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"Tenho medo de entrar no hospital", relata vítima de técnico de enfermagem preso por importunação sexual 

John Douglas de Lima Machado, 40 anos, foi preso nesta semana, por suspeita de importunação sexual contra 14 colegas

22/03/2026 - 10h09min


Leticia Mendes
Leticia Mendes
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Ronaldo Bernardi/Agencia RBS
Uma das profissionais que trabalhou com o suspeito diz que o assédio era velalado, longe dos olhos de colegas.

O sonho de trabalhar no mesmo hospital onde nasceu, em Porto Alegre, se transformou em trauma para Clarissa (nome fictício). Aos 45 anos, ela tenta lidar com os reflexos de uma violência sofrida no ano passado e planeja, com sofrimento, mudar de emprego. A profissional é uma das 14 mulheres que relatam terem sido vítimas de importunação sexual por parte de um técnico em enfermagem.

  • John Douglas de Lima Machado, 40 anos, foi preso de forma preventiva nesta semana pela equipe da 2ª Delegacia da Mulher da Capital. 
  • Ele é investigado por importunar sexualmente colegas no período em que atuou no Hospital Nossa Senhora da Conceição, entre agosto e dezembro. 
  • Em janeiro, ele foi afastado do trabalho, e atualmente responde a processo administrativo
  • Na defesa prévia no hospital, alegou que eram apenas brincadeiras, e, após ser preso, optou por permanecer em silêncio.
  • O hospital afirma ter oferecido suporte psicológico e aberto investigação, enquanto o Coren-RS analisa o caso sob sigilo.

As vítimas convivem com sentimento de culpa, medo, vergonha e de serem, por vezes, desacreditadas.

— Tenho medo de entrar no hospital. Vi um homem parecido com ele, na frente do hospital, e fiquei pensando: "E se for um parente?". A gente tem muito medo. Era um sonho trabalhar ali. Hoje não dá mais vontade de trabalhar. Tu ficas o tempo todo se sentindo culpada. É um ambiente muito machista — desabafa a mulher, que tem a identidade preservada nesta reportagem.

No caso de Clarissa, o primeiro episódio de importunação sexual aconteceu no mesmo dia em que ela conheceu o colega e passou pelo primeiro plantão com ele, no fim de setembro. A vítima diz que chegou a duvidar de si mesma, mas, dois meses depois, a situação se repetiu.

— A gente se sentia louca. Como se estivesse vendo coisa que não existia. Será que ele achou que eu consenti? Mas tem meninas que foram rudes e, mesmo assim, ele fez de novo — relata.

A profissional diz que já havia sofrido outra violência por parte de um colega dentro do hospital e, por isso, ficou paralisada quando foi importunada.

— A gente fica com receio de ser perseguida, sofrer retaliação. Acabei ficando com medo. E vergonha também — diz.

Confraternização foi ponto de partida

Em dezembro, durante uma confraternização de fim de ano entre as colegas do hospital, Clarissa ouviu uma das mulheres relatar uma situação semelhante à que tinha vivido. Naquela noite, as funcionárias compartilharam entre elas os episódios e perceberam que não estavam sozinhas. Foi quando decidiram que era preciso levar aquele caso adiante e buscar ajuda. Juntas, comunicaram o hospital e registraram ocorrência na Polícia Civil.

Ele agia em situações em que a gente estava sozinha ou que não tinha ninguém olhando. O assédio dele era velado. Ali, todas viram que era algo recorrente, comum. A gente chegou a 18 mulheres, que conversamos diretamente. Muitas não quiseram denunciar por medo de perder o emprego. Outras simplesmente ficaram com vergonha.

CLARISSA

Nome fictício de vítima

"A gente ficou meio invalidada"

Entre os colegas, Machado era conhecido como um profissional dedicado e comprometido. No hospital, as vítimas chegaram a ser indagadas por outros profissionais, que não acreditavam nos relatos. Os relatos de importunação chegaram a ser alvos de deboches.

— Os nossos colegas riam da gente, dizendo que era mentira, que ele era um cara legal. Em vez de vítimas, nos sentimos culpadas, como se a gente tivesse pedido para ter esse assédio. Então a gente ficou meio que invalidada ali naquele momento. Se sentia desprotegida, por isso, a gente decidiu ir para polícia. Foi somente na delegacia que nos sentimos acolhidas, olhadas, abraçadas — descreve Clarissa.

A profissional reclama também da assistência por parte do próprio hospital e diz que, inicialmente, não se sentiram validadas e precisaram insistir, segundo a vítima, para ter suporte psicológico.

— Ele primeiro foi remanejado para o turno da tarde. No turno da tarde, duas meninas foram assediadas por ele. A enfermagem lutou para tirar ele de lá. Aí conseguiram fazer com que ele realmente fosse afastado, por causa da nossa pressão. Se a gente não fizesse essa pressão, de cobrar uma atitude mais efetiva, de nos dar segurança para chegar e trabalhar, isso não teria acontecido. Espero que a justiça seja feita, que fique preso e pague por todos os crimes que ele tenha cometido. Que outras mulheres denunciem — afirma Clarissa.

"Quando a primeira falou, todas sentiram coragem"

Lúcia (nome fictício), 55 anos, que atua há mais de uma década no hospital, também relata ter sido vítima do técnico de enfermagem. Numa das oportunidades, ela chegou a repreendê-lo com um tapa na mão, para que não tocasse mais em seu corpo.

A gente sai para trabalhar e nunca vai imaginar que vai ter que passar por essas situações e ainda ter que provar que não está mentindo, que isso aconteceu. A gente levou um tempo para relatar, uma escondeu da outra, até por vergonha. Quando a primeira falou, todas sentiram coragem.

LÚCIA

Nome fictício de vítima

Ronaldo Bernardi/Agencia RBS
Mulher conta chegou a dar tapa na mão do investigado e deixar claro que não autorizava que ele a tocasse.

— A gente espera que daqui para a frente as pessoas comecem a denunciar, que a mulher entenda que ela não é um objeto, não é um brinquedo, que merece ser respeitada, que homem nenhum tem o direito de fazer o que bem entende — desabafa.

A profissional afirma que desde o início suspeitou do comportamento invasivo do colega, que costumava tocar nas outras pessoas, causando constrangimentos. No entanto, ficou surpresa ao descobrir na polícia que ele possui histórico por um caso de estupro de vulnerável, que está em apuração, e um de importunação sexual contra uma paciente, em outro hospital da Capital.

— É muito difícil. Quando tu trabalhas na área da saúde, como na área da educação, são duas áreas que tu tens que ter um coração extra. Tu tens que saber respeitar as diversidades, tu tens que saber respeitar os limites das pessoas, tu tens que saber ser afetivo sem ser abusado, e isso não aconteceu. Mais uma vez, peço que quem foi vítima dele, não importa se foi há cinco anos, há 10 anos, não importa, procure a delegacia, não só por você, mas pelas prováveis vítimas — diz.

Contrapontos

O que diz John Douglas de Lima Machado

Zero Hora tenta localizar a defesa de John Douglas de Lima Machado. O espaço está aberto para manifestação. 

O que diz o Grupo Hospitalar Conceição (GHC) 

"O Grupo Hospitalar Conceição (GHC) reafirma seu compromisso com a apuração rigorosa de denúncias de assédio ou violência na instituição. 

Importante esclarecer que a denúncia em questão foi formalizada à coordenação do setor pela enfermeira do turno na noite em 24/12 (Natal).

No primeiro dia útil (dia 26/12) foi imediatamente aberto o procedimento de apuração na Corregedoria e iniciada a busca para ouvir as testemunhas. 

Todos os relatos formalizados foram incluídos no processo.

Para todas as vítimas foi disponibilizado acompanhamento pelo RE-HUMAM, serviço especializado do GHC voltado ao acolhimento de mulheres em situação de violência, sejam elas usuárias ou funcionárias. 

Ao longo dos 2 anos de existência do RE-HUMAM, o serviço já acompanhou 29 trabalhadoras. 

Atualmente, por exemplo, o RE-HUMAM mantem acompanhamento para 7 trabalhadoras. 

Importante destacar que os canais de denúncia da gestão agiram rapidamente desde o momento da formalização da denúncia. 

Durante a realização de todos os depoimentos desse processo, uma equipe multidisciplinar, contando com psicóloga e assistente social, esteve de prontidão e à disposição para realizar o atendimento no local das audiências, em sala privativa. 

O suporte especializado foi garantido para atuar tanto antes quanto imediatamente após as audiências, visando preservar a integridade das envolvidas de forma humanizada. 

O GHC reitera que está em aprimoramento contínuo de seus fluxos internos para assegurar que a condução das investigações ocorra sempre de forma segura, técnica e protetiva. Tanto é assim que está estruturando um protocolo especifico entre Corregedoria, Gestão de Pessoas e RE-HUMAM com o objetivo de fortalecer este acolhimento para as trabalhadoras.

Além disso, possui um Planto de Enfrentamento ao Assédio Moral e Sexual que foi instituído em 2023 com o intuito de manter permanente esclarecimento e conscientização dos mais de 13.600 trabalhadores que constituem o Grupo.

Gerência de Comunicação do Grupo Hospitalar Conceição 

POA, 20/03/26."

O que diz o Conselho Regional de Enfermagem

"O Conselho Regional de Enfermagem do Rio Grande do Sul (Coren-RS) informa que já recebeu denúncia sobre o caso envolvendo o técnico de Enfermagem do Hospital Conceição suspeito de importunação sexual. Desde então, a situação vem sendo analisada pelo Conselho e tramita sob sigilo, conforme determinam os procedimentos legais e ético-disciplinares.

A denúncia poderá resultar na abertura de um processo ético, no qual o profissional será julgado dentro do devido processo legal, com garantia de ampla defesa e do contraditório. Nesses casos, a legislação prevê sanções que podem variar de advertência até a cassação do direito ao exercício profissional.

O Coren-RS reafirma seu compromisso em defender a ética na Enfermagem, a proteção de colegas da categoria e da proteção da sociedade, conduzindo todas as apurações de forma responsável."

O que é importunação sexual

  • É quando se pratica ato libidinoso ou comete outra prática contra alguém, sem sua permissão, para satisfazer desejo sexual.
  • Pode ser, por exemplo, apalpar, tocar, beijar à força, masturbar-se, entre outros. A pena prevista é de reclusão de um a cinco anos.

Como agir

  • Em muitos casos, a vítima não consegue pedir ajuda porque fica paralisada. Por isso, é essencial que quem testemunha esse tipo de crime também saiba como agir. 
    Ligue imediatamente para a Brigada Militar, pelo 190.
  • Se ocorrer dentro de ônibus, tente identificar a linha e localização do ônibus.
  • Se possível, fotografe o agressor, se for vítima ou testemunhar um caso desses.
  • Se o crime já aconteceu, tranquilize a vítima e oriente que ela registre o fato. Neste caso, é possível registrar o fato em qualquer delegacia ou pela Delegacia Online. Também é possível entrar em contato com a Polícia Civil pelo 181 ou (51) 98444-0606.

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