Empreendedoras
Entre linhas e renda: capacitação abre caminhos para costureiras nas periferias
Iniciativas de qualificação impulsionam quem converte suas habilidades manuais em fonte de renda para as famílias


É com a agulha na mão que mulheres empreendedoras utilizam as habilidades manuais para gerar renda extra para as suas famílias. Entre as costureiras, acontecem muitas trocas de experiências e grupos acabam sendo formados para fazer a produção circular. Itens de vestuário, decoração e acessórios podem ser feitos por meio dessas habilidades.
Nas periferias, diversas mulheres chefiam suas casas e isso acaba sendo uma das alternativas para conciliar a geração de renda e os cuidados com os filhos pequenos, por exemplo. Por conta disso, o Sebrae-RS promove cursos para capacitar grupos de empreendedores periféricos, e na Restinga, há um exclusivo para qualificação de mulheres.
Para a construção desse projeto, houve um diálogo com as lideranças e associações da comunidade. Desde o ano passado, o Economia de Vila ocorre com diferentes trilhas que preparam esse público com ações de acesso a feiras de negócios, a visitas técnicas e a outras oportunidades que são disponibilizadas durante o ano.
– A ideia é que, ao longo dessa capacitação, a gente vá ajudando com a parte de gestão do negócio, mas, além disso, abrimos e criamos oportunidades para essas empreendedoras acessarem ambientes nos quais normalmente elas não participam – afirma Carolina Niederauer, analista de ambiente do Sebrae-RS.
Ela ainda explica como os cursos são moldados para um melhor entendimento dos modelos de negócios:
– Elas participam das trilhas que olham para a modelagem de negócio, certificação, organização do processo de finanças, marketing e vendas. Um grupo delas já participou do South Summit, outro vai participar da Feira Brasileira de Varejo, e no ano passado outro expôs na feira do empreendedor do Sebrae.
Mãos à obra
Madalena Fontoura, 45 anos, costura roupas de matriz africana e itens de decoração. Ela está há mais de 25 anos nessa caminhada, entre a costura, os afazeres da casa e o cuidado de seus três filhos autistas. Sua relação com a costura iniciou de forma inesperada:
– Como eu sou de religião de matriz africana, fui levar na costureira um tecido que eu comprei com muita dificuldade para fazer a minha primeira roupa de religião. E a costureira não conseguiu fazer.
Incentivada por familiares, ela relembra que ganhou um livro de costura e começou a praticar. Assim como outros pequenos empreendedores, Madalena foi se experimentando e pegou gosto à produção:
– Me arrisquei e comprei uma máquina de costura. De lá pra cá, fui costurando, fui cortando, e começou o boca a boca. A vizinhança pedindo pra eu fazer. Comecei a trabalhar na costura dos axós, que são as roupas da religião de matriz africana.
Após esse período inicial de trabalho com a costura, Madalena passou a se especializar. Terminou os seus estudos, mas sempre com a costura em paralelo. Com o passar do tempo foi se aperfeiçoando e conseguiu comprar máquinas novas, industriais, que utiliza até hoje. Acompanhe o trabalho de Madalena no Instagram @artesdapreta.axos.
Especialização e empoderamento
A capacitação também auxilia no sentimento de pertencimento desses empreendedores.
– No início das capacitações, elas não conseguem se denominar ou não se enxergam como empreendedoras. Para elas, empreendedor é alguém que já tem um negócio estruturado, ganhando muito dinheiro – explica Carolina.
Neste ano, o projeto está em cinco comunidades da Capital. Além da Restinga, são atendidas as regiões do Morro da Cruz, da Bom Jesus, da Cruzeiro e da Vila Planetário. As atividades ocorrem semestralmente de março a julho, depois a turma segue com mais um ciclo de agosto até novembro. O grupo deste ano conta com 40 empreendedoras realizando as atividades.
Para o ano que vem, a ideia é expandir as ações para fora de Porto Alegre. No site do Sebrae-RS, é possível acompanhar as programações para os cursos de qualificação e dicas para o seu negócio. Acesse gzh.digital/SebraeRS ou entre em contato pelo fone 0800-560-0800.

Em 2024, Madalena realizou cursos de capacitação junto ao Sebrae. Por meio deles, pôde conhecer outras mulheres negras que também fazem esse tipo de trabalho na região. A criação dessa rede de contatos auxilia na circulação dos produtos. Para o futuro, Madalena sonha em criar um curso de costura para mulheres e mães atípicas da comunidade:
– Seria como um projeto de capacitação de mulheres e de mães atípicas. Abrir a minha loja, ter condições de ter mais máquinas para poder ensinar as mães.
Ela também fala dos efeitos que tudo isso causa na vida dessas mulheres.
– Para a mulher, até a autoestima sobe. A mulher se sente valorizada. Muitas ficam em situação de violência porque não têm renda. Se capacitando, elas conseguem sair disso – finaliza.
*Com orientação e supervisão de Émerson Santos