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"Uso muito minha intuição e criatividade": Projetos aumentam o incentivo à leitura na infância

Conheça os relatos de duas mulheres que adotam diferentes estratégias para trazer o hábito de ler para a vida das crianças. 

23/03/2026 - 06h00min


Breno Bauer*
Breno Bauer*
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Instituo Ágora/Divulgação
Encontro entre autores e alunos é o diferencial da Feira do Livro

Não é por acaso que Sônia Zanchetta é coordenadora de programação da ala infantil e juvenil da Feira do Livro de Porto Alegre desde 1997. Graduada em Jornalismo pela PUCRS, ela atribui sua formação como leitora ao fato de ter crescido em uma casa “com livros pelo caminho”. 

Hoje, oportunizar que crianças tenham contato com o mesmo universo que despertou seu interesse pelas histórias é sua vocação. Para ela, a chave para isso é colocar a criança no centro do processo de decisão:

– O ato da escolha é essencial para a formação do leitor. Quando tu pões o dinheiro na mão da criança e a deixas livre para comprar o livro que quiser, aquela leitura pode levá-la a muitas outras. 

Como os livros custam caro, Sônia é uma grande defensora das bibliotecas. Por isso, quando foi morar em Cachoeirinha, na Região Metropolitana, começou a realizar projetos voluntários de literatura. Em 2013, fundou uma biblioteca comunitária, que cresceu. Assim, em 2020, nasceu o Instituto Ágora, que busca oferecer experiências de aprendizagem.

– Comecei a realizar projetos e, quando a gente criou o Instituto, ele assumiu não só a biblioteca comunitária, mas uma parada de ônibus dedicada à leitura e projetos de troca e doação de livros – diz. 

Um convite à cidade

Hoje em dia, o Instituto Ágora realiza o projeto “Vamos Ler Cachoeirinha?”, cujo carro-chefe é a Feira do Livro, que neste ano está na terceira edição. Programado para ocorrer de 16 a 18 de abril, o evento vai colocar em prática o ideal de Sônia: haverá um bônus-livro no valor de R$ 58 para 1.856 estudantes, que poderão exercitar o ato da escolha. Para isso, as crianças devem estar vinculadas a alguma das atividades artísticas da feira – que incluem contação de histórias, teatro e encontros com escritores e slammers. 

Por meio disso, Sônia relata que consegue promover o encontro entre alunos e autores de obras.

– Quando as crianças vão à feira, depois de ter contato com a obra dos autores, elas chegam com uma expectativa incrível. Elas querem conhecer e saber como aquela pessoa teve aquela ideia. 

As inscrições nas atividades para turmas de escolas públicas de Cachoeirinha estão abertas a partir de hoje pelo e-mail contato@institutoagora.org. Mais informações podem ser encontradas no perfil do Instagram @agora_instituto_cultural.

Incentivando com criatividade e memórias

Na Escola Municipal de Ensino Fundamental Neusa Goulart Brizola, em Porto Alegre, o incentivo à leitura também está diretamente conectado à vivência coletiva das turmas. Por atender aos alunos em tempo integral, a instituição passou a planejar atividades em diferentes áreas, dentre elas a literatura.

Marizete Roso/Arquivo Pessoal
Espaço confortável é incentivo

Foi assim que surgiu, em 2022, o projeto do clube do livro da escola, que a partir deste ano passou a integrar a lista de disciplinas eletivas ofertadas aos alunos do 6º ao 9º ano, conforme aponta o diretor da escola, João Francisco Pereira.

À frente do projeto, a professora de português Marizete Roso, 44 anos, conta que a necessidade de cultivar o contato com os livros criado na primeira metade do Ensino  Fundamental – quando os alunos vão à biblioteca e fazem leituras orientadas regularmente – foi o propulsor do projeto. No clube, os alunos se reúnem em uma sala confortável, com redes e colchonetes, e se revezam na leitura conjunta das obras.

– Comecei a criar essas rodas de leitura como um momento prazeroso. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) diz que a leitura tem que ser uma fruição. Eu preciso proporcionar uma experiência ao aluno. Não estou ali para cobrar um trabalho ou uma nota. Eu quero que, quando ele sair da escola, lembre do clube do livro – diz Marizete, que agora iniciou um mestrado para entender como a tecnologia pode ser uma aliada no incentivo à leitura.

Além do ambiente, os livros também precisam se adequar às demandas dos alunos, encontrando assuntos de interesse da faixa etária dos grupos. Por causa disso, ela conta que o principal desafio para a manutenção do clube é o de renovar o acervo da biblioteca. 

– Não tenho uma fórmula pronta, uso muito minha intuição e criatividade. Mas uma coisa importante é entender o interesse daqueles alunos, daquela faixa etária. Como estamos trabalhando com pessoas, o clube do livro não pode ser engessado, o projeto precisa ser vivo. Adolescentes precisam de novidade constante – diz ela. 

"Quebrar barreiras"

Marizete também ressalta a importância de se criar memórias afetivas com a literatura a partir das temáticas dos livros. Por isso, na conclusão de cada obra, a professora elabora passeios, rodas de conversa e gincanas.

Com isso, ela conta que a literatura foi capaz de “quebrar barreiras”, acessar assuntos que dificilmente são conversados em outras disciplinas e melhorar as relações interpessoais das turmas. 

Para mergulhar nos livros

Sônia e Marizete apresentam dicas valiosas para inserir os pequenos no universo da literatura

/// Dar liberdade às crianças para a escolha dos livros

/// Encontrar obras com assuntos de interesse da faixa etária

/// Buscar bibliotecas escolares ou comunitárias

/// Não transformar a leitura em uma cobrança

/// Promover experiências afetivas a partir dos assuntos das obras


*Com supervisão e orientação de Émerson Santos



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