Espaço de transformação
"Não quero construir cadeias, esporte é o caminho", diz Rozeli, idealizadora de projeto social na Restinga
Há 30 anos, o Renascer da Esperança oferece oficinas de boxe, futebol, karatê, basquete, skate e judô, mas enfrenta limitações de recursos


Os sons das rodas riscando o concreto e dos corpos que encontram o tatame ecoam em diferentes espaços de um mesmo lugar, onde o movimento nunca é apenas físico. Na Avenida Macedônia, na Restinga, em Porto Alegre, o que à primeira vista parece ser apenas um conjunto de oficinas esportivas revela, com o tempo, outra dimensão.
Ali, há 30 anos, o esporte se transforma em caminho, conduzindo jovens a descobrirem perspectivas que ultrapassam qualquer resultado dentro das quadras, da pista ou do tatame.
A gente usa o esporte como ferramenta, mas o que quer mesmo é formar cidadãos e dar oportunidades.
ROZELI DA SILVA
Idealizadora do projeto Renascer da Esperança
É nesse cenário que atua a ONG Renascer da Esperança, iniciativa que atende crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade na Zona Sul da Capital. Mais do que oferecer atividades no contraturno escolar, o projeto se estrutura como um espaço de acolhimento e formação, no qual o esporte é utilizado como ferramenta de formação cidadã.
Idealizadora e presidente da instituição, Rozeli da Silva afirma que o objetivo nunca foi formar atletas para competições, mas criar vínculos e ampliar as oportunidades para quem cresce na região.
— A gente usa o esporte como ferramenta, mas o que quer mesmo é formar cidadãos e dar oportunidades. A gente cria vínculos e mostra o que eles podem alcançar aqui dentro. Eu não quero construir cadeias, quero construir educação. O esporte é o caminho que a gente encontrou para chegar até essas crianças — afirma a ativista social.
Semanalmente, o espaço oferece oficinas de boxe, futebol, karatê, basquete, skate e judô para crianças e adolescentes da comunidade, em sua maioria moradores da Restinga, em Porto Alegre. São jovens que encontram no projeto uma rotina esportiva.
Entre quedas e tentativas, o skate vira caminho
Entre os esportes, o skate é um dos mais procurados e se destaca pela identificação imediata com os jovens. A oficina, criada há pouco tempo, rapidamente se transformou em ponto de encontro para crianças e adolescentes que veem na modalidade não apenas diversão, mas também um espaço de expressão e pertencimento.
— A procura cresceu muito rápido. O skate chamou a atenção deles desde o início, e logo a gente já tinha mais interessados do que vagas. Hoje, inclusive, temos lista de espera para participar das aulas — conta Josiane Mores Gnutzmann, instrutora da oficina.
A identificação com a modalidade aparece no relato de quem participa das aulas e se inspira em grandes nomes da modalidade, como Rayssa Leal e Sandro Dias, o Mineirinho. Luna Isabelle Bernardes Alencastro, 13 anos, passou a frequentar o projeto e encontrou na prática uma forma de lidar com a rotina fora da ONG.
— Quando eu ando de skate, consigo esquecer um pouco das coisas e me concentrar na pista. Me ajuda bastante, principalmente quando estou mais ansiosa — conta a estudante.

A relação com o skate também se reflete na forma como muitos jovens encaram o dia a dia. Murillo Moreira Marques, 12 anos, é um deles. Ele passou a incorporar os aprendizados das aulas à rotina e percebe que as mudanças vão além das manobras:
— Aqui a gente aprende a ter mais responsabilidade. Se não vem ou não se comporta, acaba perdendo a chance de participar. Isso faz a gente levar mais a sério.

Para a idealizadora do projeto, os resultados aparecem justamente nos relatos de quem é impactado diretamente pelas atividades. Segundo Rozeli, os ensinamentos das oficinas se estendem para o comportamento e as escolhas dos alunos fora dali:
— O esporte é só o começo. O que a gente quer é que eles levem daqui responsabilidade, respeito e uma visão diferente do futuro.
Disciplina que começa no tatame
Se na pista os movimentos são extremamente rápidos e técnicos, no tatame o ritmo é outro. Entre quedas controladas e movimentos repetidos, os participantes aprendem valores como disciplina, respeito e autocontrole.
À frente das aulas está o professor Claudenis Escobar da Silveira, faixa preta no judô e responsável por conduzir os treinos e apresentar a modalidade aos alunos. Para ele, o judô não se resume a uma mera atividade física, mas sim se consolida como uma ferramenta de formação cidadã para os praticantes.
— Eu comecei com 13 anos em um projeto social também. Essa é uma forma de dar retorno para comunidade. Aqui a gente forma campeões fora do tatame também, eles levam os valores para a vida, dentro de casa, na escola e na convivência com os outros — conta o professor.

Essa mudança comportamental aparece na experiência cotidiana de quem está no tatame durante as oficinas. Jéssica Lorelaine da Silva Marques, 11 anos, percebe no seu dia a dia como o judô a influencia para além da rotina de treinamentos.
— Aqui eu aprendi a ter mais respeito com o próximo e a me controlar. Isso me ajuda não só no judô, mas também na escola e em casa — conta a adolescente, que pratica a modalidade há cinco anos.
Falta de recursos limita atendimento
Apesar do impacto positivo das atividades, o projeto, que atua na Restinga há três décadas, ainda enfrenta dificuldades para ampliar seu atendimento. A estrutura disponível comportaria cerca de 600 participantes, mas a falta de recursos impede que todas as vagas sejam ocupadas. Rozeli afirma que são apenas 260 jovens contemplados.
Os custos de manutenção, como água e luz, estão entre os principais obstáculos para esse número aumentar, o que exige um esforço constante para manter o funcionamento das oficinas e demais atividades.
— A gente tem estrutura para atender muito mais, mas não consegue por falta de recurso. Às vezes, é uma conta básica que acaba limitando o que a gente pode oferecer — conta Rozeli.
A educadora social explica que a instituição conta com apoiadores que ajudam na manutenção de despesas, mas que, para funcionar com toda a capacidade, o projeto necessitaria de um mantenedor.
Além disso, Rozeli conta que a ONG participa de muitos editais públicos destinados a projetos sociais, como o Mesa Brasil, maior rede nacional de bancos de alimentos.
Reconhecimento nacional
Quem entra na sala de Rozeli, na sede do Renascer da Esperança, logo percebe que ativista social é amplamente reconhecida pela comunidade local e regional. Expostos em uma prateleira antiga, estão diversos certificados que exaltam o trabalho desenvolvido ao longo dos anos.
No último domingo de março (29), Rozeli foi agraciada com mais um desses reconhecimentos. Talvez o maior deles. Ela ganhou o Troféu Inspiração no Melhores do Ano, da Rede Globo.

Antes de participar do programa Caldeirão do Huck, onde receberia seu troféu, Rozeli falou sobre a indicação:
— Eu me emocionei. É o Oscar da Globo e eu represento não só o Renascer, mas todas as periferias de Porto Alegre. É uma emoção como mulher receber esse reconhecimento.