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Patrimônio histórico

Há 20 anos sem manutenção, prédio da antiga Confeitaria Rocco agoniza; partes da fachada podem desabar

Prefeitura declara ter obtido financiamento internacional para restaurar o imóvel e promete edital para início das obras no segundo semestre

06/05/2026 - 10h00min


André Malinoski
André Malinoski
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Prestes a completar 20 anos desde sua última manutenção, o prédio onde funcionou a antiga Confeitaria Rocco agoniza no Centro Histórico de Porto Alegre.

Localizado na esquina das ruas Doutor Flores e Riachuelo, o imóvel centenário foi tombado em 1997, mas, sem uso regular desde a virada do século e alvo de longos imbróglios judiciais, passou a sofrer com infiltrações, ferrugem e mofo. Também está sem partes da estrutura do forro e telhas, além de exibir janelas e portas superiores abertas, à mercê da chuva.

Recentemente, a novela envolvendo o prédio da Rocco teve dois novos capítulos (leia, abaixo, a cronologia completa). Conforme o secretário Cezar Schirmer, da Secretaria de Planejamento e Assuntos Estratégicos de Porto Alegre, a Rocco está entre os oito prédios contemplados pelo programa POA Futura, que prevê, em meio a mais de 300 obras, a restauração de patrimônios históricos da Capital com recursos do Banco Mundial. São eles:

As obras contempladas:

  • Confeitaria Rocco
  • Casa Godoy (na Avenida Independência, próxima à Rua Barros Cassal)
  • Casa dos Leões (na Rua dos Andradas, próxima ao Cais Mauá)
  • Chaminé da Usina do Gasômetro
  • Edifício José Montaury (onde funcionou a prefeitura, na Rua Siqueira Campos)
  • Escadaria da Dom Sebastião (entre o Palácio Piratini e a Catedral Metropolitana)
  • Escadaria da Rua General João Manoel
  • Prédio do Museu de Arte do Paço Municipal

— A Casa Godoy, a Casa dos Leões e a Confeitaria Rocco serão restauradas e ocupadas. No segundo semestre, vamos iniciar o processo de licitação dessas obras — declara Schirmer.

Concomitantemente às obras, segundo a prefeitura, a Secretaria Municipal de Parcerias e a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) projetam uma posterior concessão do espaço à iniciativa privada por meio de uma parceria público-privada (leia nota, abaixo).

No final do mês passado, a Vara Regional do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça do RS determinou que a prefeitura de Porto Alegre atualize informações sobre a restauração do imóvel.

Embora esse cenário pareça distante, se os planos da atual administração municipal se concretizarem, o prédio abrigará no futuro operações gastronômicas, culturais ou outras atividades ligadas à economia criativa.

Abandono e riscos

Integrante do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-RS) e experiente em restauração de prédios históricos, Lucas Volpatto teve acesso ao interior do prédio em 2019 para a elaboração de um orçamento de restauração. Já naquele ano, foram detectados problemas de entrepisos, ferrugem e infiltrações.

No caso da Rocco, ela está no alinhamento da calçada, por onde as pessoas passam. Quando há um pedestre ali, ele está sujeito ao risco de queda de um pedaço da fachada

LUCAS VOLPATTO

arquiteto do IAB-RS

Pedaços de diferentes pontos da fachada já desabaram, como é possível observar ao se aproximar das paredes e olhar para o alto. O imóvel está coberto por pichações, apresenta cantos com vegetação e cartazes colados. Em 2025, a prefeitura optou por retirar os tapumes em torno do prédio, que vinha sendo invadido, e soldar as portas.

Os últimos eventos

Em outubro, completam-se 20 anos desde a última vez em que o prédio passou por reforma, ainda que para uso temporário. Para abrigar a mostra Casa Cor RS de 2006, a fachada e o interior do imóvel foram submetidos a uma obra de três meses para retirada de entulhos e adequação do espaço. Todos os pavimentos passaram por revitalização.

Durante o processo, 10 caçambas de lixo foram retiradas. Vinte e oito ambientes decorados, além de dois espaços institucionais, ocuparam os andares da edificação entre outubro e novembro. No ano seguinte, o prédio ainda recebeu debates e oficinas do 14º Porto Alegre Em Cena, antes de fechar de vez.

Ações na Justiça

Em 2016, uma ação civil pública ajuizada pelo Ministério Público do Estado condenou todos os proprietários e a prefeitura, de forma solidária, a restaurar a edificação inaugurada oficialmente em 1913. De forma solidária significa que, caso os donos não realizassem a recuperação do imóvel, o trabalho deveria ser feito pela prefeitura — o que, até agora, não aconteceu.

Segundo o procurador-chefe André Marino Alves, da Procuradoria de Urbanismo e Meio Ambiente da Procuradoria-Geral do Município (PGM), duas ações ainda tramitam na Justiça: a de 2016, que está em fase de cumprimento de sentença, e outra ajuizada pelo município para desapropriação do bem e sua incorporação ao patrimônio da prefeitura. No entanto, a posse do imóvel já pertence ao município.

Ainda conforme a PGM, em 2023 a prefeitura ajuizou um depósito de R$ 4 milhões aos proprietários do imóvel, valor correspondente à avaliação do bem descontados os impostos municipais em atraso — cerca de R$ 432 mil. O montante, contudo, segue sub judice e não pode ser sacado em razão de outras dívidas dos proprietários.

História emblemática

O prédio em frente à Praça Conde de Porto Alegre leva o nome do italiano Nicolau Rocco, confeiteiro que passou por Buenos Aires antes de se fixar na Capital por volta de 1895. Primeiro, o imigrante abriu na cidade a Confeitaria Sul-Americana. O projeto da Rocco foi concebido pelo italiano Salvador Lambertini e concluído por Manoel Itaqui Barbosa Assumpção.

A fachada exibe obras do escultor Giuseppe Gaudenzi e, no alto, de Frederico Pellarin. Nas vistosas fachadas das duas vias, destacam-se seis leões de boca aberta e seis atlantes (figuras antropomorfas em forma de coluna), sendo três jovens e outros três idosos, representando o Novo e o Velho Mundo.

A edificação de três pavimentos com terraço, mais um andar subterrâneo, apresenta toques neoclássicos e de art nouveau, sendo um dos símbolos arquitetônicos da Porto Alegre antiga. A área total do imóvel é de 1.560 metros quadrados, distribuídos nesses andares. Antes da Rocco, funcionava no mesmo local a Padaria e Confeitaria Laurindo.

Os quitutes da Rocco eram fabricados no porão, onde havia dois grandes fornos, um a carvão e outro a lenha. No térreo ficava a confeitaria. Nos andares superiores eram realizados bailes de Carnaval, banquetes, casamentos e batizados. No pavimento mais alto, ficavam a copa e outras dependências. O terraço aberto era utilizado como depósito, mas também permitia aos visitantes admirar a paisagem. Em 1913, ano da festa de inauguração, 42 operários trabalhavam na Rocco.

Em 1918, durante a gripe espanhola e já com a Confeitaria Rocco em atividade, o italiano colocou seu estabelecimento à disposição das autoridades para socorrer as pessoas carentes, o que sempre foi motivo posterior de orgulho para o imigrante.

No começo do século XX, uma lanterna de luz vermelha foi instalada na confeitaria. Na época, o local era considerado o ponto mais alto da cidade e servia como referência para a população. A luz era acesa das 19h55min às 20h, como uma espécie de relógio informal.

Figuras ilustres frequentavam o estabelecimento, como os ex-presidentes da República Getúlio Vargas e Eurico Gaspar Dutra, além do então “presidente do Estado” (como era chamado à época o governador), Borges de Medeiros. Também passaram pelo local personalidades como o escritor Mário de Andrade e o cronista Rubem Braga, que viveu na cidade em 1939.

A confeitaria foi fechada em definitivo em 1968. Entre outros usos, o prédio já foi pensão, distribuidora de produtos de beleza, imobiliária e cursinho pré-vestibular.

Esses últimos momentos significaram apenas lampejos de saudade dentro da imensa história do prédio que ainda aguarda por um desfecho digno na cidade.

O que diz a Secretaria Municipal de Parcerias (SMP):

"O projeto de parceria público-privada (PPP) para o prédio da antiga Confeitaria Rocco encontra-se em fase de estruturação da modelagem econômico-financeira. A Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), contratada para prestar apoio técnico ao município, realizou um diagnóstico de engenharia da edificação. 

Esse diagnóstico permitirá identificar as necessidades estruturais do imóvel e orientar o projeto de restauração. Também foi desenvolvido um estudo de demanda, com o objetivo de mapear o potencial econômico do edifício e de seu entorno, localizado no Centro Histórico.

A partir dessas definições, serão estabelecidos os valores estimados para o restauro e a operação do prédio, etapa prevista para ocorrer ainda neste semestre. A definição do modelo de concessão, das contrapartidas públicas e das obrigações do futuro concessionário ocorrerá após a conclusão dessas etapas.

A Secretaria Municipal de Parcerias reforça que atua em conjunto com a Secretaria Municipal de Planejamento e Gestão para viabilizar a entrega do prédio restaurado e em funcionamento à população, preservando a vocação gastronômica e cultural do espaço e contribuindo para a retomada de seu potencial urbanístico e econômico."

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