TUA SAÚDE
Quando o jogo vira problema, busque ajuda
Novo aplicativo do SUS oferece autoteste e teleatendimento para pacientes, aproximando o acesso a profissionais de saúde mental


Nos últimos anos, o aumento do acesso às tecnologias aproximou as pessoas dos jogos de azar e das apostas online. E o termo ludomania ganhou espaço no debate público, principalmente nas áreas de saúde mental. Também conhecido como transtorno do jogo, a condição está ligada ao vício incontrolável de apostar.
— O ato deixa de ser um lazer e se torna a prioridade absoluta e o protagonista na vida do indivíduo. Ela é classificada como uma patologia e uma doença crônica, apresentando características e critérios de diagnóstico muito semelhantes à dependência de substâncias como álcool, cocaína ou anfetaminas — explica Pedro Eugênio Ferreira, psiquiatra, professor do Programa de Residência em Psiquiatria da PUCRS e coordenador do Ambulatório de Dependências Químicas do Hospital São Lucas.
O problema envolve diferentes frentes na vida do paciente. Entre os critérios, o especialista ressalta a compulsão e a fissura. A pessoa tenta interromper o hábito, mas sempre surge uma necessidade intensa de voltar a apostar para recuperar uma sensação de bem-estar.
Como identificar
Entre os sinais de alerta, um dos principais é o surgimento de dívidas graves, o hábito de pedir dinheiro emprestado sem condições de pagar e o comprometimento do orçamento familiar.
A partir disso, começam a surgir conflitos interpessoais. O jogo passa a influenciar o ambiente de trabalho, levar à perda de amizades e gerar estresse familiar.
O especialista destaca ainda um mecanismo biológico perigoso, o sistema de recompensa cerebral:
— Ele libera dopamina no ganho, mas o cérebro também libera endorfina (mecanismo antiestresse) mesmo durante as perdas, o que faz com que o indivíduo continue jogando apesar de todos os prejuízos visíveis.
Cuidados
O tratamento é focado na manutenção da sobriedade, de forma muito semelhante ao do alcoolismo, buscando uma mudança de comportamento e de identidade. Segundo Pedro, a recuperação não é vista como uma “cura” definida, mas como um processo contínuo de vigilância e reabilitação.
O profissional explica que as fases de recuperação e os níveis de consciência do paciente são divididos.
Pré-contemplação: o indivíduo ainda não percebe que está doente e não vê o comportamento como um problema.
Contemplação: se dá conta da doença que traz prejuízos.
Ação: o paciente reconhece e se envolve ativamente no tratamento.
Manutenção: consiste no acompanhamento. Ele identifica gatilhos e evita ambientes.
Recaída: embora o objetivo seja evitá-la, a recaída é compreendida como parte do processo:
— O técnico deve acolher o paciente para que ele não se sinta desmoralizado ou envergonhado e consiga retomar o tratamento.
Entre as ações, modalidades e ferramentas que podem ser procuradas estão a psicoeducação, em que o médico esclarece os fatores genéticos envolvidos. Isso ajuda a diminuir a resistência do paciente e a culpa, mostrando que ele não é apenas “irresponsável”, mas possui uma tendência biológica ao vício.
Os grupos de apoio também são uma ponte para o tratamento. Além de a inserção da família no processo ser crucial para elevar a autoestima do paciente.
Apoio gratuito
O Sistema Único de Saúde (SUS) lançou, no mês de março, um serviço voltado a pessoas com problemas relacionados a jogos de apostas. Ele estreou com a proposta de atender 600 pacientes por mês e pode ser acessado pelo Meu SUS Digital, em parceria com o Hospital Sírio-Libanês.
A proposta é destinada a maiores de 18 anos, familiares e rede de apoio. O aplicativo oferece um autoteste, com perguntas que ajudam a identificar sinais de risco. Em casos de risco moderado ou alto, o usuário é encaminhado para o teleatendimento; quando o risco é baixo, a orientação é buscar a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), como CAPS e UBS.
A plataforma também reúne conteúdos sobre sinais de alerta, prevenção e impactos das apostas na saúde mental, além de oferecer suporte por meio da Ouvidoria do SUS e canais digitais.
O teleatendimento é realizado por vídeo, com duração média de 45 minutos, e integra ciclos estruturados de cuidado que podem chegar a 13 sessões, individuais ou em grupo. O serviço é gratuito e confidencial, com uma equipe multiprofissional.
Como acessar
\\\ Para utilizar, é preciso baixar o aplicativo, que está disponível de forma gratuita nas lojas Android, IOS ou na versão web.
\\\ Faça login com a conta gov.br.
\\\ Na página inicial, clique em “Miniapps”.
\\\ Em seguida, selecione a opção “Problemas com jogos de apostas?”.
* Com orientação e supervisão de Émerson Santos