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O buraco é mais embaixo

"Está distante de ser amigável ao envelhecimento": mobilidade urbana é desafio para os 60+

Segundo especialistas, a capital gaúcha trata a acessibilidade como adaptação pontual, e não como princípio de planejamento

24/05/2026 - 14h08min


Vinicius Coimbra
Vinicius Coimbra
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André Ávila/Agencia RBS
Vera Lúcia, 71 anos, e Marcial, 72, moram na Capital há mais de 20 anos.

A mobilidade de idosos em Porto Alegre é permeada por calçadas irregulares, trânsito agressivo e infraestrutura urbana não pensada para a terceira idade. A conclusão é de especialistas na área, que encontram consonância com a percepção de pessoas com mais de 60 anos que vivem na Capital.

O diagnóstico é que Porto Alegre trata a acessibilidade como adaptação pontual, e não como princípio de planejamento da cidade.

Pessoas 60+ representam 21,9% da população de Porto Alegre — cerca de 292 mil moradores —, o que faz da cidade a capital brasileira com maior proporção de idosos, segundo o Censo Demográfico 2022 do IBGE.

As calçadas surgem como o problema central na avaliação de Marcial Renato Estivalet de Aguiar, 72 anos, morador de Porto Alegre há mais de duas décadas.

— As calçadas são irregulares, os buracos são constantes. Quando cortam a raiz de uma árvore, não emparelham, então é fácil cair. Além disso, tem a questão da segurança: escureceu um pouco, ficamos à mercê dos marginais — opina o aposentado.

A esposa dele, Vera Lúcia Aurélio de Aguiar, de 71, relata ter fraturado o pé anos atrás após escorregar em uma calçada na saída do campus da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), na região central da cidade.

Os depoimentos do casal vão ao encontro da avaliação de Rafael Brener da Rosa, arquiteto urbanista e professor da Escola Politécnica da PUCRS:

— Não precisa ser um especialista para ver que o principal problema são as calçadas de Porto Alegre. Há passeios em péssimo estado de conservação, pedras soltas, pouca sinalização. É o grande "calcanhar de Aquiles" da mobilidade para os idosos em particular e para os portadores de necessidades especiais em geral — enfatiza Rosa.

Entre os espaços com condições melhores para o deslocamento de idosos, especialistas citam a Orla do Guaíba, o Parcão (Parque Moinhos de Vento) e o Marinha do Brasil — áreas com trajetos mais planos e espaços de convivência.

Discutir acessibilidade

Bibiana Veríssimo Bernardes, dirigente do Núcleo de Defesa da Pessoa Idosa da Defensoria Pública do Estado, situa o problema em um quadro estrutural:

— Porto Alegre está distante de ser amigável ao envelhecimento. Há um descompasso entre o discurso institucional e a experiência das pessoas idosas nas ruas. Calçadas irregulares, ausência de rampas, obstáculos urbanos, travessias inseguras, iluminação precária e dificuldades no transporte coletivo seguem comprometendo a autonomia e a segurança.

A defensora pública cita outros desafios para o grupo: o tempo reduzido de travessia nos semáforos, a ausência de banheiros públicos acessíveis e a falta de áreas adequadas de descanso, como bancos e espaços de permanência.

Para ela, o aumento da idade mínima para isenção no passe livre nos ônibus da Capital, alterada de 60 para 65 anos em 2022, representou um retrocesso social na mobilidade urbana 60+, com prejuízo aos que têm renda menor.

O envelhecimento é pouco considerado no planejamento urbano brasileiro. As cidades foram estruturadas para a lógica da produtividade e da velocidade, e não para o cuidado, a permanência e a convivência. Discutir acessibilidade para pessoas idosas é discutir o modelo de cidade — defende.

Por outro lado, Bibiana cita que a Capital conta com equipamentos públicos relevantes à população idosa, como o Centro Dia do Idoso Nascer do Sol, na Zona Norte, e o Centro Dia do Idoso Portal da Felicidade, na Zona Sul.

O que os idosos devem cuidar para evitar contratempos na cidade

  • Atenção a pisos escorregadios ou irregulares
  • Cuidado ao subir e descer escadas, ônibus e calçadas
  • Uso de calçados adequados, com solado antiderrapante
  • Utilização correta de bengalas e andadores
  • Prestar atenção à iluminação adequada em áreas de circulação

Etarismo é o principal problema

Régis Mestriner, secretário adjunto de Gerontologia da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) no Estado, pondera que Porto Alegre integra, desde 2020, a Rede Global de Cidades e Comunidades Amigáveis à Pessoa Idosa da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Para ele, o reconhecimento é relevante porque a proposta envolve diferentes tópicos, como espaços públicos e edifícios, transporte, moradia, participação social, respeito, trabalho e serviços de saúde.

— Esse histórico de reconhecimento não deve ser confundido com uma certificação de que a cidade atende plenamente todos os aspectos. Porto Alegre tem um histórico de reconhecimento institucional do respeito à pessoa idosa, mas ainda precisa transformar esse compromisso em uma experiência urbana consistente, além de uma política de estado ou de governo — argumenta.

Segundo Mestriner, outro aspecto que molda a mobilidade urbana 60+ na Capital é o etarismo – preconceito, estereótipo e discriminação baseados na idade da pessoa.

— Ele (etarismo) aparece quando a cidade trata a pessoa idosa como sinônimo de lentidão, fragilidade ou dependência, ou quando a necessidade de mais tempo para caminhar, atravessar uma rua ou acessar um serviço é vista como incômoda, e não como parte legítima da diversidade social — diz.

Uma cidade que não reconhece diferentes ritmos de deslocamento acaba produzindo exclusão e iniquidade para todas as idades

RÉGIS MESTRINER

Secretário adjunto de Gerontologia da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia

No trânsito, pedestre no fim da fila

O arquiteto e professor da PUCRS Rafael Brener da Rosa defende que o debate sobre o assunto também deve incluir a análise da lógica do trânsito porto-alegrense

Para ele, a cidade não respeita a pirâmide da mobilidade urbana, uma ferramenta de planejamento que estabelece uma hierarquia ideal de prioridades no trânsito.

— O pedestre está no topo da pirâmide. Depois vêm os usuários de veículos não motorizados e o transporte coletivo. Por fim, o transporte de cargas e o automóvel. No Brasil, invertemos isso: o automóvel ficou no topo e, por último, o pedestre — afirma.

André Ávila/Agencia RBS
Isenção no passe livre nos ônibus da Capital foi alterada de 60 para 65 anos em 2022.

A aposentada Vera Lúcia acrescenta que o trânsito da Capital é hostil aos mais velhos.

— Carros e motos não param quando abre para o pedestre na sinaleira. Fui quase atropelada com o sinal aberto para mim. Outro problema é nos ônibus, que às vezes arrancam de forma brusca ou param distante da parada. Também é preciso orientação no uso de patinetes, que as pessoas estão tomando conta de calçadas sem respeitar ninguém — relata.

O Centro Histórico, a Cidade Baixa e as grandes avenidas de tráfego intenso, como Ipiranga, Protásio Alves e Bento Gonçalves, concentram os maiores obstáculos: calçadas problemáticas, travessias longas e ausência de pontos de descanso.

Contrapontos

O que diz a Prefeitura

Sobre os apontamentos feitos na reportagem, a prefeitura de Porto Alegre enviou a seguinte nota:

Mobilidade e segurança viária

A Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) mantém ações permanentes de educação para o trânsito por meio da Escola Pública de Mobilidade, incluindo o programa Pedestre Idoso, voltado à segurança da população idosa nas travessias.

Porto Alegre adota tempo ampliado para travessia de pedestres nas sinaleiras. Enquanto o padrão nacional considera velocidade de 1,2 metro por segundo, a Capital utiliza 1 metro por segundo, beneficiando idosos e pessoas com mobilidade reduzida.

A EPTC também promove campanhas educativas sobre o uso seguro de patinetes elétricos. Os equipamentos podem circular em ciclovias, ciclofaixas e áreas de pedestres, sempre com prioridade ao pedestre e limites de velocidade de até 20 km/h nas estruturas cicloviárias, 6 km/h em áreas de pedestres e 10 km/h na Orla do Guaíba.

Transporte coletivo e infraestrutura

A fiscalização do transporte coletivo ocorre de forma contínua nos terminais e itinerários. Reclamações e solicitações podem ser registradas pelos telefones 156 e 118.

Pelo Programa Mais Transporte, mais de mil novos abrigos de ônibus foram instalados desde 2023, com acessibilidade, piso tátil, iluminação, portas USB e QR Codes com informações em tempo real sobre os ônibus.

A Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana também defende a participação dos governos federal e estadual no custeio do transporte público. Atualmente, a gratuidade para pessoas com 65 anos ou mais gera impacto anual de R$ 150 milhões ao município. Com aporte federal parcial, a tarifa poderia cair para R$ 4,05.

Calçadas

A Diretoria-Geral de Fiscalização intensificou a fiscalização de calçadas e reforça a responsabilidade dos proprietários pela manutenção desses espaços. Entre janeiro e abril de 2026, foram realizadas 621 fiscalizações, com 168 notificações e 47 autos de infração.

As principais irregularidades envolvem calçadas danificadas, desníveis, obstruções e ausência de rampas de acessibilidade. A prefeitura disponibiliza cartilha com orientações técnicas, e denúncias podem ser feitas pelo 156 ou aplicativo 156+POA.

A Secretaria Municipal de Serviços Urbanos é responsável pela manutenção de passeios públicos, rampas, escadarias, calçadões e pontos de ônibus sob responsabilidade do município. Os serviços podem ser solicitados pelo 156.

Banheiros públicos

A Secretaria Municipal de Parcerias estrutura uma PPP para reforma, manutenção e construção de novos banheiros públicos na Capital. O edital de licitação deve ser lançado até o fim deste ano, com manutenção do acesso gratuito à população.

Brigada Militar

Sobre a insegurança no Centro Histórico citada por uma das fontes, a Brigada Militar enviou este posicionamento:

A Brigada Militar, por meio do 9º Batalhão de Polícia Militar, mantém atuação permanente na região central de Porto Alegre, com policiamento ostensivo realizado diuturnamente a pé, com motocicletas e viaturas, além de ações específicas em horários e locais com maior circulação de pessoas.

Embora a percepção de segurança seja um aspecto subjetivo e individual, os indicadores oficiais da Secretaria da Segurança Pública demonstram resultados concretos da atuação policial. Conforme dados do programa GESEG, os roubos a pedestres no bairro Centro Histórico apresentaram redução de 24,2% em abril de 2026, passando de 95 ocorrências em abril de 2025 para 72 no mesmo período deste ano. 

Considerando os dados parciais de maio, até o dia 18, a redução foi ainda mais expressiva, de 53,5%, com queda de 56 para 26 ocorrências em comparação com o mesmo período do ano anterior.

Esses resultados refletem o empenho diário dos policiais militares do 9º BPM, que seguem atuando de forma constante para proporcionar mais segurança e tranquilidade à população de Porto Alegre.


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