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Tijolo armado

"É algo único": saiba por que a Ceasa de Porto Alegre é uma referência arquitetônica no Brasil

Complexo inaugurado na década de 1970 é maior centro de comércio de hortifrutigranjeiros do Rio Grande do Sul

24/05/2026 - 17h24min


Vinicius Coimbra
Vinicius Coimbra
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O movimento diário de pessoas e mercadorias na Ceasa de Porto Alegre é permeado por uma construção cultuada entre engenheiros e arquitetos.

— É algo único. Hoje em dia é difícil replicar uma obra desse porte — resume Fábio Zatti, arquiteto que atua no Estudo de Viabilidade Urbanística (EVU) da Ceasa.

O profissional se refere às coberturas onduladas projetadas pelo engenheiro uruguaio Eladio Dieste (1917-2000), famoso mundialmente pelo uso da chamada "cerâmica armada" ou "tijolo armado".

A técnica mistura tijolos armados e uma fina camada de concreto para criar estruturas curvas resistentes. Em vez de depender de lajes e vigas, o próprio formato curvo ajuda a sustentar o peso da cobertura.

— O tijolo comum é como o osso, resistente para ficar de pé e aguentar peso, mas é duro e pode quebrar se sofrer um impacto de lado. Já o tijolo armado é quando há o reforço de barras de aço dentro das paredes com amarração. Essas barras funcionam como os nossos músculos e tendões, dando flexibilidade e força para a estrutura não cair nem rachar quando é forçada — exemplifica Bárbara Griebel, engenheira civil e gerente operacional da Ceasa.

Duda Fortes/Agencia RBS
Cobertura de tijolo armado forma "ondas" na Ceasa.

O trabalho do uruguaio pode ser visto em todos os prédios e no pórtico de entrada da central de abastecimento situado no bairro Anchieta, na zona norte da Capital.

É, porém, o Pavilhão dos Produtores (também chamado de GNP) a estrutura considerada a joia do complexo. Local onde agricultores comercializam suas mercadorias, o espaço tem 280 metros de comprimento por 45 metros de largura, sem apoios centrais.

— A estrutura facilita até hoje a mobilidade interna para a montagem das bancas. Ela tem um sistema de abóbadas com grandes vãos que permitem a iluminação natural. Apesar das pinturas ao longo dos anos, permanece idêntica ao que foi projetado inicialmente. Atualmente, conseguimos esse vão com estrutura metálica, com concreto armado. Na época, isso foi inovador — acrescenta Zatti.

A Ceasa foi construída no Sistema Nacional de Abastecimento Brasileiro (Sinac) entre 1968 e 1974. Além de Dieste, contratado para realizar o projeto da cobertura, atuaram os arquitetos gaúchos Carlos Maximiliano Fayet, Cláudio Luís Gomes de Araújo, Carlos Eduardo Dias Comas e José Américo Gaudenzi.

O complexo ocupa uma área de 42 hectares e possui 145 mil metros quadrados construídos, utilizados para o comércio de hortifrutigranjeiros.

Atualmente, reúne 11 mil trabalhadores diretos e gera mais de 50 mil empregos indiretos. O faturamento bruto médio mensal é de R$ 3,8 milhões.

Outros trabalhos

Um estudo indica que Dieste e as empresas que ele criou realizaram 40 projetos no Brasil, como as Ceasas de Curitiba (PR), Rio de Janeiro (RJ) e Maceió (AL). No Estado, ele trabalhou na elaboração de sedes de clubes, empresas, fábricas, cooperativas e silos agrícolas. Além do trabalho próprio, o engenheiro influenciou outros profissionais a usar a técnica.

Nascido em Artigas, cidade uruguaia vizinha da gaúcha Quaraí, o engenheiro teve uma de suas obras declarada Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco: a Igreja de Cristo Obrero (Cristo Trabalhador, em português), na cidade de Atlântida, a 45 quilômetros da capital Montevidéu.

Neta do engenheiro, Leticia Dieste, 53 anos, diz ter tido a "sorte" de conviver toda a infância com o avô, a quem costumava visitar com frequência. Segundo ela, a exemplo do Brasil, Dieste é tratado como uma referência entre profissionais e nas universidades no Uruguai.

— O fato de a Igreja de Cristo Obrero ser patrimônio histórico da humanidade é um orgulho e posiciona a obra dele no contexto internacional. No Uruguai, em geral, as pessoas têm a sensação de que não há potencial, conhecimento e inovação. Ele representa que é possível fazer coisas (importantes) em um país pequeno, por uma pessoa educada no sistema público e com os recursos locais — disse Leticia, que é artista plástica.

Archivo SMA/Facultad de Arquitectura,Diseño y Urbanismo (Fadu)/Universidad de la República (Udelar)
Eladio Dieste projetou a cobertura dos prédios da Ceasa.

Em seu país natal, Eladio Dieste assina os desenhos de obras como o primeiro shopping de Montevidéu, ginásios, terminais de ônibus, monumentos, além de outras igrejas.

— O impacto de Dieste reside na superação do abismo entre a engenharia estrutural e o desenho arquitetônico por meio da "tecnonomia", conceito que define o desenvolvimento de tecnologias sofisticadas, porém perfeitamente adequadas à realidade econômica e à escassez de recursos da América Latina, recusando a mera importação de soluções industriais estrangeiras — pontua Leonardo Fitz, arquiteto que estudou a obra do uruguaio no mestrado.

Apesar da complexidade arquitetônica, o empreendimento segue desconhecido da maioria da população da cidade, segundo o arquiteto e urbanista Glênio Vianna Bohrer.

— É como se a cidade não tivesse se dado conta da existência desse equipamento. Ficou restrito a um nicho de arquitetos interessados no tema. É um prédio que, para a vivência da cidade e em termos de reconhecimento nacional como arquitetura, nunca teve a dimensão que merecia, mesmo sendo uma das obras mais impressionantes e incomuns de Porto Alegre — pontua Bohrer.

Melhorias no centro de distribuição

Segundo a Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR), responsável pela Ceasa, há investimentos em andamento e outros previstos para reestruturação e manutenção do local.

Entre as intervenções previstas, está em fase de encaminhamento para licitação uma obra de maior porte no setor B1 da central, no valor de R$ 700 mil. A expectativa é de que os trabalhos sejam iniciados ainda neste ano, com possibilidade de conclusão até o fim de 2026. 

Também há um projeto de recuperação da infraestrutura pluvial e do sistema de esgoto cloacal da central, estimado em R$ 15 milhões e que está em tramitação por meio do Fundo do Plano Rio Grande (Funrigs) para viabilização.

A Ceasa também conduz um projeto de parceria público-privada (PPP) voltado à ampliação estruturada do complexo, com previsão de concessões por meio de concorrência pública e prazo estimado de até 25 anos para utilização dos espaços. 

Entre os empreendimentos previstos estão a implantação de um posto de combustível com serviços conexos, com investimento estimado em R$ 11 milhões. A licitação do posto de combustível está prevista para ocorrer no segundo semestre deste ano, com expectativa de inauguração no primeiro semestre de 2027.

O projeto também prevê a criação do chamado "Shopping das Flores", iniciativa que deverá reunir floricultura, restaurantes, boutiques de carnes e pescados, lojas de artigos da cultura gaúcha e uma Feira da Agricultura Familiar permanente.

A concessão do projeto do Shopping das Flores deverá ser lançada até o fim de 2026, com previsão de investimentos próximos a R$ 40 milhões. 

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