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Vencedora do troféu Inspiração, da TV Globo, Rozeli é exemplo de força

Nas sextas-feiras, o colunista Émerson Santos escreve sobre educação, cultura, inovação e toda a diversidade presente nas comunidades

03/04/2026 - 10h24min

Atualizada em: 03/04/2026 - 10h25min


Émerson Santos
Émerson Santos
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Wcnoclick/Divulgação
Rozeli da Silva ao receber a premiação da TV Globo. Ela é fundadora da ONS Renascer da Esperança.

Há pessoas com histórias de vida tão potentes, tão profundas, que se tornam quase que um exemplo natural de força a ser seguido. Rozeli da Silva, que cresceu na Restinga, zona sul da Capital, é a personificação disso. Com uma trajetória de inúmeras batalhas, ela criou e consolidou uma instituição que, há três décadas, transforma a vida de crianças da sua comunidade. E se ela já era conhecida por aqui, agora seu nome foi apresentado a todo o país. 

No último domingo (29), a fundadora da ONG Renascer da Esperança foi homenageada no programa Domingão com Huck, da TV Globo, levando o prêmio Melhores do Ano na categoria Inspiração. Ela recebeu o troféu das mãos da ex-ginasta gaúcha Daiane dos Santos. 

Em sua fala, a atleta resumiu a trajetória da líder comunitária com a seguinte frase: “A história da Tinga se confunde com a de Rozeli”. Essa é uma afirmação que não se trata de mera força de expressão. Isso porque a homenageada teve sua identidade moldada pelas ruas do bairro e, em seu percurso de vida, foi ativa nas mobilizações em prol da região. 

— Eu vim pra Restinga com seis anos de idade. A gente aqui não tinha nada, somente uma escola, era tudo mato. E eu fui crescendo com essa comunidade. A gente foi crescendo juntos — conta. 

E foi com isso em mente que ela subiu no palco do Domingão para receber seu troféu: 

— É inexplicável saber que tu está carregando ali o Rio Grande do Sul, representando nossa Porto Alegre, a comunidade Restinga. Então, é uma responsabilidade muito grande. 

Um novo caminho

Para se ter a dimensão do trabalho que a ONG realiza, hoje são mais de 380 crianças atendidas. E são muitos os projetos, como aulas de reforço, karatê, futebol, skate, dança, violino, flauta e mais. Para participarem dessas oficinas, um requisito obrigatório: é preciso estar frequentando a escola. Essa exigência não é à toa. Educação é o foco principal da Renascer, já que foram justamente os estudos que transformaram a trajetória de vida de Rozeli.  

Em um breve resumo de sua biografia, aos 11 anos ela saiu de casa. Perambulava pelas ruas, dormindo em diferentes moradias. Em uma de suas idas para o centro da cidade, praticou um furto, foi pega e acabou na antiga Febem, local em que ficou até fugir.  

Tempos depois, conheceu o primeiro marido e, com apenas 12 anos, engravidou. Foi uma relação conturbada, que envolveu agressões e cárcere privado. Ela só se livrou do homem quando ele foi preso. 

Foi quando começou a trabalhar no Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU) como gari, alguns anos depois, que a sua vida tomou um novo rumo.

Em sua rotina de varrer as ruas, certo dia viu crianças pedindo ajuda em um estabelecimento. A dona desse local correu os pequenos, o que revoltou Rozeli. Essa cena foi uma das motivadoras para dar início à ONG Renascer da Esperança.

“O que me motiva são as crianças”

Quando começou a ONG, ela mesma não sabia ler. A primeira sede foi na pequena sala de uma escola de samba, sem água ou luz. Em 9 de dezembro de 1996, inaugurou o espaço com 40 crianças. Ela conta que, em fevereiro do ano seguinte, já eram 70 alunos atendidos.

Anos depois, também foi por meio de um projeto do DMLU que finalmente aprendeu a decifrar as letras do alfabeto. Assim se passaram três décadas, uma longa trajetória. E o que motiva aquela que ganhou o Troféu Inspiração? 

— O que me motiva são as crianças. Eu vejo que saem alunos daqui para a faculdade, indo fazer faculdade de Música, de Educação Física. Então, isso me inspira, saber que estou fazendo um trabalho que coloca os nossos jovens no mercado de trabalho. 

Porém, tão grande como o impacto positivo que a Renascer realiza é o esforço que a equipe da instituição faz para seguir com as ações. O desafio maior passa pela busca constante por verbas.

O investimento que recebem, por exemplo, é para atender 120 crianças. Mas são mais de 300 alunos que lá estão. Para manter a estrutura, então, Rozeli frequentemente acaba tendo de recorrer a empréstimos e até comprar fiado o alimento das refeições servidas aos alunos. 

— A gente precisa pagar luz, pagar água, temos dívidas. Torço para que o prêmio venha fortalecer muito mais o nosso trabalho, para a gente poder ter mais portas abertas para estar buscando mais ajuda — finaliza.


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