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Direto da Redação

Josyane Cardozo: As páginas de um vagão

Jornalistas do Diário Gaúcho opinam sobre temas do cotidiano

04/03/2026 - 05h00min


Josyane Cardozo*
Josyane Cardozo*
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Agência RBS/Agência RBS
Direto da Redação

Desculpa, vou ter que confessar: eu cuido o que você está lendo no trem. Realmente é mais forte do que eu. Usuária do transporte público desde que me conheço por gente, já faz parte da rotina criar sub-hobbies para passar o tempo durante a viagem. Um deles, elencado como meu favorito, é, involuntariamente, constatar a sua personalidade pelo livro que você está segurando.

Peço perdão se, por acaso, era a semana de experimentação e você resolveu ler um título que não faz parte do seu hall de gêneros literários. Eu, infelizmente, já criei seus personagens. Para além disso, criei um jogo mental em que preciso, urgentemente, ler o título da capa ou procurar na nuvem dos meus dados mentais se sei quem é o autor, se já vi o livro em alguma livraria ou se (o que é o número 1 no ranking do meu checklist) já li a obra.

Quando isso acontece, o hobby fica ainda mais prazeroso. Começo a lembrar em que momento li o título, sobre o que a história falava e tudo aquilo que senti enquanto me pegava lendo. Ou, como muitas vezes acontece, quando não fiz a leitura da obra, fico pensando sobre o que levou o autor a escrever aquela história, aquela narrativa ou até mesmo — para as autoajudas — o que ele gostaria de propor ao leitor.

E será que ele pensou que o leitor seria tão tomado pela vontade de consumir seu trabalho que escolheria o momento de deslocamento para usar esse tempo? Podem se perguntar como tantos pensamentos passam pela minha cabeça, mas me defendo: uma viagem rotineira de trem, que dura cerca de 40 minutos, precisa ser preenchida com devaneios, um bom livro ou a paisagem.

Gosto de pensar que, dentro da biblioteca sobre trilhos que é o vagão, um mundo cheio de títulos pode virar um ponto de referência para ampliar meu repertório, me mostrar novas possibilidades de leitura ou apenas imaginar como esses leitores agem. 

Quando o trem desacelera e a estação final se anuncia, a fantasia se desfaz. Você desce com seu livro debaixo do braço. Eu fico com as histórias que inventei e sigo o meu caminho.




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