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RETRATOS DA VIDA

“O mais importante é a formação como ser humano”, atleta de projeto social avança no judô e disputará o Brasileiro 

Judoca da Capital se destaca em seletiva estadual, integra a seleção gaúcha sub-15 e agora se prepara para disputar o nacional da categoria em maio, em Sergipe

03/04/2026 - 05h00min


Josyane Cardozo*
Josyane Cardozo*
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Bruno Todeschini/Agencia RBS

No judô, há um mantra dos princípios fundamentais, de origem japonesa: Seiryoku Zen'yo, exemplificado como a máxima eficiência com o mínimo de esforço. O objetivo é promover o desenvolvimento de mentes e corpos fortes e saudáveis de forma útil. Relacionando esses princípios, uma jovem do bairro Vila João Pessoa, na zona leste de Porto Alegre, tem se destacado nos fundamentos.

Júlia da Silva Abadias, de 13 anos, conquistou neste ano uma vaga na seleção gaúcha sub-15 (+70kg) e, atualmente, se prepara para competir no Campeonato Brasileiro, que ocorre em maio, em Aracaju, em Sergipe.

Júlia é cria do projeto social Clube Caixeiros Viajantes, iniciativa voltada a alunos de escolas públicas e bolsistas, que também representará na competição nacional. Sua relação com o esporte começou de uma forma despretensiosa. 

A ideia de realizar aulas de esporte ou lutas não estava em seus planos, porém, em 2024 a história mudou quando seu primo mais novo, Bernardo, iniciou no judô. Incentivada pela tia Cíntia Santos, que justificava a oportunidade como uma forma de auxiliar no desenvolvimento de sua identidade e personalidade — que na época apresentava um perfil tímido. Desde o primeiro contato foi amor à primeira vista, e sua nova casa, o tatame, trouxe uma confiança antes desconhecida pela adolescente.

— Ela era tímida e eu sentia que faltava algo para impulsioná-la. Acho que o mais importante dessa experiência toda para ela é a formação como ser humano. É algo que eu sempre reforço. Os valores do judô são fundamentais na construção do caráter, como amizade, honestidade e respeito. Mesmo dentro das competições, ainda que sejam adversários, eles se tratam com muito respeito — Cíntia exemplifica a escolha.

Já para Júlia, a escolha trouxe a sociabilidade: 

— No início eu gostei mais porque eu fiz amigos novos.

Família é a base

A união da família também é um dos pilares para Júlia. Sua mãe, Karina Santos, relembra que, quando soube que a pequena iria iniciar no esporte, teve um receio por ter um preconceito de que a atividade remetesse à violência. Porém, com o passar do tempo, os resultados positivos dentro e fora da academia serviram de resposta, o que a fez apoiar o crescimento da filha no esporte:

— Eu agradeço minha irmã, por ela ser essa pessoa que incentiva coisas novas. Hoje, eu tenho muito orgulho, porque isso requer disciplina e dedicação. Como a gente vê que ela vai atrás e tem esse foco, fazemos questão de incentivar.  

Resultados que não demoraram para aparecer, em pouco mais de um ano de competições pela Federação Gaúcha de Judô (FGJ), a jovem já acumula vitórias significativas para sua idade. Ao todo, soma 13 medalhas já conquistadas em torneios estaduais, sendo cinco de ouro, seis de prata e duas de bronze. 

— A Julia está na fase de desenvolvimento e já apresenta resultados, tendo acesso a competições maiores e adquirindo a bagagem necessária para os próximos passos — comenta Douglas Potrich, responsável técnico do Time Caixeiros de Judô — A expectativa é que ela tenha a melhor experiência possível dentro desse processo de aprendizagem. Se vier a medalha, é muito positivo, mas não é o objetivo principal. O mais importante é proporcionar essa vivência para que ela siga avançando — afirma. 

A classificação, que mudou seu status de atleta, ocorreu no dia 14 de março. Ela participou da Supercopa São Leopoldo, campeonato organizado pela FGJ. Nesse campeonato, além dos combates, Júlia participou da seletiva para o Campeonato Brasileiro Sub-15 de Judô. 

Karina relembra que Júlia havia conquistado a vaga no ano passado, para competir em São Paulo, mas ainda não tinha o nível necessário para avançar. Neste ano, ela já possui a faixa amarela

O projeto social 

O projeto Clube Caixeiros Viajantes é uma parceria com a escolinha de judô Cejuc Sport. A iniciativa busca viabilizar o acesso à iniciação esportiva para crianças em idade escolar, dos seis aos 14 anos. Com preço acessível e com o contato direto com profissionais do esporte

O projeto trabalha com três pilares: a iniciação, o desenvolvimento e o aperfeiçoamento, e busca ser uma porta de entrada para outras oportunidades sociais que ampliem o espaço das crianças e adolescentes.

— O esporte proporciona desenvolvimento cognitivo e motor, promove socialização, melhora a autoestima, possibilita conhecer novos lugares e direciona para o caminho do bem. Ele amplia horizontes, tanto na saúde física e mental quanto no conhecimento de mundo — enfatiza Douglas, que compartilha também suas experiências para além de responsável técnico do clube. 

Ele também é treinador da seleção brasileira das equipes de transição, diretor técnico da FGJ e diretor geral das escolinhas de judô Cejuc. 

O ensino busca continuidade e permanência no esporte. Entre os incentivos, aqueles que se destacam na prática são convidados a integrar as equipes de competição, formando o time do clube, como no caso de Júlia, que agora integra a seleção gaúcha.

_ Mais do que medalhas, o projeto busca transformar vidas. A Júlia é o exemplo vivo de como a disciplina e a oportunidade correta podem revelar talentos que, muitas vezes, estão escondidos por falta de acesso _ pontua Cíntia.

Explorando pela luta 

Como destacado por Douglas, as ações do esporte buscam "ampliar horizontes". Karina comenta que Júlia está muito ansiosa para o Campeonato Brasileiro, pois será a primeira vez que viajará de avião e que a viagem representa "o ponto mais longe que ela já foi para competir".

Antes disso, a atleta já havia viajado para um torneio interestadual em Santa Catarina. Segundo a tia Cíntia, essa foi uma das primeiras vezes que ela saiu do Rio Grande do Sul, sendo uma experiência marcante com os colegas. Além disso, os eventos têm permitido que ela conheça diversas cidades do interior do Estado.

Ela reflete que, em seu crescimento, o judô também trouxe mudanças na rotina e no comportamento:

— Acho que eu tenho muito mais compromisso com algumas coisas. Um exemplo é a minha alimentação, evito alguns alimentos. E tenho essa disciplina que me ajuda.

Entre seus planos, Júlia afirma que ainda é cedo para definir se o esporte será sua profissão, mas garante que ele seguirá presente em sua vida como hobby, levando consigo os aprendizados.

Ajude

/// Na rotina, a atleta tem o apoio financeiro da família, que contribui nas despesas mensais e necessidades específicas da modalidade ao longo do mês. Com o reconhecimento no judô, a jovem está sendo selecionada para mais eventos, que possuem valores diversos para a participação.

/// Para o Campeonato Brasileiro Sub-15 de Judô, em Sergipe, a atleta está buscando patrocinadores e apoio para custear as despesas da viagem, acomodação e alimentação para ela e um acompanhante, por ser menor de idade. Uma rifa está sendo promovida em seu perfil profissional no Instagram @j.abadias_, com o valor de R$ 6 e o prêmio uma cesta de café da manhã.

/// Para demais doações ou contribuições, mande uma mensagem pelo telefone (51) 9995-0757 (Cíntia).

*Com orientação e supervisão de Émerson Santos 


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