Brique do DG
Febre dos bolos: da internet para a rua, bolos em fatias formam filas em Viamão e conquistam clientes pelo Brasil
Impulsionado por vídeos virais, modelo de venda aproxima confeiteiras do público e transforma fatias de bolo em negócio lucrativo.


No sábado de Páscoa, Letícia Cereja, 45 anos, foi ao pátio da Agropecuária Tradição, próximo à parada 42 em Viamão, na Região Metropolitana. Ali, ela faria a segunda edição de seu festival de fatias de bolo, que consiste na venda de porções individuais de tortas.
Quando chegou, 15 minutos antes do horário marcado para o evento, uma fila já começava a se formar. Os clientes poderiam escolher entre os sabores de tortas oferecidos – entre eles, chocolate com maracujá e uma combinação entre bolo e pudim – e de coberturas. Em uma hora, todas as fatias foram vendidas.
Letícia é uma das confeiteiras que entraram na onda da venda de bolos em fatias. O modelo vem fazendo sucesso pelo Brasil graças a vídeos curtos espalhados pelas redes sociais. Neles, o público pode ver as filas que se formam ao redor dos estabelecimentos e o momento em que o cliente escolhe os sabores que quer levar.
– Conheci pelas redes sociais. Eu via muito uma moça lá de Cuiabá. Ela já fez vários festivais. Eu achei interessante, e aqui, eu não tinha visto algo parecido. Daí, liguei para a minha sobrinha e disse: “A tia vai fazer um festival de fatias. Te vira, divulga” – conta ela.
A sobrinha é Luana Pereira, 26 anos, que cuida das redes sociais do empreendimento da tia, o Doces da Lê
(@leticia_cereja no Instagram). Com o festival, ela viu o número de visualizações do perfil aumentarem exponencialmente. Para Luana, o sucesso se dá porque as pessoas não querem ver apenas o “produto feito”, mas todo o processo ao redor dele.
Estar perto
Além dos virais na internet, Letícia vê que o movimento possibilita que confeiteiras estejam na rua junto com o produto.
– Eu não tenho contato direto com os clientes, geralmente é mais por WhatsApp. Alguns não me conhecem e encomendam só pela indicação. Aí o cliente chega aqui, eu entrego o bolo e ele vai embora. Na feira, ele pode vir conversar. É algo bem diferente. Há o contato – compara ela.
O professor da Escola de Negócios da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) Lucas Roldan lembra que, apesar dos avanços tecnológicos que permitem a venda online, a proximidade ainda é um valor decisivo na hora da compra.
– Não se vende apenas alimentos, mas confiança, memória, vínculo e conveniência – diz, lembrando que o consumo também é orientado pelo desejo.
Mão na massa
Foi por causa desse último atributo que Letícia começou a se aventurar na cozinha. Em 2017, ela era auxiliar de nutrição em um hospital e resolveu aprender a fazer quindins, já que não encontrava o doce que idealizava. O negócio cresceu e, hoje em dia, ela se dedica totalmente à produção de doces.
Para que o festival ocorra no sábado, por exemplo, a produção começa na segunda-feira, com o preparo de massas, recheios, coberturas e geleias. Conforme Letícia, é tudo “bem caseiro”, da forma como os clientes gostam.
Grandes desafios dos pequenos negócios
O professor Lucas Roldan lembra que o mercado possui sazonalidades e febres, como a carrocinha de cachorro quente, nos anos 1990, a paleta mexicana, na última década, e o morango do amor, recentemente. Para ele, ir além da febre é o que garante permanência no mercado:
– O empreendedor precisa se aproveitar da oportunidade, desenvolver o negócio, partindo dessa febre, mas criando algo que gere valor para que ele possa continuar depois.
Além da criatividade para fazer isso, outra palavra aliada de quem deseja empreender na confeitaria é a gestão.
– Hoje em dia está muito mais fácil de conseguir entrar no mercado. O principal desafio é combinar a atratividade comercial com uma gestão profissional, para que se possa perpetuar esse negócio – diz o professor.
Precificação
Quando começou sua produção de bolos, Letícia lembra que dar preços era um desafio. Geralmente acabava precificando com base nos valores de produtos semelhantes ao dela. Lucas aponta que essa é uma boa forma de começar, mas recomenda que pequenos negócios tenham em mente que o custo total de um bolo envolve outras variáveis, que vão além dos ingredientes utilizados.
De acordo com o professor, despesas como energia elétrica, impostos, embalagens e até mesmo o transporte devem entrar no cálculo. Para ajudar, ele dá a pergunta chave: “Quanto cada fatia de bolo precisa gerar para cobrir o valor do bolo inteiro?”.
Pontos para ter em mente
/// Diferenciação – oferecer algo único nos aspectos de sabor e visual.
/// Sazonalidade – entender que o consumo não é homogêneo ao longo do ano: determinados produtos são mais vendidos em algumas épocas do ano e menos em outras.
/// Continuidade – não basta ser bonito e bom, precisa ter constância para que possa ser um negócio.
/// Redes sociais – Lucas lembra que quem não está nas redes, está perdendo uma forte ferramenta de comunicação.
/// Experiência de consumo – é a parte intangível do consumo e, para Lucas, uma das mais importantes na confeitaria
/// Gestão – Para que negócios pequenos sejam duradouros, é preciso acompanhar todo o processo.
*Com orientação e supervisão de Caroline Tidra