Papo Reto
Manoel Soares: "Dramas da farda"
Colunista escreve no Diário Gaúcho aos sábados


Nesta semana, explodiu no Brasil a história da Jussara, uma mulher que foi arrastada pela Polícia Militar de São Paulo para a parte de trás da viatura após ir cobrar diárias de trabalho de uma empresa na qual trabalhou. As imagens são inaceitáveis; faltou empatia e respeito dos policiais com ela e a filha de cinco anos que assistiu à cena.
Ao conversar com amigos policiais do Rio Grande do Sul que acompanharam o caso, ouvi deles a explicação de que a formação dos policiais é algo preocupante. Em um processo totalmente insuficiente, policiais são colocados na rua, com arma na mão e pouco preparo. Se os preparadores não tiverem pulso firme no processo, eles ficam vulneráveis a desvios de conduta, tanto no comportamento durante a abordagem quanto na aceitação de propina.
São pessoas que colocam a vida em risco por menos de R$ 5 mil por mês, valor que não paga o risco nem estimula uma dedicação ao processo de formação e ao amadurecimento das técnicas. Esses homens e mulheres que vivem experiências traumáticas em seu trabalho todos os dias não têm um suporte psicológico que dê conta de tudo o que veem e vivem. Esse resíduo emocional pode gerar desde condutas violentas até excesso de empatia em campo.
O policial que age errado na rua é a ponta de um processo que começa errado desde a formação: média salarial ruim, apoio psicológico insuficiente e processos que liberam, em poucas horas, o mesmo indivíduo que prenderam. Não podemos compactuar com pessoas que sujam a farda, mas generalizar que a polícia é ruim sem levar em conta as condições de trabalho é injusto.