Via Crucis
Fé, suor e devoção: Morro da Cruz revive a Paixão de Cristo diante de milhares de fiéis
Encenação tradicional da zona leste da Capital percorre subida íngreme e emociona o público com a crucificação, a ressurreição e o abraço das crianças em Jesus


A subida é íngreme, o sol castiga e o asfalto da Rua Santo Alfredo guarda o calor da tarde. Mesmo assim, nesta Sexta-Feira Santa (3), milhares de fiéis acompanharam passo a passo a Via Crucis de Jesus Cristo no Morro da Cruz, zona leste de Porto Alegre.
Foi a 67ª edição da Paixão de Cristo do bairro, criada em 1959 pelo padre Ângelo Costa e capaz, décadas depois, de ainda movimentar a cidade e a fé. A programação começou às 14h30min com celebração religiosa no interior do Santuário São José do Murialdo, na Rua Vidal de Negreiros.
Às 15h30min, a encenação tomou a rua. Em frente à igreja, a peça percorreu a vida pública de Cristo: o batismo de João Batista, os 40 dias no deserto, as tentações, a última ceia, a traição de Judas, a negação de Pedro e o julgamento em que Pôncio Pilatos lavou as mãos.
Depois, o público se juntou à procissão e subiu mais de 1,5 quilômetro morro acima, ao rufar de tambores, atrás de Aldacir Oliboni, que representa Cristo na encenação há 46 anos.
No trajeto, escoltado por soldados romanos, Jesus caiu três vezes, encontrou a mãe Maria e teve o rosto limpo no Santo Sudário por Verônica. A plateia xingou os romanos, vaiou o personagem da Morte e se emocionou.
No alto, às 18h, veio a crucificação diante da cruz de ferro que dá nome ao morro. E depois, a ressurreição, emoldurada pelo pôr do sol do Guaíba.
Quando Cristo se levantou do cenário, crianças correram até o palco e o abraçaram, em um gesto espontâneo que, por si só, resumiu a tarde.
Ao lado de Oliboni, 120 pessoas participam da encenação. Cerca de 60 são moradores da própria comunidade, que vestem as roupas de soldados romanos e habitantes de Jerusalém ao lado de atores profissionais.
Novidades na encenação
Camilo de Lélis dirige a encenação há mais de 25 anos. Nesta edição, ele quis dialogar com a Campanha da Fraternidade 2026, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, cujo tema é Fraternidade e Moradia, com o lema Ele veio morar entre nós (João 1,14).
A escolha trouxe uma devoção pouco conhecida no sul do país: Santa Ifigênia da Etiópia, princesa etíope do século I, convertida ao cristianismo pelo apóstolo São Mateus e considerada a primeira santa africana.
A tradição conta que, quando o rei Hírtaco mandou incendiar seu convento, o fogo se voltou contra o palácio real. Por isso, ela é invocada por quem busca a moradia própria e costuma ser representada com uma construção nas mãos. A devoção chegou ao Brasil pelos povos africanos escravizados e se popularizou no período colonial.
— Todos temos direito a ter moradia. A Santa Ifigênia da Etiópia é uma santa negra, pouco conhecida aqui no Sul, mas lá em São Paulo ela é muito conhecida. Estamos trazendo essa devoção — diz Lélis.
Na abertura, a atriz e cantora Denizeli Cardoso interpretou a santa segurando uma maquete de casa. Anjos distribuíram santinhos ao público com a imagem de Ifigênia e, no verso, uma oração pedindo pela moradia própria.

A montagem também trouxe cenas sobre feminicídio e maus-tratos a animais, incluindo uma homenagem ao cachorrinho Orelha, que virou símbolo da lei de proteção animal.
— A gente conta a história antiga, do tempo de Jesus, de Roma, mas também faz cenas dos dias de hoje, para ver o que mudou e o que continua a mesma coisa — explica o diretor.

Uma das novidades estruturais desta edição foi o projeto Caminhos da Via Sacra: monumentos instalados ao longo da subida marcam as estações da Via Crucis no próprio espaço urbano do morro.
No topo, uma estátua de dois metros chamada Jesus Acolhedor passa a integrar o cenário permanente da encenação.
Participação da comunidade

Silmar Quadros, 42 anos, mora no bairro e participou como soldado romano pela 30ª vez nesta Sexta-Feira Santa. Questionado sobre o que sente ao subir o morro com a armadura, foi direto:
— É um sentimento de fé, de alegria e de agradecimento a Deus por estar mais uma vez aqui.
Para Lélis, é essa presença da comunidade que sustenta o evento depois de mais de seis décadas.
— A encenação é estendida pelo bairro. Ela começa na frente da igreja e termina em cima do Morro da Cruz. A comunidade é muito presente — finaliza.