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Dados da Previdência Social

Depressão, ansiedade e outros transtornos fazem do RS terceiro Estado com mais afastamentos do trabalho por saúde mental

Sexto em população, Rio Grande do Sul só é superado por São Paulo e Minas Gerais em concessão de benefícios por incapacidade temporária

20/05/2026 - 13h07min


Lisielle Zanchettin
Lisielle Zanchettin
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O Rio Grande do Sul registrou 46.738 afastamentos do trabalho por transtornos mentais e comportamentais em 2025. Casos de depressão, ansiedade e transtorno bipolar estão entre as principais doenças. O número cresce anualmente, sendo o maior já registrado nos últimos cinco anos. 

Os dados são do Ministério da Previdência Social e evidenciam o adoecimento mental no mercado de trabalho gaúcho. Na comparação com 2024, a quantidade de afastamentos aumentou 19%.

Em uma comparação nacional, o Rio Grande do Sul aparece em terceiro lugar com maior concessão de benefícios por incapacidade temporária em 2025. Embora seja o sexto Estado em população, é o terceiro no ranking de afastamentos, superado apenas por São Paulo e Minas Gerais.

Na avaliação da psicóloga doutora em ciências médicas, Júlia Protas, o aumento ocorre por diversos fatores presentes na sociedade e na forma como as pessoas se relacionam. Alta demanda por produtividade, insegurança financeira e redução dos momentos de lazer, são pontos mais citados por quem busca por atendimento de saúde mental. 

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Afastamentos por saúde mental no RS crescem desde 2023 e é quase duas vezes superior entre mulheres

O levantamento considera doenças do capítulo V da Classificação Internacional de Doenças (CID-10), que reúne centenas de diagnósticos, como transtornos de humor, ansiedade, personalidade, esquizofrenia e uso de substâncias, entre outras.

Conforme a Previdência Social, os dados correspondem ao número de afastamentos, não de trabalhadores afastados. Isso porque uma pessoa pode tirar mais de uma licença médica no mesmo ano e esse número é contabilizado mais de uma vez. 

Vale também ressaltar que, embora tenham resultado no afastamento das atividades profissionais, nem todos os casos estão necessariamente relacionados ao ambiente de trabalho.

Mulheres são maioria 

Dos mais de 46 mil afastamentos do trabalho no ano passado, 30.439 foram de mulheres — o que corresponde a 65%. Na separação por sexo, episódios depressivos também são o principal motivo, com 8.640 benefícios concedidos para trabalhadoras. Em questões de proporção por gênero, não há mudança relevante desde 2021.

Para a psicóloga mestre em recursos humanos e especialista em gestão de pessoas e desenvolvimento humano, Bethânia Panarotto, o maior adoecimento entre mulheres ocorre por fatores como o maior acúmulo de trabalho, carga emocional e pressão por performance em diferentes âmbitos de vida, do trabalho à aparência. 

— Muitas mulheres acumulam dupla ou tripla jornada de trabalho entre lado profissional, gestão da casa, cuidados com os filhos e demandas emocionais da família. Culturalmente, as mulheres ainda assumem mais responsabilidades e sentem que precisam provar competência o tempo todo, conciliando produtividade, aparência, maternidade e carreira — explica a psicóloga. 

No entanto, outro ponto importante a se pontuar é a busca por ajuda e diagnóstico. Segundo a especialista, mulheres tendem a procurar atendimento psicológico e médico com mais frequência que os homens.

Pandemia e enchente ainda afetam 

A pandemia de covid-19 e a enchente histórica de 2024, que atingiu 92% do municípios gaúchos, ainda afetam a saúde mental. Especialistas ouvidos por Zero Hora apontam que os eventos estão associados ao grande número de afastamento dos trabalhadores gaúchos. 

— As duas questões impactaram diretamente a vida de todos. No caso da enchente, ainda é recente. Isso afeta tanto no aspecto da saúde mental, quanto questões psicossociais. De economia, acesso ao trabalho e a serviços mínimos. O sofrimento emocional está muito ligado a isso — afirmou a médica do trabalho e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Maria Carlota Borba Brum.

O mesmo contexto é citado pela psicóloga Bethania Panarotto. Para a profissional, os impactos emocionais se acumularam desde a pandemia e a enchente no Rio Grande do Sul. 

Mais adoecimento ou maior acesso? 

O aumento dos afastamentos por questões de saúde mental pode estar relacionado a dois fatores principais: ao crescimento dos casos de adoecimento psíquico, mas também à ampliação do acesso aos diagnósticos. Atualmente, as pessoas falam mais sobre saúde mental, enfrentam menos preconceito por buscar ajuda e conseguem identificar sintomas que antes eram ignorados ou naturalizados.

Ao mesmo tempo, as exigências do trabalho e da vida cotidiana também podem contribuir para o aumento do sofrimento emocional, tornando mais frequentes os casos de esgotamento. 

— Acredito que estejamos identificando mais os adoecimentos mentais. As pessoas se sentem mais encorajadas a buscar esses diagnósticos e também tratamentos — explicou Júlia Protas, salientando que um adoecimento mental não necessariamente decorre de um transtorno, mas de uma condição.

No ano passado, a Secretaria Estadual da Saúde (SES) publicou uma nota técnica sobre os transtornos mentais relacionados ao trabalho, atualizando uma norma de 2021. O documento atualiza a lista de agravos para incluir condições como burnout, ansiedade e depressão, além de reforçar a obrigatoriedade da notificação tanto para casos suspeitos quanto confirmados.

— Existe, sim, um adoecimento real mais intenso, mas também houve avanço no reconhecimento e nos diagnósticos. Hoje as pessoas falam mais sobre o assunto e os profissionais de saúde estão mais preparados para identificá-los. A realidade pode ser ainda maior do que os números mostram. Não é moda, nem fragilidade. É um problema concreto e crescente — disse Bethânia. 

Maior exigência às empresas 

Na visão da psicóloga mestre em recursos humanos e especialista em gestão de pessoas e desenvolvimento humano, Bethânia Panarotto, há um cenário de crise de saúde mental relacionada ao trabalho. 

A situação fez com que o governo federal buscasse medidas mais efetivas, atualizando a Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que trata da segurança e saúde no ambiente de trabalho para abranger também questões de saúde mental. Após um adiamento de um ano para que as empresas se adaptassem, as mudanças entram em vigor a partir do dia 26 de maio.

Assim como hoje vigoram normas de saúde no ambiente de trabalho como a ergonomia dos escritórios ou à obrigatoriedade de uso de equipamentos de proteção, as empresas precisarão incluir questões psicossociais no seu gerenciamento de riscos.

Isso inclui estar atento a metas excessivas, jornadas extensas, ausência de suporte, assédio moral, conflitos interpessoais e falta de autonomia no trabalho. Esses fatores podem causar estresse, ansiedade, depressão e outros problemas de saúde mental nos trabalhadores, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

Caso sejam identificados riscos, será necessário elaborar e implementar planos de ação, incluindo medidas preventivas e corretivas, como reorganização do trabalho ou melhorias nos relacionamentos interpessoais. As ações deverão ser monitoradas continuamente para avaliar a eficácia e passar por revisões.

Empresas que não incluírem os riscos psicossociais no gerenciamento de riscos poderão receber multas, autuações e até interdições.


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