Prevenção
El Niño deve se formar antes do previsto, com mais risco de ser "muito forte", diz centro americano
Cenário pode antecipar aumento da chuva no Rio Grande do Sul que costuma acompanhar o fenômeno


O El Niño deverá se formar antes do previsto inicialmente, o que também pode antecipar o aumento da chuva no Rio Grande do Sul que costuma acompanhar o fenômeno.
O contínuo aquecimento do Oceano Pacífico equatorial observado ao longo das últimas semanas levou a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA) dos Estados Unidos a elevar o percentual de probabilidade de consolidação do El Niño no trimestre de maio a julho de 61% para 82%.
A entidade também elevou o risco de um evento "muito forte" por conta da rapidez desse aquecimento e de uma forte anomalia de temperatura verificada abaixo da superfície da água.
— O aquecimento (do Pacífico) está rápido. Então, no final de maio ou início de junho, provavelmente, acredito que já teremos a formação do El Niño — avalia a meteorologista Cátia Valente, da Climatempo e do Centro de Monitoramento da Defesa Civil do Estado.
A meteorologista Natália Pereira, sócia-diretora da Catavento Meteorologia, que presta serviço para a prefeitura de Porto Alegre, explica que a mudança na previsão se deve ao comportamento recente do Pacífico.
A região central do oceano que serve como referência para classificar o fenômeno (chamada de 3.4) já se encontrava na semana passada em um patamar de 0,4ºC acima da média na superfície — apenas 0,1ºC distante do nível que passa a configurar o fenômeno (0,5ºC além do patamar histórico). Na região do mar mais próxima à costa do Peru, porém, houve um salto súbito dessa anomalia de temperatura de 0,7ºC para 1ºC além do normal.
— Houve um aumento significativo nessa semana. E essa água (na costa sul-americana) se desloca em direção ao centro do Oceano. Com isso, nessa próxima semana ou na seguinte, a NOAA já deverá informar o estabelecimento do fenômeno — estima Natália.
A meteorologista da Climatempo observa ainda que a NOAA elevou o risco de El Niño "muito forte" (caracterizado por medições de pelo menos 2ºC acima da média) no final do ano de 25% para 37% nessa última rodada de análise.
Somando-se as possibilidades de um evento "forte" ou "muito forte", o risco combinado saltou de 50% para 67% entre novembro deste ano e janeiro de 2027. Veja abaixo a distribuição das probabilidades atuais.
Intensidade estimada do El Niño (novembro a janeiro)
- Neutro: 2%
- Fraco: 9%
- Moderado: 22%
- Forte: 30%
- Muito forte: 37%
Aquecimento marítimo acelerado
Alguns fatores principais justificam o agravamento do cenário: um deles é justamente o aumento da temperatura marítima em uma velocidade maior do que o padrão.
— Quando o El Niño é mais fraco, esse aquecimento é mais gradativo. Mas, hoje, está ocorrendo de forma muito rápida — esclarece Natália.
Outro indicativo é uma significativa elevação da temperatura da água abaixo da superfície que vem ocorrendo há seis meses e chega a somar cerca de 6ºC além da média em alguns pontos.
— A gente sempre fala nas águas superficiais, por conta do acoplamento entre a superfície e a atmosfera (que gera os efeitos no clima), mas são as águas mais quentes em profundidade que vão manter o oceano aquecido, e elas estão bem quentes — analisa Cátia Valente.
Natália Pereira observa ainda que há mudanças recentes no padrão de ventos que favorecem a formação do fenômeno, como o enfraquecimento do vento de leste ou alteração da direção para oeste.
Previsões ainda devem ser vistas com cautela
Apesar da elevação das estimativas de risco, a meteorologista Natália Pereira enfatiza que é cedo para afirmar com certeza que haverá um episódio extremo no segundo semestre:
— A gente ainda não pode bater o martelo com 100% de certeza. Precisamos avaliar como vai ficar o comportamento do oceano ao longo dos próximos meses, principalmente ao longo dos próximos dois meses.
O comunicado mais recente da NOAA também traz um alerta de que é preciso avaliar com cautela os efeitos de um eventual episódio de grande força. O texto informa: "Eventos de El Niño mais intensos não garantem fortes impactos, eles podem apenas tornar certos impactos mais prováveis".
Isso significa, no caso do Rio Grande do Sul, um aumento na média de chuva esperada para o período — como costuma ocorrer, historicamente, em períodos de aquecimento anômalo do Pacífico.
Como a formação do fenômeno deve ocorrer antes do estimado inicialmente, é possível que essa elevação nos índices de precipitação também seja antecipada. Isso depende de quando haverá o "acoplamento" da temperatura elevada do mar com a atmosfera, ou seja, quando o calor excessivo da água passará a impactar de fato o comportamento do clima.
Enchente não necessariamente se repetirá
Mesmo que as previsões se confirmem, isso não significa que uma enchente como a ocorrida em 2024 vai se repetir. A cheia observada dois anos atrás foi impulsionada por fatores meteorológicos específicos e impossíveis de prever a longo prazo, como um bloqueio atmosférico que manteve a chuva concentrada em uma mesma região ao longo de vários dias.
Um relatório divulgado no começo do mês pelo Comitê Científico de Adaptação e Resiliência Climática do Estado confirma o maior risco de chuvas intensas e tempestades em períodos de El Niño.
Porém, sustenta que esse tipo de evento "por si só, não implica a materialização de desastres, que dependem também de fatores como exposição e vulnerabilidade. Ainda assim, o cenário reforça a necessidade de preparação por parte da gestão pública, com planos de contingência estruturados, atualizados e devidamente comunicados".