Coluna da Maga
Magali Moraes: silêncio da face
Colunista escreve às segundas e sextas-feiras no Diário Gaúcho


Poderia ser o título de um livro assustador, onde segredos são silenciados causando mortes e mistérios. Ou então uma série sobre a face oculta de uma sociedade em perigo. Mas não. Silêncio da face é o nome de um procedimento estético. Descobri caminhando pelo bairro, e quase tropecei ao ler esse cartaz em uma vitrine. O que seria isso? Silenciar expressões faciais? Manter em silêncio também é esconder. Ao calar a voz de um rosto, não se cala junto a história de vida da pessoa?
Tudo tem seu preço, até o silêncio. Quanto exatamente de silêncio? O silêncio da face se mede em miligramas? E se a testa topar ser silenciada, mas o nariz e o queixo se recusarem? E a boca, que faz parte da face? Comprar o silêncio de alguém é coisa de mafioso. Já o da face não é crime? Primeiro eu ri. Depois senti um grande incômodo. Se está à venda é porque tem gente que compra. Um novo nome pro velho silenciar rugas. Tenho pavor que me calem, quero é falar por todos os poros.
Primo
Fui pesquisar. É uma tendência de rejuvenescimento que valoriza a naturalidade com resultados imperceptíveis. Silêncio da face ou quiet beauty (beleza quieta em inglês). Deve ser primo do quiet luxury, o luxo silencioso que não ostenta marcas de grife. As roupas que só os muito ricos usam e se identificam entre si. Um código social poderoso. E agora toda essa rica sutileza na sua face. A boca menos botocuda, a testa semicalada, o pé de galinha quietinho e harmonizado.
Cada um faz o que quer com sua vida, dinheiro, corpo, rosto. Nunca fiz botox, posso mudar de ideia amanhã. O que me pegou foi esse nome horroroso como uma promessa de beleza. O silêncio da face é tudo que eu não quero. Quero risadas barulhentas, poder expressar as emoções. Quero um rosto tagarela que conversa com a minha personalidade. Silêncio é bem-vindo na hora de ler ou de dormir. O rosto amassado no travesseiro, os sonhos embalando meu sono.