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Pontos valiosos 

Por que há tantas farmácias em esquinas de Porto Alegre? Capital tem mais de 110 unidades no encontro de ruas e avenidas

Grandes redes têm ocupado pontos de destaque em busca de mais visibilidade

10/03/2026 - 10h15min


Guilherme Gonçalves
Guilherme Gonçalves
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Jonathan Heckler/Agencia RBS
Uma farmácia em cada esquina no encontro entre as avenidas Cristóvão Colombo e Benjamin Constant.

— Se der bobeira muito tempo, vai virar mais uma farmácia — brinca o aposentado Nelson Dornelles ao apontar para um imóvel abandonado na esquina entre as ruas Riachuelo e Caldas Júnior, no Centro Histórico.

Terrenos como esse, em esquina, são valiosos para o comércio porque ampliam a sua visibilidade. Nos últimos anos, viraram alvo de redes farmacêuticas — que, segundo especialistas, são empresas que conseguem bancar os valores pedidos pelos donos desses imóveis.

A presença de farmácias em esquinas tornou-se algo comum na paisagem urbana da Capital. À reportagem, nem todas as redes quiseram detalhar o número de unidades presentes no encontro de ruas e avenidas. Porém, um levantamento feito por Zero Hora descobriu que a cidade tem, pelo menos, 113 operações espalhadas por estes locais.

— Em Porto Alegre, essa estratégia ocorre com as grandes redes, com grandes faturamento: São João, Panvel e Droga Raia. As pequenas não têm condição de pegar esses pontos. É uma estratégia de visibilidade e conveniência, garantindo maior fluxo de pedestres e de carros — analisa o presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Produtos Farmacêuticos no Estado do Rio Grande do Sul (Sinprofar-RS), Leomar Rehbein. 

Das três maiores redes atuando em Porto Alegre, apenas a Droga Raia, do Grupo RD Saúde — o maior em faturamento no Brasil — revelou o número de farmácias em esquinas: são 45 unidades no encontro de ruas e avenidas, 90% do total de lojas que a marca paulista tem na Capital.

Jonathan Heckler/Agencia RBS
Em Porto Alegre, Droga Raia tem 45 lojas em esquinas.

As gaúchas Panvel e São João não responderam ao questionamento. Porém, existem páginas em seus sites onde é possível consultar os endereços de suas farmácias.

Conferindo as unidades no site da Panvel, a reportagem verificou que a rede tem 53 lojas em esquinas de Porto Alegre. Recentemente, a marca fechou uma unidade no encontro da Avenida Borges de Medeiros com a Rua dos Andradas, no Centro Histórico. A operação já foi retirada da lista no portal.

Já entre as unidades cadastradas no site da Farmácias São João, 15 farmácias estão em esquinas. Contudo, a página está desatualizada — já que o portal não inclui as unidades no bairro Centro Histórico, por exemplo, onde a rede tem três lojas de esquina somente na Rua dos Andradas. Também ficou de fora da lista a loja de número 1,2 mil, inaugurada recentemente no encontro das avenidas Ipiranga e Azenha.

— As farmácias estão trabalhando hoje como hubs de saúde, oferecem diversos serviços, o que exige locais de fácil acesso. Existe essa variação de muita gente passando. A esquina maximiza a exposição da marca, se consegue ter duas fachadas. Isso chama atenção para o consumidor. Essas grandes redes preferem terrenos onde há possibilidade de construir — completa o presidente do Sinprofar-RS.

Jonathan Heckler/Agencia RBS
Site da Panvel mostra que rede tem 53 farmácias em esquinas de Porto Alegre.

Pontos valiosos 

Pontos em esquinas são considerados valiosos devido à exposição que a marca tem neste tipo de imóvel, afirma Francisco Zancan, arquiteto, urbanista e CEO da Space Hunters, empresa especializada em análise de mercado com atuação em expansão de negócios e investimentos imobiliários. Segundo o especialista, a procura das redes por esse tipo de loja ocorre até dentro de shoppings.

— A esquina é o ponto de maior visibilidade que se tem. Esta loja consegue aumentar a tua visibilidade de captação, por ter visibilidade em várias ruas. A chance de estar no caminho das pessoas está, no mínimo, dobrada — afirma Zancan, que já mapeou pontos para redes de farmácias abrirem lojas em Porto Alegre.

— Dados que tivemos acesso mostram que as farmácias em esquinas têm desempenho muito melhor do que as outras. No meio de quadra é mais "arriscado". Já na esquina, eu garanto que a pessoa que está saindo daquela rua vai continuar olhando para o meu ponto — completa o especialista.

Jonathan Heckler/Agencia RBS
Segundo sindicato, grandes redes são as que têm poder aquisitivo para assumir pontos em esquinas.

Ainda de acordo com Zancan, outro motivo explica a forte presença de farmácias em esquinas de Porto Alegre: 

— Nosso mercado não está aquecido como o de outros Estados, onde há diversos outros tipos de comércios ocupando esquinas. Aqui, vemos negócios pequenos ficando em espaços menores porque o aluguel é mais barato. As redes de farmácias são as poucas que conseguem pagar o que os donos de imóveis em esquinas estão pedindo — afirma o urbanista.

Para o presidente da Federação das Associações Gaúchas do Varejo (FAGV), Vilson Noer, pontos em esquinas atraem negócios — em especial as farmácias — pela possibilidade de abrigar mais vagas de estacionamento.

— Quem não consegue estacionar vai optar por ir para outra loja ou para um shopping. Ou pior: vai pedir o que precisa por aplicativos. A rede que estiver preparada para todas essas possibilidades vai vender mais — avalia Noer.

Mercado em Porto Alegre

De acordo com o Conselho Regional de Farmácia (CRF/RS), Porto Alegre conta hoje com 663 farmácias (12,3% do total existente no Estado). Cada nova unidade precisa ser registrada na autarquia federal.

No ano passado, segundo o CRF/RS, foram feitos 32 registros para abertura de novas farmácias na Capital. Contudo, 45 baixas foram informadas no mesmo período — resultando em um saldo negativo de 13 unidades.

O levantamento também mostra que, desde a pandemia, 2023 foi o ano que mais registrou pedidos para abertura de farmácias, com 65 novas unidades naquele ano.

O presidente da FAGV, Vilson Noer, diz que as redes gaúchas de farmácias têm apostado em ambientes modernos e na diversificação do mix de produtos para atrair mais clientes.

— A loja física precisa mudar. Fazer exatamente o que essas farmácias estão fazendo: pensar na questão estética, na iluminação e na disponibilidade de produtos. A farmácia virou um pequeno outlet de conveniência — avalia Noer.

A Panvel, por exemplo, vende itens de marca própria — com mais de 1 mil SKUs (tipos de produto e suas variações de tamanho) nas prateleiras — e investe na digitalização dos serviços. A Droga Raia segue no mesmo caminho e diz agregar investindo no segmento de beleza, dermocosméticos e bem-estar.

Os serviços de saúde são outro eixo de investimento nas duas redes, com modelos de loja que mesclam farmácia e clínica, com a aplicação de vacinas como chamariz.

Na semana passada, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto que concede autorização legal para que supermercados comercializem medicamentos em suas áreas de venda. A demanda é um pedido antigo do setor, que reclama de disputa com farmácias, que já podem vender produtos comercializados em mercados. Em unidades da Farmácias São João, por exemplo, é possível encontrar de tênis a air fryer à venda.

Fernando Gomes/Agencia RBS
Farmácias já podem vender alimentos e produtos de varejo encontrados em supermercados.

O que dizem as grandes redes

Com sede em Eldorado do Sul, a Panvel soma 651 lojas em operação, das quais 116 estão em Porto Alegre. Nos últimos 12 meses, a rede inaugurou 51 novas unidades nas regiões Sul e Sudeste, reforçando sua estratégia de expansão regional. Na definição e no mapeamento de novos pontos, a empresa diz que adota "uma visão estratégica e de longo prazo". A avaliação considera indicadores como localização, potencial de fluxo, facilidade de acesso, disponibilidade de vagas de estacionamento e metragem adequada ao modelo operacional.

— Porto Alegre segue sendo um mercado importante para a Panvel. A companhia avalia de forma contínua oportunidades de crescimento na Capital, seja por meio de inaugurações, seja pela qualificação da presença já existente, sempre com uma visão criteriosa e alinhada ao perfil de consumo local — afirma o diretor executivo do Grupo Panvel, Roberto Coimbra.

Recentemente, a marca ampliou sua loja na Avenida 24 de Outubro, em frente ao Parcão. Com a soma de um novo imóvel ao lado, a unidade passou a ter visibilidade pela Olávo Barreto Viana. Mais uma loja de esquina.

PanVel/Divulgação
Loja da Panvel em frente ao Parcão foi ampliada e virou mais uma farmácia de esquina em Porto Alegre.

De São Paulo, a Droga Raia está com 50 farmácias em Porto Alegre — pouco menos da metade do número de unidades da gaúcha Panvel. Desde 2020, a expansão ocorre de forma acelerada na Capital, com a abertura de 30 lojas em cinco anos.

— Seguimos concentrados em nossa estratégia de levar saúde e cuidado para nossos clientes, cada vez mais próximos com novas unidades físicas e com interface digital. Certamente que o Rio Grande do Sul, considerando Porto Alegre, faz parte deste nosso plano de crescimento e proximidade — afirma o diretor de expansão da RD Saúde, Paulo Sanchez.

Jonathan Heckler/Agencia RBS
Em cinco anos, Droga Raia ganhou 30 lojas em Porto Alegre.

O executivo da RD Saúde também revelou o que a empresa avalia na hora de escolher pontos para novas lojas:

— Sempre estamos escutando e observando nossos clientes para estar o mais próximo possível com nossas farmácias. Levamos em consideração diversos fatores do entorno do futuro ponto, como o comércio local, o tamanho do imóvel, o espaço para vagas de estacionamento e os acessos viários e a população do entorno — completa Sanchez.

Procurada, a Farmácias São João não quis comentar sobre sua atuação no mercado de Porto Alegre. Apesar de a empresa não revelar o número de lojas na cidade, é visível o crescimento da marca na Capital nos últimos 10 anos.

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