Varejo
Os diferenciais que mantêm relevância de pequenos shoppings de Porto Alegre, mesmo com transformação do comércio
Contato direto com produto, conveniência e identidade estão entre os fatores que reforçam estas operações

Avanços tecnológicos e mudanças culturais têm se acelerado em todo o planeta, incorporando também novos hábitos de consumo à população. Frente a este cenário, os shopping centers de menor porte, que já disputavam mercado com os grandes centros comerciais, passaram a competir ainda com as plataformas de compras digitais. Mesmo diante deste panorama, empreendimentos de Porto Alegre conseguem manter a relevância e a sustentabilidade econômica de suas operações, apostando em aspectos como praticidade, qualidade do serviço e adequação à região onde estão inseridos.
A Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce) considera shopping center o empreendimento com área bruta locável (ABL) superior a 5 mil metros quadrados, com diversas unidades comerciais, administração única e centralizada e que pratica aluguel fixo e percentual. Na maioria das vezes, o centro comercial dispõe também de lojas âncoras e vagas de estacionamento compatíveis com a legislação da região onde está instalado.
Na divisão de capacidade, a Abrasce considera de pequeno porte os empreendimentos com ABL de até 19.999 metros quadrados. Este é o caso de muitos em Porto Alegre, com exceção de Iguatemi, Praia de Belas, Total, BarraShoppingSul, Moinhos e Pontal.
É "de menor porte", inclusive, a primeira operação neste formato na Capital — e no Estado. Trata-se do Shopping João Pessoa, situado na avenida de mesmo nome, e que, quando fundado, em 1970, levou o nome "Centro Comercial de Pôrto Alegre". Com inspiração no formato norte-americano, os shopping centers começaram a se popularizar em Porto Alegre nas décadas seguintes, se estabelecendo aos poucos como os principais locais de compras da cidade, em substituição às galerias, de inspiração europeia, que predominaram nas décadas anteriores.
"O Shopping João Pessoa, primeiro do Rio Grande do Sul, soma 55 anos de tradição e segue plenamente relevante ao se posicionar como um shopping de conveniência e vizinhança. Mesmo com as transformações do varejo e o avanço das vendas online, o impacto para nós é limitado. Nosso diferencial está na proximidade, na oferta de serviços e na experiência presencial, que continua sendo altamente valorizada pelo nosso público", destacou a administração do shopping à reportagem. Em 2025, o empreendimento recebeu cerca de 2 milhões de visitantes.
Outros shoppings de menor porte tradicionais e conhecidos do público porto-alegrense são o Rua da Praia Shopping, fundado em 1990 no Centro Histórico, e o Shopping Lindoia, fundado em 1994, na Zona Norte. Mais recentemente, em 2010, a Zona Sul ganhou o Shopping Paseo, instalado na Avenida Wenceslau Escobar, no bairro Tristeza, que no último ano recebeu cerca de 120 mil visitantes.
“O principal ponto é a consistência. O Paseo evolui, se adapta, mas mantém sua essência, ser um espaço agradável, próximo e útil para as pessoas. É isso que sustenta sua relevância ao longo dos anos”, afirma a administração do empreendimento.

Experiência de compra
No fim do século 20, os shopping centers se estabeleceram como os principais centros de compras na Capital e assim se mantiveram por vários anos. Com a evolução tecnológica, os hábitos de consumo também foram impactados e surgiram e cresceram as compras por meio digital.
Este formato de comércio começou a ser mais utilizado pelo consumidor a partir dos anos 2000, com a popularização da internet nas casas e o início dos sites de compras e dos espaços virtuais das lojas que já atuavam no comércio tradicional. O processo acelerou na década seguinte com a chegada dos smartphones, redes sociais e o surgimento de diversos marketplaces, atingindo um ápice durante a pandemia do Covid-19, em 2020.
— O varejo como um todo tem passado por uma profunda transformação. Com a facilidade das compras online, muitas pessoas passaram a optar por esse modelo, e as lojas precisaram ocupar também esse ambiente para não perder mais mercado. Além disso, a gente viu chegar nos últimos anos a concorrência dos grandes sites norte-americanos e chineses, que têm uma variedade enorme de produtos e entregas cada vez mais rápidas — destaca o coordenador da Abrasce no Rio Grande do Sul, Eduardo Oltramari.
É inegável o espaço que as compras em plataformas digitais adquiriram entre boa parte dos consumidores nos últimos anos. Por outro lado, o passar do tempo também estabelece uma percepção de que a experiência com o modelo nem sempre é satisfatória, especialmente para alguns tipos de produtos, reforçando a importância de aspectos próprios da compra física.
O empresário Dionísios Flessas, 61 anos, tem uma loja de malhas no Shopping João Pessoa desde 2002. Ele começou uma operação digital alguns anos antes da pandemia, mas foi a partir de 2020 que reforçou o e-commerce. Atuando no varejo de roupas há mais de 30 anos, Dionísios valoriza a experiência da compra presencial.
— É preciso se adaptar aos tempos e ter o e-commerce forte, principalmente desde a pandemia, mas para roupas, por exemplo, o melhor é comprar ao vivo, porque você consegue provar, ver o caimento, sentir o tecido, conferir a qualidade real do produto. Temos nossos canais de vendas digitais, que ajudam também como propaganda da marca, mas muitos clientes não abrem mão da experiência na loja — destaca.

Para o presidente da Câmara de Dirigentes Lojista (CDL) de Porto Alegre, Carlos Klein, apesar da popularização das compras online, o varejo físico ainda mantém um público relevante e permanente.
— O digital te dá uma variedade enorme de produtos, marcas, mas o público consumidor do varejo físico se mantém e vai se manter, porque tem aspectos que são únicos desse modelo, como a experiência de atendimento personalizado, a possibilidade de ver o produto diretamente e a facilidade de sair com o produto da loja na hora. Isso pode ser até mais fácil nos shoppings menores, que normalmente ainda têm uma proximidade maior com a comunidade, onde está uma parcela maior de clientes recorrentes — observa Klein.
Conveniência e praticidade

Para o coordenador da Abrasce no Rio Grande do Sul, outro aspecto que mantém a relevância das operações de shoppings centers nos tempos atuais é a conveniência oferecida por reunir diversas opções de lojas e produtos com outras possibilidades de serviços.
— A pessoa quer comprar um livro que lançou, uma capinha nova para o celular, mas também precisa ir na farmácia, quer jogar na loteria, sacar dinheiro, comer, pode fazer tudo isso no mesmo local, e ainda com segurança, climatização e estacionamento — destaca Eduardo Oltramari.
Um exemplo de serviço que atrai pessoas aos shoppings é o de salões de beleza. O cabeleireiro César Passos, 63 anos, atende há 43 anos no Shopping João Pessoa, sendo há 23 em estabelecimento próprio.
— O benefício de ter um salão no shopping é que, além de poder receber o teu cliente já conhecido, também sempre tem uma grande circulação de pessoas, que podem vir fazer outras coisas e já aproveitar a oportunidade e conciliar um corte de cabelo — ressalta César.

Apesar de oferecerem menos opções do que os espaços de maior porte, os shoppings menores também usam da combinação de lojas e serviços no mix para atrair o público. No Paseo, além de operações como academia, praça de alimentação e salões de beleza, há um colégio e consultórios de profissionais de saúde.
— Moro no bairro Vila Nova e venho bem seguido porque é onde atendem o pediatra e o dentista do meu filho, e eu já aproveito para ir no salão, fazer alguma outra compra que eu preciso, tomar um café e ficar um pouco na pracinha aqui. Esse é o shopping mais perto da minha casa, e também é mais prático e mais rápido para fazer mais de uma coisa, porque é um shopping menor, com menos gente, onde não se caminha tanto — reforça a secretária Camila Silva, 36 anos.

Inserção no bairro
Outra característica que reforça a sustentabilidade dos shoppings menores é sua conexão e o senso de comunidade formado com a vizinhança. A adequação dos serviços e lojas ao perfil de cada bairro ajuda a reforçar esse vínculo, como destaca a administração do Shopping João Pessoa:
“Nosso posicionamento é justamente atender às necessidades reais do público do entorno. Por isso, investimos em um mix que vai além do varejo tradicional, com forte presença de serviços que facilitam a rotina dos clientes. Hoje contamos com uma alameda de serviços onde o cliente encontra desde padaria até lotérica, além de operações como a unidade do Instituto-Geral de Perícias para emissão de carteiras de identidade, reforçando nosso fluxo e conexão com a comunidade. Somos, de fato, um centro de conveniência e soluções para o dia a dia do bairro”.
O jornalista Alcides Gonçalves, 60, frequenta o shopping desde o início da década de 1980. Além de ser aluno do Colégio Estadual Inácio Montanha, também localizado na Avenida João Pessoa, ele morava no bairro, perto do Hospital de Clínicas.
— Chamava a atenção por ter essa coisa de ser o primeiro shopping da cidade, e aí também tinha um cinema, era um ponto de encontro. Tenho uma boa memória afetiva daqui, hoje não moro mais tão perto, mas quando preciso ir a um shopping gosto de vir aqui, pela praticidade — destaca Alcides.

— Os shoppings menores, por terem esse vínculo de maior proximidade com o bairro, agregam maior valor ao seu mix quando também oferecem aos clientes esses serviços típicos do cotidiano, de bairro mesmo, como cinema, lavanderia, salão de beleza, farmácia, praça de alimentação — complementa o coordenador da Abrasce no Rio Grande do Sul, Eduardo Oltramari.