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Inadimplência

"Quando vi, estava com dois cartões de crédito estourados": por que cada vez mais jovens estão com nome sujo no RS 

Em janeiro deste ano, 422,9 mil gaúchos com idades entre 18 e 25 anos tinham contas atrasadas; montante de negativados nessa faixa etária cresceu 21,44% no primeiro mês de 2026

02/03/2026 - 10h07min


Anderson Aires
Anderson Aires
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A gaúcha Samira Sagr, 25 anos, participante do BBB 26, não chama a atenção apenas pelas roupas e botas que remetem ao início dos anos 2000 ou pelos posicionamentos no jogo. Natural de Butiá, a sister não faz questão de esconder os problemas com dívidas. Admite que abrir o aplicativo do banco é o seu maior medo e que quer o prêmio milionário do programa para limpar seu nome. A gaúcha confinada na casa mais famosa do Brasil faz parte de um grupo cada vez mais crescente: o de jovens com dívidas em atraso. 

Massa inadimplente

  • O drama de Samira é compartilhado por 422,9 mil gaúchos entre 18 e 25 anos que estavam inadimplentes no Estado em janeiro de 2026, segundo dados da Serasa.
  • Comparando com janeiro de 2020, o montante de jovens negativados cresceu 21,44% no Estado.
  • Levando em conta fatia dentro do total de inadimplentes do Estado, o grupo de 18 a 25 anos ocupa 10,5% dos 4 milhões de gaúchos com dívidas em atraso. 

O avanço no total de jovens de 18 a 25 anos com dívidas em atraso tem como pano de fundo um ambiente econômico com renda corroída por inflação, juro alto e aumento do custo de vida. Mas, além disso, a expansão do crédito, com o advento da digitalização, e a falta de educação financeira também ajudam a explicar esse cenário.

Aline Vieira, especialista em educação financeira da Serasa, afirma que a combinação entre facilidade de acesso ao crédito, verificada nos últimos anos, e menor familiaridade com o orçamento no início da vida adulta são fatores que potencializam a inadimplência nessa faixa etária:

— Esses jovens estão iniciando a sua vida financeira em um ambiente com cada vez mais crédito digital. Existe, sim, um aumento da tomada de crédito e, muitas vezes, esses jovens podem ter menos experiência com planejamento financeiro.

Mateus Bruxel/Agencia RBS
Luma usou a educação financeira para sair da inadimplência

Desafios da vida adulta

Luma Gabriela de Oliveira, 24 anos, integrou o grupo de jovens inadimplentes, mas conseguiu reverter esse cenário. No ano passado, mudou-se para Porto Alegre, onde mora de aluguel, em razão dos estudos de licenciatura em dança na UFRGS. Recebendo cerca de R$ 900 do pai para arcar com o pagamento do aluguel e R$ 700 de uma bolsa relacionada aos estudos, além de complementar a renda com trabalhos freelancer, acabou perdendo o controle do orçamento. Começou a se endividar com os gastos naturais de uma nova moradia e acúmulo de dívidas no cartão de crédito, que também emprestava para o namorado. Em março do ano passado, a situação agravou e ela ficou inadimplente.

Eu e meu namorado gastamos muito e eu não consegui controlar o que a gente estava gastando. Quando vi, eu estava com os dois cartões de crédito estourados, devendo mais de R$ 3 mil e não tinha como pagar, porque eu só recebia R$ 700 por mês de forma fixa.

LUMA GABRIELA DE OLIVEIRA

Estudante

A falta de crédito e dinheiro no débito a impedia de realizar atividades básicas, como comprar alguns itens de supermercado e utilizar transporte público. Em abril de 2025, começou a buscar alternativas para sair dessa situação e ter acesso a crédito. Foi atrás de uma renda extra, trabalhando em eventos no brique da Redenção aos sábados, em uma padaria e prestando serviços na área de eletrotécnica, na qual tem formação técnica.

Ela destaca que passou a usar a educação financeira para ver melhor o quanto ganha e o quanto gasta. Com isso, evita comprar por impulso ou gastos desnecessários: 

— Para mim, o que funciona é enxergar o que eu tenho hoje de gasto e os meus gastos futuros. Além disso, colocar uma meta de gastos. Então, o que eu fiz para me organizar? Botei tudo numa planilha. Para mim, funciona escrever. Então, eu escrevia tudo no papel.

Causas multifatoriais

Wendy Haddad Carraro, educadora financeira e professora do curso de Ciências Contábeis e de Economia da UFRGS, avalia que o aumento no número de jovens inadimplentes  envolve vários fatores. Um dos principais é o fato de essa faixa etária contar com uma renda mais baixa e, principalmente, instável. Parcela desse público está em empregos temporários, informais ou em início de carreira, barreiras consideráveis para planejamento e formação de reserva, segundo a especialista.

É o momento de transição para a vida adulta. Muitos passam a administrar sozinhos aluguel, contas e alimentação. Ainda estão aprendendo a lidar com fluxo de caixa, juros e parcelamentos. O limite do cartão acaba sendo visto como complemento da renda.

WENDY HADDAD CARRARO

Educadora financeira e professora do curso de Ciências Contábeis e de Economia da UFRGS

Além disso, a educadora financeira afirma que, em alguns casos, existe um fator familiar nessa equação:

— Em muitos casos, o jovem utiliza seu CPF para ajudar a família, parcelando compras ou contratando empréstimos. Quando há atraso, o impacto recai sobre ele.

Fatores comportamentais, como influência de padrões de consumo impulsionados pelas redes sociais, também pesam no endividamento e na inadimplência, segundo a especialista.

Primeiro empréstimo da vida

Bruno Todeschini/Agencia RBS
Domingues viu as contas apertarem neste início de ano.

O avanço na massa de jovens inadimplentes ocorre na esteira do endividamento crescente nessa faixa etária. Com custo de vida mais elevado, mudanças no mercado de trabalho, inflação e juro estacionado em patamar elevado, parte desse público acaba apelando ao crédito de forma mais recorrente para organizar o orçamento e as obrigações da vida adulta. Esse é o caso de Alexandre Domingues, 24 anos, que tem uma produtora cultural independente. 

Estudante de artes visuais, Domingues vivia com a família em Canoas, onde dividia despesas e não pagava aluguel, o que lhe garantia uma maior estabilidade financeira. Após a enchente, se mudou para o centro de Porto Alegre para morar sozinho, passando a arcar com aluguel e custos de supermercado, que acabaram comprometendo seu orçamento. Além disso, após a inundação, viu diminuir a frequência de editais de cultura — sua principal fonte de renda. Com isso, teve de tomar uma medida inédita:

O jeito que achei foi, nesse começo de 2026, pegar um empréstimo para poder segurar um pouco as contas. A primeira vez na vida que eu estou nessa situação, de ter que recorrer a isso, de pegar um empréstimo.

ALEXANDRE DOMINGUES

Produtor cultural

Domingues destaca que não tem uma estratégia muito clara sobre como evitar que a sua situação evolua para a inadimplência. Afirma que o foco, neste momento, é buscar um novo projeto para ter renda e honrar a dívida.

Bruno Todeschini/Agencia RBS
Endividamento cada vez mais cedo impulsiona a inadimplência.

Educação financeira

Quando questionados sobre quais os caminhos para contornar ou evitar a situação de inadimplência, especialistas são praticamente unanimes: isso passa por educação financeira e planejamento. Quanto mais cedo isso entrar na vida das pessoas, mais distantes elas estarão do descontrole nas contas.

Muitos jovens também estão buscando educação financeira para esse ano. Então, temos aí uma esperança, uma expectativa de que jovens cada vez mais estão buscando informação. E o Serasa tem esse papel de levar, por exemplo, por meio de influenciadores, redes sociais, uma linguagem mais leve para atingir esse público

ALINE VIEIRA

especialista em educação financeira da Serasa.

A professora Wendy destaca que, além da educação financeira prática, a resposta para mitigar esse problema passa por políticas que fortaleçam renda e empregabilidade.

Como Dicas para lidar com as contas

Quer evitar a inadimplência?

  • Separe renda real do crédito. Entender que o limite do cartão não é renda extra é importante. Faça apenas parcelas que caibam dentro do que recebe.
  • Antes de qualquer compra parcelada, tenha clareza sobre o quanto você vai precisar pagar todo mês (aluguel, transporte, alimentação, mensalidades).
  • Defina um teto de valor para lazer, refeições prontas e compras por impulso.
  • Evite parcelar despesas recorrentes. Não parcele gastos do dia a dia porque isso pode criar um efeito bola de neve, comprometendo os meses seguintes.
  • Crie uma reserva, mesmo que pequena. Juntar um valor fixo todo o mês reduz a necessidade de recorrer ao crédito em situações de emergência.

Já está inadimplente. E agora?

  • Liste todas as dívidas e organize as prioridades. Identifique valor total, juros e prazo. Comece negociando as que têm juros mais altos, por exemplo.
  • Bancos e financeiras costumam oferecer melhores condições quando há iniciativa do devedor. Busque negociação nesses casos
  • Evite fazer uma nova dívida para pagar as antigas. Trocar um débito caro por outro ainda mais alto agrava o problema.
  • Reduza os gastos não essenciais até melhorar a situação.
  • Defina em quanto tempo pretende regularizar sua situação e acompanhe mês a mês o progresso.

Fonte: Wendy Haddad Carraro, educadora financeira e professora do curso de Ciências Contábeis e de Economia da UFRGS


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