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O que é Saúde Única? Especialistas explicam como essa noção  pode trazer mais qualidade de vida  

Criado no início dos anos 2000, o conceito vê o bem-estar de humanos, animais e meio ambiente como uma coisa só

01/04/2026 - 16h15min


Breno Bauer*
Breno Bauer*
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Desequilibrio em um dos eixos da natureza traz problemas para todos os outros

Um simples cão raivoso pode revelar uma série de acontecimentos anteriores. É o que aponta a professora de Medicina Veterinária da UniRitter Mariana Caetano. Segundo ela, se não estão vacinados, os animais domésticos contraem a raiva de morcegos que chegam às cidades por causa da degradação de seu habitat natural.

Mariana é uma das profissionais que entendem a saúde como a junção de três esferas: humana, animal e ambiental. Para adeptos desse pensamento, o desequilíbrio em um dos eixos afetaria os outros.

— Quando a gente fala de saúde humana, animal ou ambiental, não falamos de áreas separadas, mas sim interdependentes. E atitudes cotidianas impactam diretamente o sistema como um todo — explica ela.

Natureza

É essa compreensão que busca a Saúde Única. O conceito, cunhado no começo dos anos 2000, descreve a visão de bem-estar como uma prática integrada que, além de médicos, abrange veterinários e biólogos, por exemplo.

Professor titular da Escola de Ciências da Saúde e da Vida da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Júlio César Bicca-Marques lembra que, apesar de ser recente na terminologia, a compreensão de Saúde Única já é consolidada na área da ecologia.

O professor explica que o ser humano como existe hoje surgiu há cerca de 300 mil anos e que, ao longo de quase todo esse período, viveu em contato com a natureza. Foi apenas há cerca de 300 anos que o cenário começou a mudar. O surgimento das fábricas, a poluição e a extração de recursos, como água e madeira, afastaram sociedade e natureza.  

— Este tempo é uma fração insignificante da evolução humana. Nossa necessidade de conexão com os ambientes naturais permanece. Nós somos natureza —  diz Bicca-Marques.

Ele defende que essa sensação de afastamento é um dos desafios para entender no dia a dia o que é Saúde Única.

Na prática, porém, as consequências da conexão entre humanos, animais e natureza sempre aparecem. É o caso da leishmaniose —infecção transmitida por espécies como o mosquito-palha, que picam primeiro cães e depois o ser humano.

Bicca-Marques aponta que o desmatamento urbano acelerado ajuda na proliferação dos mosquitos, e Mariana lembra que essa proliferação está ligada ao ambiente ao seu redor, pois depende de material orgânico, presente em terrenos baldios, por exemplo. Ela lembra também da importância da vacinação canina e sugere que os animais sejam testados para a infecção uma vez ao ano.

Entender o significado é o primeiro passo

Mesmo que pareça abstrata, colocar a ideia de Saúde Única em prática começa com pequenos passos. Mariana aponta que conhecer o significado do conceito é o começo.

— Todas as pessoas são peças importantes e fundamentais para construir esse grande quebra-cabeça. Se faltar uma peça, a gente já não vai ter o quebra-cabeça montado. É aí que eu acho que a gente começa a dar importância para todo mundo — ilustra a veterinária.

Nesse sentido, o professor Bicca-Marques lembra da importância da conscientização individual para atingir um bem-estar coletivo.

— São quase 8,3 bilhões de habitantes, mas eu sou um. Se eu me acho importante para fazer as coisas que eu quero, eu também tenho que ser importante para tentar mudar a realidade — diz ele, exemplificando que é possível lutar pelo plantio de mais árvores.

As quatro áreas

O Ministério da Saúde aponta quatro áreas compreendidas pela Saúde única.

/// Zoonoses: De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 60% das doenças infecciosas em circulação podem ser doenças zoonóticas. A raiva é um dos exemplos dessa categoria.

/// Resistência a antibióticos: Infecções mais fortes podem começar a circular à medida que a população toma medicamentos sem receita médica ou quando não completa os ciclos de antibiótico.

/// Segurança alimentar: o professor da PUCRS orienta que a alimentação orgânica e de qualidade “causa menos doenças e menos necessidade do uso de remédios”.

/// Biodiversidade e clima: Bicca-Marques ilustra que o mundo vive um “câncer climático”, que se espalha por causa da relação inconsequente entre humano e natureza e que já impacta a saúde de quem vive na cidade.

Para colocar a Saúde Única na prática

/// Cuidado com acúmulo de água parada e criadouros de mosquitos vetores

/// Consumir alimentos orgânicos e carnes certificadas

/// Separar os resíduos orgânicos e recicláveis

/// Evitar o consumo excessivo de medicações sem acompanhamento médico

/// Vacinação de animais

/// Uso de repelente

/// Participar de ações em defesa da arborização e de luta contra o abandono de animais

/// Caso encontre morcegos, a recomendação é não entrar em contato com o animal e contatar a autoridade municipal competente. Na Capital, o setor de Antropozoonoses da Vigilância em Saúde atende pelo número (51) 3289-2450 (também com WhatsApp)

*Com orientação e supervisão de Émerson Santos




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