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Entre linhas e renda: capacitação abre caminhos para costureiras nas periferias

Iniciativas de qualificação impulsionam quem converte suas habilidades manuais em fonte de renda para as famílias

14/05/2026 - 14h46min


Gabriel Vieira*
Gabriel Vieira*
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Mateus Bruxel/Agencia RBS
Madalena Fontoura confecciona roupas de matriz africana e itens de decoração

É com a agulha na mão que mulheres empreendedoras utilizam as habilidades manuais para gerar renda extra para as suas famílias. Entre as costureiras, acontecem muitas trocas de experiências e grupos acabam sendo formados para fazer a produção circular. Itens de vestuário, decoração e acessórios podem ser feitos por meio dessas habilidades. 

Nas periferias, diversas mulheres chefiam suas casas e isso acaba sendo uma das alternativas para conciliar a geração de renda e os cuidados com os filhos pequenos, por exemplo. Por conta disso, o Sebrae-RS promove cursos para capacitar grupos de empreendedores periféricos, e na Restinga, há um exclusivo para qualificação de mulheres. 



Para a construção desse projeto, houve um diálogo com as lideranças e associações da comunidade. Desde o ano passado, o Economia de Vila ocorre com diferentes trilhas que preparam esse público com ações de acesso a feiras de negócios, a visitas técnicas e a outras oportunidades que são disponibilizadas durante o ano. 

– A ideia é que, ao longo dessa capacitação, a gente vá ajudando com a parte de gestão do negócio, mas, além disso, abrimos e criamos oportunidades para essas empreendedoras acessarem ambientes nos quais normalmente elas não participam – afirma Carolina Niederauer, analista de ambiente do Sebrae-RS. 

Ela ainda explica como os cursos são moldados para um melhor entendimento dos modelos de negócios:

– Elas participam das trilhas que olham para a modelagem de negócio, certificação, organização do processo de finanças, marketing e vendas. Um grupo delas já participou do South Summit, outro vai participar da Feira Brasileira de Varejo, e no ano passado outro expôs na feira do empreendedor do Sebrae. 


Mãos à obra

Madalena Fontoura, 45 anos, costura roupas de matriz africana e itens de decoração. Ela está há mais de 25 anos nessa caminhada, entre a costura, os afazeres da casa e o cuidado de seus três filhos autistas. Sua relação com a costura iniciou de forma inesperada: 

– Como eu sou de religião de matriz africana, fui levar na costureira um tecido que eu comprei com muita dificuldade para fazer a minha primeira roupa de religião. E a costureira não conseguiu fazer. 

Incentivada por familiares, ela relembra que ganhou um livro de costura e começou a praticar. Assim como outros pequenos empreendedores, Madalena foi se experimentando e pegou gosto à produção: 

– Me arrisquei e comprei uma máquina de costura. De lá pra cá, fui costurando, fui cortando, e começou o boca a boca. A vizinhança pedindo pra eu fazer. Comecei a trabalhar na costura dos axós, que são as roupas da religião de matriz africana. 

Após esse período inicial de trabalho com a costura, Madalena passou a se especializar. Terminou os seus estudos, mas sempre com a costura em paralelo. Com o passar do tempo foi se aperfeiçoando e conseguiu comprar máquinas novas, industriais, que utiliza até hoje. Acompanhe o trabalho de Madalena no Instagram @artesdapreta.axos.


Especialização e empoderamento

A capacitação também auxilia no sentimento de pertencimento desses empreendedores.

– No início das capacitações, elas não conseguem se denominar ou não se enxergam como empreendedoras. Para elas, empreendedor é alguém que já tem um negócio estruturado, ganhando muito dinheiro – explica Carolina. 

Neste ano, o projeto está em cinco comunidades da Capital. Além da Restinga, são atendidas as regiões do Morro da Cruz, da Bom Jesus, da Cruzeiro e da Vila Planetário. As atividades ocorrem semestralmente de março a julho, depois a turma segue com mais um ciclo de agosto até novembro. O grupo deste ano conta com 40 empreendedoras realizando as atividades. 

Para o ano que vem, a ideia é expandir as ações para fora de Porto Alegre. No site do Sebrae-RS, é possível acompanhar as programações para os cursos de qualificação e dicas para o seu negócio. Acesse gzh.digital/SebraeRS ou entre em contato pelo fone 0800-560-0800.


Mateus Bruxel/Agencia RBS
Os turbantes são um sucesso!

Em 2024, Madalena realizou cursos de capacitação junto ao Sebrae. Por meio deles, pôde conhecer outras mulheres negras que também fazem esse tipo de trabalho na região. A criação dessa rede de contatos auxilia na circulação dos produtos. Para o futuro, Madalena sonha em criar um curso de costura para mulheres e mães atípicas da comunidade:   

– Seria como um projeto de capacitação de mulheres e de mães atípicas. Abrir a minha loja, ter condições de ter mais máquinas para poder ensinar as mães. 

Ela também fala dos efeitos que tudo isso causa na vida dessas mulheres.

– Para a mulher, até a autoestima sobe. A mulher se sente valorizada. Muitas ficam em situação de violência porque não têm renda. Se capacitando, elas conseguem sair disso – finaliza. 


*Com orientação e supervisão de Émerson Santos


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