PIQUETCHÊ DO DG
Fátima Gimenez é a patrona da Capital
Cantora porto-alegrense relembra trajetória na música gaúcha e fala sobre renovação da cultura tradicionalista


A emoção atravessa a voz de Fátima Gimenez ao falar sobre ter sido escolhida como patrona dos Festejos Farroupilhas de Porto Alegre 2026. O anúncio foi oficializado no dia 14 de maio. Com quase cinco décadas dedicadas à música nativista, a cantora e compositora diz receber o convite como uma grande honra e também como responsabilidade.
– Fiquei muito emocionada, porque sem dúvida é uma grande honra essa homenagem. E uma responsabilidade também, de levar a cultura gaúcha adiante e representar a mulher – afirma.
Porto-alegrense, Fátima começou cedo na música. Aos nove anos, seu talento foi descoberto pelo pai enquanto ela cantava em casa as músicas que ouvia no rádio. Ao longo da carreira, levou a música gaúcha para outros países, como Argentina, Paraguai, Portugal e Espanha. Para ela, o reconhecimento como patrona chega em um momento simbólico.
– No ano que vem, vou completar 50 anos dedicados à música gaúcha. Temos uma cultura riquíssima e um povo hospitaleiro, então pra mim é um motivo de orgulho – conta.
Tradição
A cantora integrou o grupo acústico-vocal Tempero antes de seguir carreira solo, e foi uma das poucas mulheres atuantes no movimento nativista durante as décadas de 1970 e 1980.
– Sempre houve maior participação masculina dentro do movimento. Nós éramos três ou quatro mulheres atuando com frequência. Hoje temos meninas cantoras, compositoras e grandes musicistas – destaca.
Um dos momentos mais marcantes da trajetória aconteceu em 1989, quando decidiu gravar o Hino Rio-Grandense em seu primeiro disco solo. Na época, interpretações cantadas eram proibidas fora de execuções marciais e oficiais.
– Sonhei que cantava o hino para milhares de pessoas. Incluí o hino no disco, coloquei a gaita no arranjo pela primeira vez e quis interpretar sem aquela marcialidade – relata.
A decisão quase levou ao embargo do álbum. Dias depois da gravação, Fátima recebeu uma intimação. A liberação veio após a defesa do tradicionalista e advogado Antonio Augusto Fagundes (Nico Fagundes).
– Foi um divisor de águas. Hoje eu me emociono quando vejo crianças cantando o hino. Os símbolos pertencem ao povo – afirma.
Frequentadora do Acampamento Farroupilha há mais de 25 anos, a cantora acredita que a tradição precisa acompanhar as transformações do tempo sem perder a conexão com as origens.
– A continuidade está nos jovens. A tradição é espontânea, vai passando de geração em geração – diz.
História
Fátima Gimenez também lançou, no ano passado, o livro Uma mulher chamada Cabo Toco junto com Nilo Bairros de Brum, sobre Olmira Leal de Oliveira, a Cabo Toco, considerada a primeira mulher soldado da Brigada Militar.
A obra revisita a trajetória dela, que ganhou reconhecimento após Fátima interpretar a música Cabo Toco na quinta Vigília do Canto Gaúcho, em Cachoeira do Sul, em 1987.
Segundo a cantora, o livro busca reunir relatos reais sobre Olmira e combater versões distorcidas que passaram a circular ao longo dos anos:
– Nós resolvemos contar como tudo aconteceu porque ouvimos a própria voz da dona Olmira.
Acampamento Farroupilha
/// O evento ocorre no Parque Maurício Sirotsky Sobrinho, em Porto Alegre, e tem como tema central “Herança Jesuítica e Guarani no Rio Grande do Sul: 400 anos de cultura e tradição”.
/// O acampamento será entre 29 de agosto e 20 de setembro.
/// A programação terá mais de 120 atrações culturais, incluindo 80 shows musicais e um espetáculo teatral alusivo aos 400 anos das Missões.
/// Outra atividade confirmada é a Ciranda Escolar, que reunirá estudantes das redes municipal e estadual e prestará homenagem ao centenário de Dimas Costa, compositor do Parabéns Gaúcho.
/// As inscrições para os piquetes interessados em participar do acampamento começam hoje e seguem até sexta-feira. O credenciamento deve ser feito presencialmente no Centro Municipal de Cultura, no bairro Menino Deus, mediante entrega da documentação exigida.
*Com orientação e supervisão de Caroline Tidra