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Ato de coragem

"Tenho uma vida para salvar": policiais evitam queda de mulher em surto no 12º andar; veja vídeo

Caso aconteceu na tarde de segunda-feira (2) em prédio no bairro Teresópolis, na zona sul de Porto Alegre; vítima passa bem e recebeu encaminhamento 

03/03/2026 - 15h26min


Leonardo Martins
Leonardo Martins
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Pouco antes das 14h de segunda-feira (2), moradores de um edifício residencial no bairro Teresópolis, na zona sul de Porto Alegre, ouviram pedidos desesperados de socorro vindos do 12º andar. Em uma ação de alto risco, três agentes de segurança evitaram a queda de uma mulher em surto que estava no parapeito do apartamento.

O vídeo acima mostra a cena. Do lado de fora do prédio, sem qualquer equipamento de segurança, o policial penal Everton Muniz de Lima caminha sobre as estruturas metálicas dos aparelhos de ar-condicionado, apoiando-se no parapeito de alumínio da janela. 

A poucos metros dele, a mulher de 55 anos está parcialmente para fora da janela do apartamento.

Enquanto Everton avança pelo lado externo, o policial civil Guilherme Moraes Machado, que estava de férias em casa (no prédio ao lado), decide agir por dentro.

Tenho uma vida para salvar. Eu tenho o dever de salvar aquela vida. Foi o que passou na minha cabeça — relembra o policial civil.

Mulher estava em surto e trancada dentro do próprio imóvel

Divulgação/Polícia Civil
Vídeo mostra o policial penal Everton Muniz de Lima andando pela parte de fora do prédio.

Guilherme conta que estava organizando o almoço quando viu, no grupo de WhatsApp do condomínio, a mensagem sobre alguém pedindo socorro no prédio ao lado. Ao abrir o vídeo, identificou a mulher na janela gritando: "Ele está querendo me matar".

— A princípio, eu pensei: tentativa de feminicídio. Peguei minha arma, minha algema, botei um tênis e fui. Avisei colegas da Brigada e meu chefe de investigação. Eu estava de férias, mas tinha uma vida em risco — relata.

Ao chegar ao prédio, descobriu que dois policiais penais já haviam entrado e tentavam acessar o apartamento vizinho para chegar à vítima pela área externa. Guilherme subiu seis andares de escada para evitar eventual encontro com um suspeito na fuga.

Divulgação/Polícia Civil
Mulher recebeu atendimento no local e foi encaminhada para instituição de apoio psicológico.

No 12º andar, recebeu a informação de que a mulher estava em surto e trancada dentro do próprio imóvel. Do lado de fora, sobre a estreita laje que abriga os motores dos ar-condicionados, um dos colegas já se aproximava dela.

Sem repetir a estratégia, Guilherme optou por arrombar a porta.

— Pensei: não adianta três fazerem a mesma coisa. Se eles estão por fora, eu vou por dentro. Quando a porta cedeu, eu voei nela. Me agarrei na camiseta e puxei. Foi simultâneo: puxei por dentro e ele mergulhou nela por fora. Parece ensaiado, mas foi instinto — descreve.

"Era uma pessoa pedindo ajuda"

Everton Muniz de Lima, diretor do Patronato Lima Drummond, ligado à Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe), estava no pátio da unidade quando, ao lado da colega Grasiele Costa Schmaltz, policial penal, ouviu os gritos de socorro.

— A gente não sabia de onde vinha. Quando localizamos, vimos ela na janela, pedindo socorro. Falavam em sequestro, tentativa de feminicídio. A gente não se prendeu a isso. Era uma pessoa pedindo ajuda — afirma Everton.

Para entrar no prédio, foi preciso arrombar a porta de acesso, que funciona com identificação digital e reconhecimento facial. 

Já de dentro do apartamento vizinho, os policiais encontraram a mulher no parapeito, segurando um cachorro e dizendo que estavam tentando matá-la.

— O parapeito é de alumínio. Quando botei meu peso, ele estourou. Eu consegui me agarrar na janela. Minha colega disse: "Vai pelos ares-condicionados". Era a única solução — relembra.

As unidades de ar-condicionado estavam separadas por cerca de um metro. A cada passo, o equipamento cedia sob o peso do agente.

— Não olhei para baixo. Se eu olhasse, ia fraquejar. Ela estava a três metros de mim. Eu pensava: são três metros e uma vida. Se eu não for, como fica minha consciência depois? — diz.

Em determinado momento, ele convenceu a mulher a soltar o cachorro e deixá-lo dentro do apartamento. Com parte do corpo novamente voltada para o interior, ela ainda mantinha os pés do lado de fora. Foi quando Everton conseguiu empurrá-la.

— Quando ela caiu para dentro, eu me joguei junto. Ela tentou me empurrar de volta para a janela. Era uma força fora do normal — relata o policial penal.

Luta corporal e contenção

No mesmo instante, Guilherme arrombou a porta e avançou. A mulher é puxada por dentro e empurrada por fora quase ao mesmo tempo.

A contenção exigiu o auxílio de um vizinho praticante de jiu-jitsu, que ajudou a imobilizá-la até a chegada do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e da Brigada Militar.

Segundo Guilherme, mesmo após a aplicação de medicação sedativa, a mulher mantinha intensa agitação.

— A técnica de enfermagem comentou que as medicações não estavam fazendo efeito. Pessoa em surto tem uma força impressionante — afirma.

Após estabilização, ela foi encaminhada para atendimento médico especializado. 

Antes, os policiais ainda fizeram a varredura completa no apartamento para descartar a presença de qualquer outra pessoa, procedimento padrão em ocorrências com potencial risco oculto.

Instinto, técnica e risco calculado

A ocorrência terminou sem feridos e sem queda. A intervenção rápida evitou um possível desfecho trágico do 12º andar. Lima reconhece que houve risco:

— Foi imprudente? Talvez. Mas eu precisava tentar. Era tudo ou nada. Muita fé e a certeza de que eu podia ajudar.

Machado, pai de um bebê de um mês, também pondera sobre o equilíbrio entre coragem e autopreservação.

— Pensei: tenho que salvar aquela vida, mas também preciso me preservar. Não adianta salvar alguém e não voltar para casa. No fim, deu certo. Graças a Deus, deu certo — comenta.

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