Retratos da Vida
Projeto Geloteca completa seis anos levando arte e literatura para as ruas do Rio Grande do Sul
Iniciativa faz com que geladeiras que antes seriam descartadas sejam transformadas em bibliotecas por artistas urbanos


Em um país no qual mais da metade dos brasileiros não lê – conforme mostrou o levantamento Retratos da Leitura no Brasil, de 2024 –, algumas pessoas ainda trabalham para que o hábito da leitura não seja completamente perdido. É o caso da Geloteca, iniciativa que leva livros a municípios do Rio Grande do Sul por meio de geladeiras descartadas e restauradas e que, neste ano, completa seis anos.
Liderado pelo produtor cultural e rapper Adriano Dplay, o projeto surgiu em 2020, no bairro Guajuviras, em Canoas, com o objetivo de democratizar o acesso à leitura.
– Numa visita a uma amigo, uma geladeira ia ser descartada e sugeri pintar e colocar livros para as pessoas pegarem. Assim nasceu o projeto, que é uma rede viva formada por grafiteiros, artistas, educadores, produtores culturais e lideranças comunitárias. Não é uma equipe fixa, mas um coletivo que cresce conforme a comunidade entra – explica ele.
Com o auxílio de muitas mãos, hoje já são mais de 300 gelotecas instaladas em munícipios gaúchos. A ideia é simples: geladeiras que antes seriam descartadas ganham uma nova cara por artistas urbanos, transformando cada geloteca em uma obra exclusiva.
– A arte urbana é a cara do projeto, o grafite transforma a geladeira em obra de arte, chama a atenção, cria identidade visual e valoriza artistas locais. Antes de abrir a porta, a pessoa já foi impactada pela estética – afirma Adriano.
Além de já ter contemplado mais de mil leitores, o projeto também caminha lado a lado com a Agenda 2030 da ONU, promovendo os 3Rs: reduzir, reutilizar e reciclar.
Acesso democrático
Os locais de cada geloteca são escolhidos estrategicamente, segundo Adriano. Pontos de grande circulação nas periferias, escolas, espaços públicos e territórios onde há parceiros locais do projeto que podem ajudar na manutenção e cuidado. São mais de 30 cidades do Estado, além de gelotecas em Montevidéu, no Uruguai.
– Já os livros são diversos. Tem literatura infantil, juvenil, romances, poesia, livros didáticos e autores locais. A diversidade é o coração. A ideia não é curadoria elitizada, é acesso democrático – destaca.
Sobre a reposição dos livros, Dplay explica que funciona na base da troca e da colaboração. Segundo ele, esse movimento ocorre de forma orgânica e, assim, mesmo para quem nunca teve o hábito, a leitura deixa de ser uma obrigação e vira descoberta.
– Utilizamos a frase “se quer um livro, pegue. Se tem um livro, doe” como regra. A reposição acontece por doações da própria comunidade e parceiros. Quando um livro está na rua, no caminho de casa, ele deixa de ser distante e fica acessível – avalia.
A maioria das geladeiras, principal ferramenta do projeto, vem de doações ou de reciclagens parceiras. Para ajudar a iniciativa, a comunidade pode doar livros, tintas e materiais para pintura, oferecer apoio financeiro e institucional e divulgar o projeto no Instagram @projetogeloteca.
Programação de aniversário
Para celebrar o marco de seis anos levando arte e literatura para as ruas do Rio Grande do Sul, o projeto preparou um evento com programação diversa no próximo domingo, das 9h às 18h, no Hangar Cultural Oli Borges (Est. do Nazário, 3.150, Guajuviras), em Canoas.
O evento terá mutirão de grafite, inauguração da exposição Geloteca: Literatura e Arte nas Ruas, shows musicais, intervenções artísticas e muito mais. A entrada é gratuita.
*Sob supervisão e orientação de Émerson Santos