Violência doméstica
Projeto focado na conscientização de agressores de mulheres completa 15 anos; veja como funciona
Durante este período, 965 homens participaram dos grupos reflexivos do Projeto Borboleta, com índice de reincidência em torno de 7%

Na primeira reunião, o silêncio costuma imperar. Em uma sala do 10º andar do Foro Central I, em Porto Alegre, um grupo formado por homens de idades e perfis diversos reúne-se em um círculo formado com cadeiras. Braços cruzados e olhos voltados para o chão evidenciam uma postura defensiva de quem chega ao encontro, muitas vezes, contrariado. Poucos se reconhecem, de imediato, como autores de violência contra mulher.
Em oito encontros semanais, com duração de cerca de duas horas cada, esses homens passarão por um processo que representa uma oportunidade de mudança. Assim funcionam os grupos reflexivos de gênero do Projeto Borboleta, criado em 2011 pelo Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, com o objetivo de avançar na aplicação da Lei Maria da Penha, que previa, em sua origem, a educação de homens.
— Quem vem para o grupo tem a possibilidade de se transformar — resume a juíza Madgéli Frantz Machado, titular do 1º Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher de Porto Alegre e idealizadora do projeto.
Em 15 anos, 965 homens passaram por grupos reflexivos de gênero do Tribunal de Justiça, projeto atualmente presente em 67 comarcas. A meta é chegar a todas as 165 comarcas até 2049. O índice de reincidência entre os participantes é de aproximadamente 7%, dado considerado relevante dentro de uma realidade marcada pela repetição do ciclo de violência.
Desde 2009 debruçada sobre o tema, a juíza Madgéli alerta para a escalada da violência contra mulheres e admite que, a despeito dos avanços já alcançados, combater retrocessos ainda se mostra como um dos grandes desafios:
— A gente está tratando de direitos humanos, uma trajetória que não é linear. Assim como a gente consegue avanços, muitas vezes a gente acaba tendo retrocessos. Os movimentos "redpill", os "incels, são movimentos que têm tomado uma proporção muito grande por meio das redes sociais.

A participação nos grupos reflexivos pode ser determinada como uma das obrigações derivadas de uma medida protetiva de urgência ou em caso de sentenças condenatórias. São raros os casos de homens que participam voluntariamente. O não comparecimento aos encontros corresponde a um novo crime, cuja pena varia entre dois e cinco anos de prisão.
Via de regra, é uma dificuldade enorme para eles se reconhecerem como autores de algum tipo de violência. Eles acreditam que foram levados àquela situação pela atitude da mulher. Não se veem como agressores, mas como vítimas de uma provocação.
IVETE MACHADO VARGAS
Psicóloga, servidora do Tribunal de Justiça, criadora e coordenadora do projeto por mais de uma década
A confidencialidade é premissa dos encontros: tudo o que é dito ali permanece na sala. Aos juízes, os facilitadores atestam apenas se o participante compareceu ou não. O conteúdo das reuniões nunca é relatado.
Os grupos são conduzidos por equipes multiprofissionais formadas por psicólogos, assistentes sociais, profissionais do Direito e da Sociologia. A dinâmica começa com conversas e apresentações em duplas. Depois, os participantes são provocados a refletir sobre suas ações, avaliar suas histórias, escolhas e consequências.
A metodologia se apoia nos chamados grupos operativos concebidos pelo psiquiatra argentino Enrique Pichon-Rivière. Dinâmicas, vídeos, recortes de notícias, jogos e rodas de conversa funcionam como disparadores de debates entre os homens.
— Um dos participantes chegou muito resistente. Exibimos um vídeo com o depoimento de um homem sobre quando se tornou pai e sobre como foi a infância dele com o pai. O participante começou a chorar compulsivamente e o grupo o acolheu — lembra Aline Vettorazzi Del Fabbro, psicóloga e analista do TJ-RS.
"Se eu tivesse pensado, hoje tudo seria melhor"
Dois homens que participaram de grupos reflexivos aceitaram conversar com Zero Hora sobre a experiência. A reportagem usará nomes fictícios para que as vítimas não possam ser identificadas a partir dos nomes dos seus agressores.
Roberto, 22 anos, concluiu recentemente a participação no primeiro grupo de 2026. Diz que, inicialmente, não chegou disposto a conversar e refletir sobre o que o levou até a sala do Foro Central, condicionante de medida protetiva solicitada pela ex-companheira.
Ele diz que chegou quieto, mais fechado, mas que ao longo das sessões conseguiu se sentir mais à vontade para expressar as suas ideias. Para isso, destaca que foi fundamental que pudesse contar a sua história sem julgamentos.
Um dos aprendizados, que diz levar para a vida, adquiriu a partir da experiência de outro homem, que teria sido agressivo verbalmente com a companheira, o que levou a um debate em uma das sessões.
— As psicólogas trocaram uma ideia: "Será que se conversar de outro jeito ou esfriar a cabeça um pouco não seria melhor?". A gente acaba pensando que se fizesse dessa maneira naquele momento, se eu tivesse pensado, hoje em dia seria tudo melhor — lembra.
"Tu podes melhorar e evoluir"
Leandro hoje mora fora do país, mas fez parte de um dos grupos reflexivos de 2025. Passado um ano, ele ainda tem de cumprir outras condicionantes da medida protetiva, incluindo não se aproximar da ex-companheira, a quem agrediu.
Entre os pontos positivos dos encontros, menciona ter tido a oportunidade de ser ouvido e de se transformar:
— A tua vida não acaba no grupo. Depois disso que aconteceu, tu podes viver de novo, tu podes melhorar, tu podes evoluir. Foi essa sensação de recomeço que o grupo cativou em mim. A gente pode recomeçar com muitas lições aprendidas.