Infraestrutura
Porto Alegre corre contra o tempo para melhorar sistema contra cheias antes do El Niño
Monitoramento das obras mostra que houve avanços nos últimos meses, mas nem todas as melhorias previstas vão ficar prontas em 2026


Quase dois anos depois da enchente que paralisou Porto Alegre, a previsão de um novo fenômeno El Niño — que deve intensificar a chuva no Estado no final do ano — eleva a urgência das melhorias no sistema de proteção contra enchentes. Desde novembro, quando Zero Hora detalhou pela última vez o andamento das obras em casas de bombas, comportas e diques, houve avanços nas três frentes de trabalho, mas em ritmo moderado e sem conclusão definitiva em nenhuma delas.
Nos próximos meses, devem ficar prontas a reforma dos portões metálicos e a instalação de linhas de energia exclusivas para as casas de bombas. A recomposição dos diques avançou mais 300 metros, mas agora depende do deslocamento de moradores ou da finalização de estudos para prosseguir (veja detalhes de todas as medidas ao final da reportagem).
— A gente vem falando, se não diariamente, semanalmente, sobre uma possível subida do Guaíba e do Rio Gravataí no segundo semestre, e o que a gente faria em cada um dos pontos, o que devemos comprar para não precisar fazer uma compra emergencial e ter segurança e transparência. Estamos trabalhando, estamos com um sistema de contenção muito mais robusto e conhecemos o sistema muito melhor do que em 2024 — afirma o diretor-presidente do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae), Vicente Perrone.
Hidrólogo do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Fernando Fan avalia que os avanços registrados nos últimos meses são positivos, mas ocorrem em ritmo mais vagaroso:
— As melhorias são boas notícias depois de muitas décadas com poucos investimentos relevantes no sistema de proteção, embora a quantidade de novidades seja relativamente menor em comparação com os andamentos registrados em novembro de 2025. Nestes últimos meses, observamos a conclusão de algumas obras que estavam em andamento em diques e casas de bombas.
Parte das melhorias deve ganhar tração a partir de agora. Foi dada ordem de início para a elevação de painéis eletrônicos, instalação de geradores e substituição de motores em um primeiro lote de quatro Estações de Bombeamento de Água Pluvial (Ebaps), o que aumenta a segurança operacional dos equipamentos em caso de inundação.
Outros quatro lotes devem receber esses aprimoramentos até o final do ano que vem, totalizando 18 unidades das 23 existentes. Além disso, o número de Ebaps que receberam vedação para impedir o refluxo da água do Guaíba (um dos problemas verificados em 2024) aumentou de três para cinco desde novembro.
Novas obras em dique exigem remoções de casas
A situação dos diques é mais complexa. A prefeitura concluiu a recuperação e a elevação à cota de 5,8 metros de mais um trecho de 300 metros de extensão do Dique Sarandi — que extravasou e rompeu durante a grande enchente.
Esse avanço passou a somar 1,4 quilômetro já recomposto nos chamados trechos 1 e 2. Agora, o esforço é para realocar até 500 famílias que ocupam irregularmente uma extensão de cerca de dois quilômetros na continuação da estrutura, no trecho 3. As casas dos moradores encaminhados para outros lugares por meio de programas como o Compra Assistida vão sendo marcadas com círculos e letras "X" para indicar a ordem de demolição.
— Aqui no terreno morávamos eu, minha filha e uma neta. As duas já se mudaram. Eu pretendo me mudar até segunda-feira (6). Mas, pelo preço que podia ser pago pelo novo imóvel, só consegui lugar para ficar em Gravataí — conta a moradora do bairro Sarandi Maria Xavier, 74 anos, cujo fundo de casa encosta no dique.

Na manhã de quinta-feira (2), Zero Hora esteve no local e testemunhou uma escavadeira recolhendo restos de moradias recentemente destruídas.
— Sobre os diques, em especial da Zona Norte, a reconstituição e a elevação para a cota da cheia de 2024 são relevantes. Mas vale lembrar que novas obras ainda podem ser necessárias para elevá-los ainda mais, pois essas cotas ainda estão abaixo do projeto original. Importante aguardarmos a atualização, ainda neste semestre, sobre o que dirão novos estudos (encomendados pela prefeitura). Assim, junto com o trecho 3, ainda não finalizado, a região Norte ainda tem fragilidades a serem acompanhadas — complementa Fan.
Três comportas ainda necessitam de ajustes
Em relação às comportas, dos 14 portões, 11 já foram consertados ou fechados em definitivo. Das três passagens restantes, localizadas sob a Avenida Castelo Branco, uma será eliminada, e duas ainda serão substituídas. A expectativa anterior era de que o bloqueio fosse terminado ainda em 2025, e as trocas fossem realizadas até março deste ano.
— Até 15 ou 20 de maio, a comporta 9 estará fechada por completo. Em relação às outras, de número 11 e 12, houve um problema com o consórcio, que trocou uma empresa e precisou ser certificado novamente. Pelo novo cronograma, uma será instalada em maio, outra em junho. Com isso, vamos finalizar esse capítulo ruim da história da nossa cidade — sustenta Perrone.
O diretor-presidente do Dmae afirma ainda que sete pontos de condutos forçados (canalização por onde a água escoa por força da gravidade) que verteram água durante a cheia de 2024 serão melhor protegidos entre maio e junho. Os bueiros receberão tampas herméticas, destinadas a impedir o refluxo do Guaíba, além de reforço da estrutura subterrânea de concreto.
Localização dos pontos que serão reforçados:
- Av. Polônia (dois locais)
- Rua Voluntários da Pátria (dois locais)
- Rua Álvaro Chaves
- Avenida Assis Brasil
- Parque Marinha do Brasil
Radiografia das obras
Diques
Dique da Fiergs
Obra concluída. Foi reforçado e elevado à cota de 5,8 metros (marca da cheia de 2024) em julho do ano passado.
Dique do Sarandi
- Trecho 1
A extensão de 1,1 quilômetro, localizada entre a freeway e a casa de bombas número 10, no começo da Vila Nova Brasília, foi recuperada e entregue em janeiro de 2025.
- Trecho 2
O Dmae concluiu em janeiro a reconstrução de mais 300 metros, totalizando 1,4 quilômetro de recomposição da estrutura de proteção contra cheias entre a freeway e o ponto que apresentou rompimento durante a cheia de 2024. Foram aplicados, ao todo, R$ 12 milhões até o momento.
- Trecho 3
Ainda sem obras iniciadas, depende do acolhimento das famílias que vivem irregularmente na área, ao longo de cerca de dois quilômetros. A prefeitura vem trabalhando na oferta de novas casas a esses moradores e na demolição das moradias já desocupadas.

Outros pontos
A correção de outros locais vulneráveis segue sob estudo e tratativas com outras esferas de governo. A ideia é erguer um novo dique na área onde a freeway encontra a Assis Brasil e outro junto à Rua Caldeia, próximo à Fiergs, além de recuperar cerca de 500 metros de barreira junto à Vila Dique. O Dmae acredita que é possível começar novas obras ainda este ano.
Casas de bombas
Chaminés e tampas
Cinco Estações de Bombeamento de Águas Pluviais concluíram obras para aumentar a segurança operacional (eram três até novembro do ano passado).
As Ebaps 17 e 18 (Centro Histórico) já haviam recebido "chaminés de equilíbrio" — que impedem o avanço do Guaíba pelos poços —, e as tampas herméticas haviam sido instaladas na Ebap 13 (Menino Deus).
Desde então, as Ebaps 3 e 4, localizadas no 4º Distrito, receberam novas comportas de segurança que impedem o retorno da água.
Painéis, geradores e motores
Foi emitida ordem de início para melhorias nas Ebaps 5, 6, 8 e 10 (Zona Norte), que envolvem a elevação dos painéis eletrônicos, instalação de geradores e substituição de motores. As intervenções devem começar assim que a empresa vencedora da licitação concluir a instalação dos canteiros de obras.
Outro lote de quatro estações (12, 17, 18 e 20, englobando Sarandi, Centro e Menino Deus) já foi licitado e está com contrato assinado. Outros três lotes devem entrar em obras ao longo deste ano, totalizando 18 casas de bombas das 23 existentes. Previsão de entrega de todas as melhorias até o final de 2027.
Geradores de energia
Seguem operando geradores externos em 17 casas de bomba. Ao todo, 31 equipamentos foram contratados pelo Dmae, com manutenção periódica assegurada pela empresa fornecedora. A instalação dos quadros de transferência automática foi concluída em março de 2025. Com isso, os geradores passam a operar automaticamente em caso de oscilação no fornecimento da concessionária e são desligados assim que a energia retorna.
Linhas exclusivas de energia
Obras em andamento para implantar linhas exclusivas de fornecimento de energia elétrica para 22 das 23 casas de bombas da Capital. O contrato foi assinado em 7 de novembro do ano passado com a CEEE. Isso deve garantir a continuidade da operação dos motores mesmo sob episódios extremos, como cheias e temporais. Com investimento de R$ 18 milhões, a previsão é de que a rede esteja pronta no final deste ano.

Comportas
Muro da Mauá
Todas as sete comportas localizadas ao longo do muro já tiveram os trabalhos concluídos. As passagens 1, 2, 4 e 6 permanecem móveis e foram reformadas. Os portões 3, 5 e 7 foram desativados e substituídos por estruturas de concreto armado, que devem impedir a entrada de água durante cheias.
Av. Castelo Branco
As comportas 8, 10, 13 e 14, localizadas no dique da Avenida Castelo Branco, também foram extintas.
Obras seguem em andamento nas comportas 9 (fechamento definitivo), 11 e 12 (substituição). A previsão é de conclusão no mês de junho. Com o fechamento das sete passagens, a extensão total de aberturas nos diques será reduzida de 150 metros para menos de 40 metros. O investimento é de R$ 12 milhões.