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Corrida contra o tempo

Prefeitura prevê concluir até outubro novas ações emergenciais para conter cheias em Porto Alegre; veja o que será feito

Iniciativas envolvem construir extensão de um dique com bombas de sucção na Zona Norte e barreiras móveis na Zona Sul

24/04/2026 - 10h37min


Marcelo Gonzatto
Marcelo Gonzatto
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Mateus Bruxel/Agencia RBS
Diretor-presidente do Dmae, Vicente Perrone apresentou projetos.

Diante da iminente formação de um novo fenômeno El Niño, previsto para ganhar força durante a primavera, a prefeitura de Porto Alegre apresentou na manhã desta quinta-feira (23) obras e ações emergenciais que devem ser implantadas até outubro — período em que o aquecimento das águas do Pacífico deve ampliar a quantidade de chuva no Estado.

A principal medida é a criação de uma zona de segurança na Zona Norte, próxima do Aeroporto Salgado Filho, por meio da construção de um novo dique com cem metros de comprimento e a instalação de bombas submersíveis. Outra iniciativa é a aquisição de barreiras móveis, semelhantes às bags utilizadas na enchente de 2024, para formar pequenos diques improvisados no bairro Guarujá.

Na Zona Norte, a chamada "solução imediata" inclui três pontos principais:

  • Fechar as galerias do Arroio Areia que levam a água da chuva para o Rio Gravataí e, em período de cheia, acaba refluindo para dentro da cidade.
  • Construir um dique de cem metros junto ao Arroio Passo das Pedras.
  • Contar com bombas submersíveis que retirem a água acumulada nessa região, que forma os pôlderes (termo usado para designar uma área protegida) 7 e 8, para fora do dique em direção ao Rio Gravataí.

O custo estimado dessas intervenções, que devem ser contratadas de forma emergencial, sem licitação, é de R$ 30 milhões. Conforme a prefeitura, está em avaliação se o recurso será proveniente do Fundo de Apoio à Infraestrutura para Recuperação e Adaptação a Eventos Climáticos Extremos (Firece, federal) ou do Fundo do Plano Rio Grande (Funrigs, estadual). Também está em análise, com decisão esperada para os próximos dias, se será contratada uma empresa privada para execução das obras ou se elas serão tocadas pelo Exército.

— O governador vai definir junto com o governo federal (...). Não há tempo de abrir licitação, porque o El Niño não espera. Então, essa é uma solução que está sendo bem construída. A ministra da área (Miriam Belchior, da Casa Civil) deve vir aqui na semana que vem e, portanto, nós vamos bater essa questão que é de responsabilidade do governo federal, mas delegada ao Estado e que seria executada pelo Dmae (Departamento Municipal de Água e Esgotos) — afirmou o prefeito Sebastião Melo.

Em um segundo momento, a intenção é montar um sistema definitivo nesses pôlderes. Isso envolveria a construção de duas novas casas de bombas com a missão de escoar o acúmulo de água. 

No outro extremo da cidade, no bairro Guarujá, ao Sul, a ideia é compensar a falta de mecanismos de proteção por meio de barreiras móveis semelhantes aos sacos (chamados de bags) utilizados na última cheia. A diferença é que são peças mais robustas — estruturas modulares, com cerca de um metro de largura por um metro de comprimento, que podem ser montadas e preenchidas com algum material como argila no próprio local onde serão utilizadas. A colocação dessas barreiras permitiria a instalação de bombas para retirar a água de dentro do bairro.

— Fizemos um chamamento mundial para (adquirir) esse equipamento e estamos em vias de comprar entre mil e 2 mil módulos — revelou o diretor-presidente do Dmae, Vicente Perrone.

Conforme o diretor de Proteção contra Cheias e Drenagem do Dmae, Alex Zanoteli, as barreiras também podem ser usadas para bloquear o refluxo de arroios da região. A área das ruas Jacipuia e Oiampi, próximas ao Guaíba, tem algumas das cotas mais baixas da cidade em zona urbana, chegando a ficar abaixo de 2 metros. Como a cota do Guaíba costuma ficar entre 1m50cm e 1m70cm, qualquer elevação já compromete a drenagem nesse local.

Outros projetos

Durante a apresentação, Melo e Perrone também detalharam o andamento de outros projetos que estão sendo tocados para aumentar o grau de segurança da cidade contra cheias, a exemplo da reforma ou fechamento de comportas, melhorias em casas de bombas e sistemas de drenagem e recuperação dos diques — tema de uma reportagem publicada em GZH no dia 6 de abril.

Especialistas veem solução mais eficaz na Zona Norte

Especialistas do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) avaliam que as soluções emergenciais apresentadas pela prefeitura nesta quinta devem ter mais eficácia na Zona Norte do que na Zona Sul. Para o hidrólogo Fernando Dornelles, a instalação das barreiras móveis não seria suficiente para barrar uma inundação em bairros como o Guarujá.

— É equivalente ao que foi feito na orla de Ipanema, para conter a ação das ondas apenas, não evitará a inundação — acredita Dornelles.

O colega do IPH Fernando Fan concorda que é uma medida de alcance limitado:

— Não é uma proteção efetiva contra enchente. É mais uma obra de drenagem urbana, de controle de alagamento local dos arroios. Não espero que seja um tipo de solução definitiva para enchentes na região.

A avaliação é mais otimista em relação ao plano para a área próxima ao Salgado Filho.

— Na Zona Norte, na região onde o dique vai ser prolongado, isso diminui a chance de a água entrar na cidade, em uma zona inclusive já urbanizada e que vai ser protegida (...). Vão interromper o escoamento pelo Arroio Areia (em direção ao Rio Gravataí) para a água não conseguir retornar. Vão criar, então, um reservatório ali com bombas flutuantes para tirar essa água. Como solução emergencial, me parece boa — complementa Fan.

O hidrólogo lembra, porém, que a cota seguirá em 5m80cm, enquanto projetos originais previam que chegasse aos 7m naquela zona para oferecer um maior nível de segurança.

— Essa medida é no sentido de proteger a área entre o aeroporto e o bairro Sarandi, o que inicialmente era previsto pelo projeto de 1968 e nunca foi levado adiante (...) — afirma Dornelles.

Fernando Dornelles observa, porém, que ainda é preciso solucionar pontos de passagem da água a Oeste, como em um trecho junto aos trilhos da Trensurb. Alex Zanoteli sustenta que foram identificados ao todo 80 pontos vulneráveis no município na cheia de 2024, dos quais pelo menos 50 estarão sanados até o começo do inverno. A passagem próxima aos trilhos é marcada como um dos locais prioritários para melhorias no mapa de ações previstas da prefeitura.

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