Dignidade Menstrual
"A gente corta um paninho, uma camiseta, bota um papel higiênico": o relato de quem não consegue ter acesso a absorventes todos os meses
Falta de recursos e informação ainda resultam em improvisos com diferentes materiais no período da menstruação

— Continua na mesma rotina. Tem vezes que (a menstruação) vem de surpresa, não temos verba, aí a gente corta um paninho, uma camiseta, bota um papel higiênico e vamos seguindo a vida — relata Raquel Alves da Fontoura, 41 anos, moradora do bairro Costa e Silva, em Porto Alegre.
Há cinco anos, ela vivia realidade semelhante quando morava na Ilha do Pavão e estava desempregada. Era preciso decidir as prioridades, mesmo que isso significasse abrir mão de itens como os absorventes. Na época, com 36 anos, ela contou à reportagem:
— Eu improviso com papel higiênico ou paninho, e quando dá a gente compra.

Em 2024, Raquel passou por uma reviravolta que afetou ainda mais sua condição de vida. Com as águas da enchente de maio arrastando residências e provocando uma evasão na região das Ilhas, a família viveu em um dos centros humanitários de acolhimento por um ano e meio, até se mudar para o bairro onde vive hoje.
Depois de precisar recomeçar do zero, o orçamento da família ficou ainda mais apertado. Com cinco filhos, sendo o mais novo um bebê de 10 meses, Raquel sustenta a família fazendo “bicos” e com benefícios sociais como o Bolsa Família.
Ela também ensinou a filha de 14 anos a adotar a “solução de emergência”, que se tornou rotineira, já que nem sempre há recursos para ter absorventes em casa. A situação reforça a importância do Dia Internacional da Dignidade Menstrual, celebrado nesta quinta-feira (28).
Dignidade Menstrual
Em 2024, o governo federal lançou o Programa de Promoção e Proteção da Saúde e da Dignidade Menstrual, que permite que meninas, mulheres e pessoas que menstruam, em vulnerabilidade social, possam pegar absorventes gratuitamente em locais credenciados da Farmácia Popular.
No Rio Grande do Sul, são mais de 3 mil estabelecimentos, distribuídos em cerca de 440 municípios. A lista da rede credenciada por ser conferida neste link.
A medida é destinada ao público de 10 a 49 anos, inscrito no CadÚnico, com renda de até R$ 218 ou em situação de rua, além de estudantes de baixa renda da rede pública de ensino com renda familiar por pessoa de até meio salário-mínimo. Cada beneficiário pode retirar até 40 absorventes a cada 56 dias, quantidade que o Ministério da Saúde classifica como dois ciclos.
Moradora da Restinga, na Capital, a operadora de caixa Anelise Goulart Sena da Silva, 40 anos, conheceu a medida durante um atendimento em um posto de saúde, pouco depois da implantação, em 2024. Na época, realizou o cadastro no celular.
— Tem que baixar o aplicativo, fazer o cadastro e depois vai na farmácia. Tem que imprimir também o requerimento. Ajuda bastante, agora eu pego para mim e para minha filha de 13 anos — comenta Anelise.

O governo federal estima que, desde o início da iniciativa, foram 500 milhões de absorventes distribuídos, com investimento de R$ 248 milhões em todo o país. Até março deste ano, mais de 3 milhões de pessoas foram beneficiadas com o programa no Brasil, sendo 65.937 no RS.
Conforme o Ministério da Saúde, o número de retiradas de absorventes no Estado por ano foi de:
- 2024: 52.711
- 2025: 58.605
- 2026 (janeiro/março): 17.921
Quais os riscos
Para a ginecologista e professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) Victoria Campos Dornelles, a medida é um progresso, mas precisa ser mais difundida, principalmente entre pacientes que ainda consideram um tabu falar de menstruação. Além disso, ela destaca a importância de informar a respeito para evitar substituições que possam causar complicações.
— Como não é o material apropriado, tem risco de ter irritações na pele, dermatites e até infecções. Outra coisa que a gente vê muito é usar por tempos prolongados absorventes internos, que o ideal seria de quatro a seis horas, não passar de oito horas, e às vezes a gente vê essas pacientes ficando ali de 12 a 24 horas com o mesmo absorvente interno e muitas vezes chegando na emergência com quadros de infecções — alerta a médica.
Em 2024, uma enquete promovida pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), com mais de 2 mil participantes de diferentes regiões brasileiras, destacou que 19% disseram que não ter dinheiro para comprar absorventes e 37% admitiram ter dificuldades de acesso a itens de higiene em escolas ou locais públicos.
Com quatro filhas, a moradora do bairro Lami, Angela Guiassul da Silva Portela Costa, 56, conta que conheceu o programa do governo e tentou fazer o cadastro no ano passado para a filha mais velha, hoje com 18 anos. As duas desistiram no meio do processo afirmando que não conseguiram encontrar uma farmácia credenciada.
Apesar de já estar na menopausa, Angela diz que ainda utiliza absorventes esporadicamente para incontinência urinária. Com cinco mulheres na mesma casa, ela comenta que já houve situações em que a filha teve que recorrer aos protetores diários — absorventes menores para o dia a dia — por falta de orçamento no momento.
— Foi chegando fim do mês, daí foi usando o que tinha mais fácil, até entrar o dinheiro para comprar. Muita cólica também, ela acabou faltando o serviço porque ela disse que ia ser pouco, o diário é muito fininho. Daí depois tem que estar pagando horas e também na escola copiando a matéria — relembra Angela, mencionando o impacto na rotina da filha.

A infrequência escolar é uma questão que envolve todo o país. Conforme a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (Pense 2024), divulgada este ano pelo IBGE, cerca de 15% das adolescentes brasileiras deixaram de ir à escola ao menos um dia por falta de absorvente. O percentual se aproxima de 17% entre alunos da rede pública.
No Rio Grande do Sul, o levantamento apontou que 13,3% de jovens entre 13 e 17 anos faltaram aula no ano anterior (2023) por não terem acesso ao produto higiênico, e 88,7% da mesma faixa etária relataram que a escola que estudavam fornecia absorventes.
Acaba sendo um problema de saúde pública mesmo, porque todas as pessoas que menstruam deveriam ter direito a um material de higiene adequado.
VICTORIA CAMPOS DORNELLES
Ginecologista e professora da PUCRS
Para atender esta demanda, o governo gaúcho orienta que escolas da rede estadual façam a aquisição de absorventes para fornecer a estudantes, evitando que percam aula por causa da menstruação. A compra é realizada conforme a demanda por meio do recurso Agiliza Educação, disponibilizado para as despesas ordinárias, pequenos reparos e melhorias de forma rápida.
Desde 2021, foram utilizados R$ 3,4 milhões na compra dos absorventes por cerca de mil escolas estaduais anualmente, o que corresponde a pouco menos da metade do total de 2,3 mil instituições da rede.
— Acaba sendo um problema de saúde pública mesmo, porque todas as pessoas que menstruam deveriam ter direito a um material de higiene adequado, e não é só sobre o absorvente. Tem toda a questão do saneamento básico, de higiene — ressalta a médica, explicando que o combate à pobreza menstrual também envolve condições adequadas e infraestrutura que nem sempre estão disponíveis a toda a população.