Coluna da Maga
Magali Moraes e as manchas
Colunista escreve às segundas e sextas-feiras no Diário Gaúcho


Se procurar, acha. Tem as que estão lá faz tempo, só a gente não viu. Tem as manchas recentes, as inevitáveis, as que assustam, as já esperadas, as que te pegam de surpresa. Na pele do braço. No braço do sofá. Na toalha. No copo. No corpo. Na parede, que é o corpo da casa. No teto. Na folha da planta. No exame de imagem (bate três vezes na madeira). No tampo de madeira. No tapete. Na manga da camisa. Na lataria do carro. Na capa do livro. Na tela do celular. No dente. No currículo.
Se reparar, é muita mancha. Nem todas saem, por mais que a gente limpe. Pegue o exemplo do sofá. Quando a taça de vinho vira e escorre pelo tecido (rápido, um pano!!) é que vê se a impermeabilização funciona. Esses dias, aconteceu aqui. Limpei todos os vestígios a olho nu. Em séries policiais, os investigadores usam luzes e produtos químicos pra detectar o sangue invisível na cena do crime. Se o Luminol pudesse detectar também o vinho tinto, minha limpeza passaria no teste?
Vanish
Vejo manchas na borda do espelho. O mesmo espelho me mostra manchas que nem quero ver no rosto, nas mãos. Mas vejo. Nessas, nem Veja. Nem Vanish. A dermato vai dizer que é do sol, e vou alegar que eu nunca passei tanto protetor solar. Imagina se não passasse. É o tempo que passa. Luvas? Laser? Cremes caros? Por enquanto, sobrou como souvenir de verão. O espelho do banheiro pode culpar o vapor da água quente, o chuveiro, a umidade. E eu vou culpar uma vida bem vivida?
Nem o colchão escapa. Será que ando sonhando com o sol? Cada mancha conta uma história. A de batom vermelho na camisa branca vira drama. Já a de molho de tomate no teto branco da cozinha vira aprendizado: estou cozinhando melhor, mas nem sempre com a cabeça na receita. Tanta coisa pra pensar e prestar atenção. Se as manchas tivessem voz, elas reclamariam? Ou se exibiriam como troféus do dia a dia? Tudo isso pra dizer que sigo manchando. E limpando.