Transformação urbana
Cinza nas paradas: revitalização de corredores de ônibus muda paisagem e divide opiniões em Porto Alegre
Especialistas apontam que mudança pode melhorar aspecto da cidade, mas dificultar identificação do ponto

As estações em corredores de ônibus de Porto Alegre estão passando por uma transformação visual que tem dividido opiniões entre passageiros e especialistas. As tradicionais estruturas metálicas coloridas, implementadas no final dos anos 1990, estão sendo pintadas agora com um tom mais neutro: o cinza.
A mudança teve início em 2024 e faz parte de um pacote de melhorias do Programa Mais Transporte, da prefeitura. Até o momento, mais de 50 estações foram revitalizadas em corredores de avenidas como Baltazar de Oliveira Garcia, Assis Brasil e Farrapos (veja abaixo).
A nova cor, no entanto, tem provocado um debate que vai além da estética e envolve questões como sinalização urbana e manutenção.
Legibilidade
Para especialistas, a mudança pode prejudicar a "legibilidade" da estação de ônibus, ou seja, dificultar a identificação da parada no meio urbano — o que costuma ser facilitado com as cores adotadas até então (verde, amarelo, vermelho e azul).
— Em uma cidade cheia de estímulos - prédios, letreiros, poluição visual e o caos do trânsito - a cor cinza pode atuar como um "silêncio visual" (...) Entretanto, essa neutralidade pode comprometer a legibilidade do espaço. Para um usuário distraído, a parada cinza deixa de ser um "marco" e passa a ser parte da textura da cidade — reflete o arquiteto Fabiano de Vargas Scherer, que também é professor de Design da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
A percepção é compartilhada por usuários do transporte coletivo.
— Eu preferia antes. Era mais bonita a cor e era mais fácil de enxergar e de encontrar a parada — avalia a moradora de Porto Alegre Elisângela Padilha, 47 anos.
Para o professor Eber Pires Marzulo, docente da Faculdade de Arquitetura da UFRGS, a mudança também pode afetar a percepção de conservação das estruturas, já que o cinza tende a mascarar sinais de desgaste.
— O amarelo demarcava mais o mobiliário. Agora pode dificultar para quem não conhece a cidade ou vem de fora para hospitais como o Clínicas, por exemplo. Outra coisa é que a deterioração não será tão clara. O cinza demora mais para notar as marcas de uso — analisa.
Elemento secundário
Por outro lado, há quem defenda a mudança. A usuária de transporte coletivo Ciumara Nascimento, 21, que utiliza diariamente os corredores de ônibus da Capital, diz que a revitalização melhorou o aspecto da cidade.
— Agora ficou bem melhor, porque antes estava bem feio, sujo, malcuidado. Estava muito desvalorizado, cheio de pichações, então agora está cuidado — disse.
O professor Marcelo Martel, do curso de Arquitetura e Urbanismo da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), explica que o mobiliário urbano deve proporcionar funcionalidade aos cidadãos e não ofuscar a arquitetura da cidade.
— As paradas não podem ser protagonistas, mas sim, equipamentos secundários no espaço urbano. Quando elas são muito chamativas se tornam uma interferência nos quarteirões. Elas não podem chamar mais atenção do que o entorno urbano, do que as lojas, casas, edifícios históricos. No Exterior, nas cidades da Europa, por exemplo, elas são neutras. Se a população está sentindo falta desse elemento colorido, talvez seja por uma possível pobreza do entorno urbano — destaca.
Atemporal e mais integrado
A prefeitura de Porto Alegre, por meio da Secretaria de Mobilidade Urbana, justifica a escolha do cinza pelo caráter neutro e atemporal, permitindo melhor integração com a paisagem urbana e reduzindo a poluição visual. (Leia posicionamento abaixo)
Além disso, explica que o cinza contribui para a padronização dos equipamentos, facilita a manutenção (por evidenciar menos sujeira e desgaste) e valoriza a legibilidade da sinalização e das informações ao usuário.
Entenda
Onde já houve mudanças
Atualmente, os serviços estão concentrados no corredor da Avenida João Pessoa. Ao todo, mais de 50 estações já foram revitalizadas nos principais eixos de transporte da cidade:
- Av. Assis Brasil (oito estações)
- Av. Baltazar de Oliveira Garcia (nove estações)
- Av. Bento Gonçalves (uma estação)
- Av. Farrapos (sete estações)
- Av. João Pessoa (três estações)
- Av. Padre Cacique (três estações)
- 3ª Perimetral – Teresópolis e Aparício Borges (23 estações)
O que foi feito nas estações
Além da mudança de cor, as intervenções incluem:
- manutenção e limpeza das estruturas e calçadas
- recuperação de gradis e guarda-corpos
- execução de rampas de acessibilidade
- instalação de piso podotátil nas plataformas
- substituição de telhas e placas de policarbonato
- revisão das instalações elétricas
- troca de lâmpadas e luminárias
- reparos em estruturas metálicas
A prefeitura mantém contrato com a empresa I9 Engenharia para a manutenção das estações de corredor, com possibilidade de prorrogação por até 36 meses, no valor de R$ 3.234.004,05.
Qual a diferença entre paradas e estações de ônibus?
A diferença entre pontos de parada e estações de corredor está principalmente na infraestrutura, localização operacional e função no sistema de transporte.
- Pontos de Parada de Ônibus (PO): atendem ao serviço de ônibus convencional e, em geral, estão localizados nas calçadas, com piso no mesmo nível. Devem dispor de, pelo menos, uma placa indicativa ou de adesivo que identifique o local como ponto de parada. Podem contar com cobertura, proteção lateral, bancos, entre outros elementos. Estão distribuídos ao longo do itinerário das linhas e também podem funcionar como ponto final, especialmente nas linhas convencionais.
- Estações: em geral são locais fechados lateralmente com cobertura, com nível de piso diferente da calçada, localizadas ao longo de corredores de ônibus. Se há um conjunto de estações que atendem diferentes linhas na mesma direção em um mesmo sentido, cada conjunto é considerado uma estação.
Segundo a SMMU, Porto Alegre conta atualmente com 5.575 pontos de parada. Já as estações totalizam 234 unidades, distribuídas ao longo de 63,83 quilômetros de corredores.
O que diz a prefeitura
"A qualificação da infraestruturas em terminais e estações de embarque em corredores do transporte público é uma demanda permanente nas ações do Programa Mais Transporte, que desde 2022 tem o objetivo de qualificar o serviço oferecido aos usuários, garantir a sustentabilidade, o equilíbrio financeiro e a eficiência operacional, com transparência nas informações e dados do Sistema Municipal de Transporte Público e de Circulação (SMTPC).
A Secretaria de Mobilidade Urbana (SMMU) informa que a escolha da cor cinza para a qualificação e renovação das estações de embarque foi adotada por seu caráter neutro e atemporal, permitindo melhor integração com diferentes paisagens urbanas e reduzindo a poluição visual.
Além disso, o cinza contribui para a padronização dos equipamentos, facilita a manutenção (por evidenciar menos sujeira e desgaste) e valoriza a legibilidade da sinalização e das informações ao usuário.
Os serviços iniciaram em janeiro de 2024 e incluem a manutenção e limpeza da estrutura das paradas, de calçadas, com a troca das pedras de basalto danificadas, recuperação de gradis e guarda-corpos de concreto, assim como a execução de rampas de acessibilidade nas travessias de pedestres das estações e execução de piso podotátil nas plataformas de embarque. Também foram realizados o conserto de estruturas metálicas, pintura na cor cinza, troca das telhas e de parte do policarbonato nos locais danificados.
A prefeitura mantém contrato regular com a empresa I9 Engenharia & Consultoria Ltda. para a manutenção das estações de corredor, com possibilidade de prorrogação por até 36 meses, no valor de R$ 3.234.004,05 (três milhões, duzentos e trinta e quatro mil, quatro reais e cinco centavos)
Já foram revitalizados (março 2026) mais de 50 estações de embarque em corredores de ônibus, em ambos os sentidos, nos principais eixos de transporte:
- Av. Baltazar de Oliveira Garcia (nove estações),
- Av. Assis Brasil (oito estações),
- Av. Farrapos (sete estações),
- Av. Padre Cacique (três estações)
- Av. 3ª Perimetral - Teresópolis e Aparício Borges (23 estações),
- Av. João Pessoa - (três estações)
- Av. Bento Gonçalves - (uma estação)
Atualmente os serviços de qualificação estão sendo realizados nas estações do corredor da avenida João Pessoa."