Meteorologia
O RS corre risco de uma nova enchente? Especialistas analisam previsão de El Niño para o segundo semestre
Aquecimento do Pacífico aumenta possibilidade de cheias, mas catástrofe climática que atingiu o Estado dois anos atrás foi agravada por outros fatores


Um boletim divulgado nesta semana por uma agência científica do governo americano elevou o nível de alerta dos gaúchos em relação ao risco de novas enchentes ao longo do ano. O estudo da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA) indica alta probabilidade de formação do fenômeno El Niño no segundo semestre — condição que eleva a umidade no Sul do Brasil em um período já normalmente marcado por chuvas.
Meteorologistas ressalvam que, embora a pior catástrofe climática registrada no Estado tenha sido agravada pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico, em 2024, ainda é cedo para prever o nível de intensidade desse novo episódio. Além disso, especialistas lembram que a grande cheia foi condicionada por uma combinação com outros fatores climáticos, o que recomenda prudência, mas não alarme.
O relatório da NOAA de 16 de março aponta 62% de probabilidade de o El Niño se formar entre junho e agosto. A cifra salta para mais de 80% a partir do final do inverno e do começo da primavera.
O documento revela que ainda há divergências entre diferentes modelos de previsão a respeito do quanto a água do Pacífico deve se aquecer além do normal (quanto maior a temperatura, maior a intensidade do fenômeno e os possíveis impactos, como tempo mais seco no Norte e mais chuvoso no Sul). A média das estimativas aposta em um fenômeno moderado, com fatias minoritárias apontando para um El Niño fraco, e outro tanto para um episódio mais forte.
O que dizem os especialistas
A repetição de uma tragédia de proporção equivalente àquela experimentada recentemente pelos gaúchos depende de outros fatores para os quais ainda não há previsão.
— O El Niño, realmente, traz condição de mais chuva para o sul do Brasil. Mas, até o momento, não temos indicativo de algo fora desse padrão. Em 2024, tivemos um "super El Niño" porque as temperaturas do Pacífico estavam muito altas. Além disso, houve outros fatores associados, como sistemas de baixa pressão, um corredor de umidade persistente e bloqueios atmosféricos (que barram a passagem de frentes frias e aumentam a duração das chuvas numa mesma região). Não há indicativo de que uma enchente como a de 2024 vai se repetir agora — analisa a meteorologista da Climatempo e do Centro de Monitoramento da Defesa Civil do Estado (CMDEC), Cátia Valente.
O meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) Glauber Ferreira explica que um "superfenômeno" ocorre quando a temperatura do Pacífico ultrapassa em mais de 2°C a média histórica. O boletim da NOAA relata que a expectativa mais frequente entre os modelos informatizados é de que ocorra um pico de 1,3°C a 1,4°C além do normal entre outubro e dezembro.
— Um ou outro modelo dá um sinal nessa direção (de maior gravidade), mas ainda é muito precoce afirmar qualquer coisa. Nos próximos meses, devemos prestar atenção em três elementos: a expectativa de intensidade do El Niño, se as chuvas já vão deixar o solo saturado e como devem se comportar outros fenômenos, como bloqueios atmosféricos — complementa o especialista do Inmet.
Ferreira lembra que, dois anos atrás, o aquecimento do Atlântico Sul também turbinou o mau tempo. Por enquanto, o meteorologista não vê sinais de alerta similares junto à costa brasileira. A avaliação geral é compartilhada pela meteorologista Mariana Pallotta, do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden).
— A gente tinha uma condição meteorológica (em 2024) que favorecia chuvas extremas, volumosas e persistentes que não estavam 100% ligadas ao El Niño. Foi um evento com recorrência (probabilidade de repetição) de muitos anos, que deve demorar muitos anos para acontecer de novo naquele porte — afirmou Mariana em entrevista ao programa Gaúcha Atualidade, da Rádio Gaúcha, nesta quinta-feira (19).
Estudo dimensiona maior risco de enchentes
A avaliação de que ainda é muito cedo para se alarmar não significa, segundo o hidrólogo Fernando Fan, do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que o Estado não deve se preparar para eventuais eventos extremos. Um estudo recente assinado por Fan, Ingrid Petry e Andrew Wood, envolvendo o IPH e o Centro Nacional para Pesquisa Atmosférica dos EUA, analisou dados colhidos por 788 estações climatológicas ao longo de 45 anos. A conclusão é de que o risco de eventos extremos na Bacia do Prata, região que inclui o Rio Grande do Sul, aumenta em 120% durante períodos de El Niño.
— Com mais chuvas, tem mais cheias. Isso é o que mostra a estatística. Olhando os dados de anos em que ocorreu El Niño, a gente vê que houve mais cheias em comparação com os períodos neutros (temperatura na média histórica) e de La Niña (resfriamento do Pacífico) — resume Fan.
O percentual é expressivo, mas deve ser analisado com cautela, porque a probabilidade de ocorrência de uma enchente semelhante à de 2024 continuaria sendo pequena. Em um exemplo prático: uma cheia de mais de 4 metros só aconteceu duas vezes em um século no Guaíba (em 1941 e dois anos atrás). Ou seja, estatisticamente, há 2% de chance de acontecer em um ano qualquer. Sob a influência de um El Niño, porém, devido ao aumento esperado de precipitação, esse percentual passa para pouco mais de 4%.
— Como hidrólogo, eu diria que a nossa preparação tem de ser a mesma, porque sempre existe a probabilidade de ter uma grande cheia, mesmo em um ano neutro, por exemplo. Então, a gente tem de estar pronto para um risco menor ou maior — recomenda Fan.
O hidrólogo compara a situação climática do Estado com a de um jogo de dados — quanto maior o número tirado, maior a provável inundação. Em anos de aquecimento do Pacífico, é como se o número um fosse removido e fosse acrescentado outro dígito seis. Ou seja, há um risco estatístico aumentado de eventos mais severos, mas isso não significa que vão obrigatoriamente ocorrer.
Por meio de nota, a Defesa Civil gaúcha informa que "para o inverno, há possibilidade de configuração do El Niño, com impactos mais significativos no Rio Grande do Sul, especialmente a partir da primavera. Contudo, não se descartam eventos de chuva volumosa e tempo severo entre o outono e o inverno. O CMDEC segue monitorando continuamente a evolução dessas condições".