Esporte que transforma
Do tênis à biblioteca: WinBelemDon inspira a criançada há 25 anos em Porto Alegre; veja vídeo
Iniciativa no Belém Novo atende dezenas de jovens e já impactou mais de mil pessoas com atividades esportivas, educacionais e sociais


Há 25 anos, a ONG WimBelemDon transforma a realidade de crianças e adolescentes no extremo sul de Porto Alegre por meio do tênis. Mais do que ensinar o esporte, o projeto usa as quadras como porta de entrada para promover inclusão social e ampliar perspectivas de jovens em situação de vulnerabilidade.
O nome da iniciativa faz referência ao tradicional torneio de Wimbledon e ao bairro Belém Novo, onde surgiu. Apesar da inspiração, o espaço vai além do esporte e oferece atividades culturais, pedagógicas e socioemocionais, como oficinas de leitura, programação, robótica, línguas, ioga, meditação e rodas de conversa voltadas à saúde mental.
Ao todo, 90 crianças e adolescentes são atendidos no contraturno escolar. Os participantes recebem almoço e lanche. Gerente de comunicação do WimBelemDon, Cristiano Santarem estima que mais de 1,2 mil estudantes já tiveram suas vidas impactadas pelo projeto:
— Muitas histórias se desenvolveram depois daqui. Ex-educandos que transformaram suas vidas. Tem casos de crianças que foram as primeiras das suas famílias a concluir o ensino superior. Isso é importante, mas não é fundamental. Também tem casos dos que passaram por aqui e continuam morando no bairro, vivendo de forma digna, com as suas famílias e ajudando no crescimento da região.
O custeio mensal da ONG ocorre, principalmente, de duas formas. A primeira é por meio de leis de incentivo, como o Fundo Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (Funcriança), que permite que pessoas físicas e empresas destinem parte do Imposto de Renda a projetos sociais. A segunda vem de doações diretas de apoiadores, feitas de forma mensal ou esporádica.
De educando a educador: histórias que transformam
Há também quem tenha passado pelo projeto como educando e, anos depois, voltou como educador. Dos 19 funcionários do WimBelemDon, cinco já estiveram dos dois lados.
É o caso da professora de tênis Jaleska Mendes. Em 2004, aos nove anos, integrou uma das primeiras turmas. Hoje, referência para os mais jovens, relembra com carinho a influência do projeto em sua trajetória:
— Desde que entrei, há 20 anos, me apaixonei pelo esporte. Comecei a participar de torneios de tênis e isso me motivava a estar aqui e manter notas boas na escola. Anos depois cursei Educação Física e, desde 2018, sou contratada como professora de tênis. É muito bom estar do outro lado, porque entendo qual é o sentimento deles.
Quando uma família manifesta interesse em matricular uma criança no WimBelemDon, uma equipe multidisciplinar, formada por psicólogos e assistentes sociais, faz entrevistas e análise documental. Os novos participantes devem ter entre seis e 12 anos. Quem ingressa pode permanecer até os 18.
Jhully da Veiga Duarte, 15 anos, conheceu o projeto após se encantar pelo tênis em uma atividade escolar. A modalidade foi a porta de entrada para um universo de novas possibilidades.
— Gosto muito da experiência de estar aqui, porque a gente vê que a partir daqui a gente tem muitas oportunidades, não só agora, como daqui para frente — afirma a educanda.

Além das atividades esportivas, Jhully participa de oficinas de leitura, informática e rodas de conversa voltadas à saúde mental. Para ela, o contato com diferentes áreas fez a diferença:
— A gente chega aqui e vira outra pessoa. A gente aprende uma rotina, a ter respeito, um cuidado que a gente, às vezes, não tem.
Mudanças como essas são destacadas pelos educadores, que valorizam a união entre esporte e formação cidadã.
— A quadra de tênis também é uma sala de aula. Eles aprendem muito aqui, não só sobre o jogo, mas sobre respeito. Estamos ensinando algo através do esporte — destaca Jaleska.
Oportunidades além das quadras
Em outubro de 2025, o projeto deu mais um passo ao inaugurar a biblioteca comunitária Sabiá do Saibro Sábio, em Belém Novo. O espaço, construído em um contêiner na Praça Carlos Santa Helena, em frente à sede do WimBelemDon, reúne milhares de exemplares e amplia o acesso à leitura para jovens atendidos pela iniciativa e moradores da região.
A nova estrutura reforça a proposta de ir além do esporte, utilizando a educação como ferramenta de transformação social. A biblioteca atende cerca de 15 mil moradores do entorno e está aberta diariamente, das 12h às 20h.
Manuela Pacheco Albino, 10 anos, é uma das frequentadoras mais assíduas do espaço. Ela conta que, desde que começou a participar do projeto, percebeu evolução nos estudos:
— Aqui é muito legal, aconchegante. Gosto de vir com minhas primas ou minhas amigas para pegar livros. Gosto muito de ler.

Conhecida como Manu, ela diz que, quando não está nas oficinas ou aulas do WimBelemDon, costuma passar o tempo na biblioteca da praça. O interesse pelos livros é tanto que ela também incentiva a família a frequentar o local.
— Eu trouxe minha avó, minhas primas, minha tia, minha família inteira quase. Eles acharam bem legal, tudo muito bonito — conta com orgulho.
Além do empréstimo de livros, o espaço recebe apresentações musicais, sessões de cinema, teatro, palestras e encontros com convidados.