Retratos da vida
Protagonismo feminino em cena
Festival de Guria aposta na força das mulheres da cena hip hop para levar arte e revitalização à comunidade.


Em um mês marcado pelo Dia Internacional da Mulher, celebrado no dia 8 de março, iniciativas que destacam o protagonismo feminino ganham ainda mais espaço. Em Porto Alegre, o Festival de Guria surge com esse objetivo: fortalecer a presença das mulheres na cena hip hop e levar arte para dentro da comunidade. O evento ocorre amanhã, às 9h, e domingo, às 14h, na Vila Cruzeiro, com uma programação que reúne rap, grafite, slam, breaking e DJs, protagonizada por mais de 20 artistas.
Segundo as organizadoras, as produtoras culturais Geicieli Rehbein e Taina Moxa, a proposta do Festival de Guria nasceu da necessidade de ampliar o protagonismo das mulheres dentro do movimento hip hop e, ao mesmo tempo, criar oportunidades de trabalho para artistas e produtoras culturais.
— A ideia sempre foi que as minas pudessem fazer o seu trabalho e ser valorizadas por isso — explica Taina.
Além da visibilidade artística, a iniciativa busca fortalecer a economia criativa feminina. A proposta é mostrar que as mulheres têm capacidade de organizar, produzir e executar projetos culturais com profissionalismo e dedicação.
— O principal significado do festival é mostrar que todas nós somos uma potência e que executamos o nosso trabalho com dedicação. Muitas vezes, a mulher precisa fazer tudo com ainda mais excelência para ter o mesmo reconhecimento — completa Taina.
Revitalização
Uma das primeiras ações do festival será a revitalização de mais de 100 metros do muro da Escola Estadual Almirante Álvaro Alberto Mota e Silva. As pinturas de grafite começam na manhã de sábado, reunindo artistas mulheres do movimento.
A prática de pintar escolas públicas e espaços comunitários é comum dentro da cultura do grafite e faz parte de uma tradição do hip hop de ocupar e transformar o espaço urbano por meio da arte.
Para as organizadoras, escolher a escola como ponto de partida do festival tem um significado especial, já que muitas instituições públicas enfrentam falta de recursos para manutenção e atividades culturais.
A escolha da Vila Cruzeiro para sediar o festival também partiu dessa ideia de descentralizar eventos culturais. Além disso, o local faz parte de um mapeamento do programa RS Seguro COMunidade, que identifica territórios que precisam de mais ações culturais e sociais para promover o bem-estar da comunidade.
— Em contato com a escola e os alunos, a gente entendeu que, com certeza, esse seria o espaço ideal para fazer esse processo. A nossa proposta foi fazer o caminho inverso e levar a cultura para mais perto da comunidade — destaca Geicieli.
Representatividade
Embora o número de mulheres no hip hop tenha crescido nos últimos anos, as organizadoras afirmam que ainda existem muitos desafios para quem atua no movimento. No caso do grafite, por exemplo, elas lembram que, quando começaram, por volta de 2014, a presença feminina era menor.
— Na época, tinha referências de mulheres, mas nós éramos minoria. Muitas vezes, a gente chegava nos rolês e só tinha homem — relata Taina.
Além da falta de representatividade, elas também lembram que há situações em que o trabalho feminino é subestimado.
— Às vezes, mostramos o nosso trabalho e a reação é de surpresa, como se a pessoa não esperasse aquilo. Existe ainda essa ideia de que a mulher não entrega a mesma qualidade que um homem — afirma.
Apesar disso, elas destacam que o cenário vem mudando, com mais atuação de mulheres.
— Foi um caminho que precisou ser trilhado para que mais mulheres pudessem fazer parte do movimento. Hoje, a gente vê cada vez mais minas organizando eventos e ocupando espaços — afirma a artista.
Outro ponto que o festival busca discutir é a participação feminina em eventos culturais. Segundo as organizadoras, ainda é comum que mulheres sejam convidadas apenas para cumprir uma “cota”.
— Queremos mostrar que as mulheres sabem o que estão fazendo e que o nosso trabalho é incrível também — conclui.
Programação
No sábado, as atividades começam cedinho, com as pinturas de grafite na escola. À tarde, a partir das 14h, haverá intervenções culturais. Às 17h, ocorre o Slam de Guria.
No domingo, a programação se concentra na Praça Rejane Vieira. O público também poderá visitar a Feira de Guria, espaço dedicado a empreendedoras e artistas.
Para Geicieli, realizar o festival no dia 8 reforça o caráter simbólico do evento:
— Enquanto existir uma mulher sem liberdade para ser quem é ou que vive com medo por ser mulher, o 8 de Março continua representando essa luta.
Te liga
/// Quando: amanhã, 9h, e domingo, às 14h
/// Onde: Praça Rejane Vieira (Rua Dona Helena, 90 – Vila Cruzeiro)
*Com orientação e supervisão de Émerson Santos