 e 20 anos de idade, já com dependência no cigarro eletrônico — afirma ele.

Chefe do serviço de pneumologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e professor da faculdade de Medicina da instituição, Chatkin tenta encontrar motivos para a popularidade dos vapes

— É como nas décadas de 1950 e 1960, quando o cigarro era vendido como algo charmoso e bonito. Nos filmes e novelas antigas, a maior parte dos atores importantes estava fumando. Hoje, há essa ideia de que não faz mal. Basta um adolescente dizer que não dá nada, que a pessoa começa a usar. E assim o cigarro eletrônico já chegou às escolas

"Usar um veneno para tratar outro" 

A realidade vai na contramão de uma resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicada em 2009. Nela, fica proibida a comercialização, a importação e a propaganda dos DEFs, “especialmente os que aleguem substituição de cigarro” ou que “objetivem alternativa no tratamento do tabagismo”.  

O especialista diz que esse é um dos mitos mais presentes quanto ao consumo de cigarros eletrônicos. Segundo ele, as principais dúvidas dos pacientes são: “Posso usar o cigarro eletrônico para abandonar o tabagismo convencional?” e “É seguro?”. A resposta do médico é incisiva:

A resposta para as duas é não. Eu não posso colocar no receituário: “Tragar três cigarros eletrônicos por dia”. É como escrever: tomar três copos de vodca e não de cerveja — compara Gustavo.

Ele também diz que “independentemente da forma, tabagismo é doença” e que manter o hábito de fumar, trocando apenas a maneira de fazê-lo, “é usar um veneno para tratar outro”.

Não há vantagens

Segundo o médico Gustavo Chatkin, muitas pessoas usam vapes pensando que, como não há combustão, eles são inofensivos. De fato, o monóxido de carbono e outras substâncias tóxicas produzidas pela queima do cigarro comum dificultam a oxigenação no sangue, paralisam cílios pulmonares e, a longo prazo, podem causar câncer. Mas sua ausência não é motivo de segurança. Mas sua ausência não é sinal de segurança: o médico lembra que o vape é composto por metais pesados.

— Eu brinco com meus alunos: é a mesma coisa de pegar o controle do ar-condicionado e ficar chupando. Tu estás chupando uma pilha, com metais pesados. Essas substâncias atingem, além do pulmão, a corrente sanguínea e podem causar inflamação crônica dos pulmões e câncer — diz Gustavo.

Outro composto presente nos cigarros eletrônicos é o propilenoglicol, usado em solventes, na indústria cosmética. Assim como os metais pesados, ele pode causar "danos importantes nos pulmões".

— Ele acaba causando uma inflamação crônica que pode gerar enfisemas e, a longo prazo, câncer — explica Gabriel.

Falta de regulação de substâncias 

Marca característica dos DEFs, os sabores diferenciados que acompanham a fumaça são produzidos por aromatizantes — mais um dos componentes que podem trazer malefícios ao sistema respiratório.

Gustavo aponta que, por não haver regulação de substâncias, não é possível saber a quantidade desses produtos usada na composição dos vapes. O mesmo acontece com a nicotina, responsável pela sensação de bem-estar causada por produtos derivados do tabaco.

— Há vários tipos de vape, com cargas diferentes de nicotina e aromatizantes. Então, pode haver vapes que causam mais danos que o cigarro. Por exemplo, sabemos que um palheiro equivale a algo entre sete e 10 cigarros. Mas com vape não é possível medir com exatidão porque não temos regulação de substâncias. 

Gustavo também argumenta que a menor dosagem de nicotina prometida por muitos DEFs pode não fazer diferença, pois o usuário terá que usar “mais vezes para se satisfazer”. 

Danos

O médico Gustavo Chatkin aponta que os estudos dos últimos 15 anos são “robustos e comprovam malefícios sistêmicos” e apontam que a prática pode acabar causando:

/// Comprometimento das vias aéreas

/// Danos odontológicos

/// Problemas no trato gastrointestinal

/// Cardiopatias isquêmicas

Passo a passo para largar o vício

O médico aponta quatro passos para deixar de fumar, tanto cigarros eletrônicos quanto outras práticas tabagistas.

/// Entender que é uma doença

/// Buscar ajuda médica. No começo, um pneumologista; porém, por se tratar de uma dependência química, pode ser preciso acompanhamento psiquiátrico. 

/// Com supervisão médica, os tratamentos podem ser feitos usando medicações e adesivos de nicotina

/// Além disso, é preciso alterar a rotina e o comportamento. Gustavo exemplifica que, se alguém toma café e fuma um cigarro eletrônico, talvez seja preciso deixar o café de lado por um tempo, para evitar a associação.

MP lidera iniciativa 

/// Em fevereiro, o Ministério Público do Rio Grande do Sul passou a liderar um movimento contra a banalização dos vapes, buscando a conscientização e a repressão ao uso e à comercialização desses produtos.

*Com orientação e supervisão de Émerson Santos



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