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Mais cacau nacional 

O que é "sabor chocolate"? Veja como identificar no rótulo o que é chocolate de verdade

Com projeto em análise no Senado, especialistas defendem mais transparência nas embalagens e recomendam atenção à ordem dos ingredientes

23/03/2026 - 12h29min


André Malinoski
André Malinoski
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Débora Zandonai/Divulgação
Com novo projeto de lei, chocolate deverá ter mais cacau em sua composição no Brasil.

O projeto de lei que acaba com as designações “chocolate amargo” e “meio amargo” deve ser votado, agora, pelo Senado. O PL estabelece percentual mínimo de cacau nos chocolates e obriga fabricantes a destacarem esses índices no rótulo dos produtos.

Segundo as novas regras, o chocolate hoje identificado como amargo ou meio amargo não terá mais essa designação. O produto deverá ser composto por 35% de sólidos totais de cacau, dos quais ao menos 18% devem ser de manteiga de cacau e 14% de sólidos isentos de gordura, e será classificado apenas como chocolate.

Já o chocolate branco precisará ter 20% de manteiga de cacau e, no mínimo, 14% de sólidos totais de leite. Com tantas porcentagens, fica até difícil saber, afinal, o que é ou não chocolate.

O assessor da Castelli Escola de Chocolataria, Adriano Sartori Pedroso, sócio-fundador da Gencau – indústria transformadora de cacau –, afirma que essa nova legislação vinha sendo discutida há muito tempo e, basicamente, propõe classificações.

— É bacana o consumidor ser informado sobre o teor. Vemos isso, às vezes, nos sucos. Dizendo quanto há realmente de fruta, e cada consumidor toma a sua decisão, se busca algo mais puro ou diluído. O que ouvimos da indústria do chocolate é que terá impactos nas embalagens e nas formulações, o que pode influenciar o sabor do produto — afirma Pedroso.

O objetivo do projeto de lei é valorizar o cacau nacional e regulamentar a forma como as informações devem constar na embalagem do produto.

O que é chocolate de verdade?

A confeiteira artesanal e publicitária Alexine Velinho, proprietária da Chez Alexine, afirma que, no Brasil, a legislação reconhece produtos com apenas 25% de massa de cacau – também chamada de pasta ou liquor de cacau – sendo considerados chocolate.

— O que é sabor chocolate? Na verdade, não é chocolate, principalmente o industrializado que está no mercado, mas um sabor fracionado. Ele é, digamos assim, um doce que contém algo de cacau, muito açúcar e muita gordura vegetal. Então, não poderia ser designado chocolate — explica.

Na União Europeia, compara a confeiteira, a quantidade mínima de cacau obrigatória em uma barra é de 35%, sendo 18% de manteiga de cacau e 14% de sólidos. Em relação aos rótulos, ela destaca o que merece atenção.

— Na verdade, o consumidor tem que ver os ingredientes. Eles não são colocados por ordem alfabética, mas por forma decrescente. Por exemplo: como ver se o chocolate é realmente chocolate? A descrição tem que iniciar com massa de cacau, seguida por manteiga de cacau, soro de leite e açúcar no final. Se o primeiro ingrediente descrito for o açúcar, é preciso desconfiar que não é chocolate — alerta.

Segundo a confeiteira, quando o chocolate é considerado nobre, geralmente, a embalagem traz a indicação “cacau de origem”, em português, ou “bean to bar”, em inglês.

— Se não tiver manteiga de cacau na composição ou escrito massa de cacau, provavelmente não será chocolate — ensina.

Para Alexine Velinho, o debate em torno da composição do chocolate é semelhante a outras discussões envolvendo a presença de açúcar e sódio em produtos industrializados.

— Na verdade, esse chocolate que agora passa a ser rotulado como “sabor chocolate” já é assim há muitos anos. Acho que essa mudança do projeto será excelente para o consumidor. Terá mais transparência — acredita.

A paixão dos brasileiros

Conforme dados da Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Amendoim e Balas (Abicab), o consumo médio de chocolate no país é de cerca de 4 kg por pessoa ao ano. Já a produção avançou de 806 mil toneladas em 2024 para 814 mil toneladas em 2025.

O volume de ovos de Páscoa, por exemplo, passou de 45 milhões no ano passado para 46 milhões neste ano. Esses números refletem, em certa medida, a paixão dos brasileiros pelo chocolate.

Pedroso acredita que o foco deve estar na produção de cacau de melhor qualidade, para que ele seja incorporado em maior quantidade ao chocolate.

— Talvez tenha chegado a hora do cacau, de trabalhar essa produtividade e qualidade. Para o consumidor, naturalmente, tendo acesso e renda suficientes, poder migrar, cada vez mais, para um chocolate com alto teor de cacau — observa.

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