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João Alfredo

Quase 10 anos depois, por que "Rua Completa" segue incompleta em Porto Alegre?

Obra planejada em 2017 tinha objetivo de construir ambiente compartilhado entre frequentadores, melhorar trânsito e fomentar comércio em via da Cidade Baixa

29/05/2026 - 10h34min


Vinicius Coimbra
Vinicius Coimbra
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O projeto de modernização da Rua João Alfredo, no bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre, segue sem prazo de finalização, em um impasse que já dura quase 10 anos. Em 2017, o município elaborou um plano para tornar a via uma "Rua Completa". No entanto, apenas parte do projeto foi executada até agora.

A iniciativa previa a construção de um ambiente compartilhado entre frequentadores, visando melhorar o trânsito e fomentar o comércio na região. Das duas etapas dos trabalhos, apenas uma foi concluída (entenda abaixo).

Nesta quarta-feira (27), Zero Hora esteve no local e observou, em diversos trechos da via, desgaste na pintura feita ainda durante a primeira fase do projeto. Outro problema comum foi a situação das placas: a maioria delas estava pichada ou com adesivos colados. Também foram observados postes e bancos danificados.

Procurada pela reportagem, a prefeitura afirma que a continuidade da obra depende da viabilização de financiamento para a implantação do projeto, estimado em R$ 7 milhões.

"A administração municipal permanece aberta à busca de possíveis fontes de recursos, alternativas de financiamento e também a eventuais interessados em subsidiar ou apoiar a implantação do projeto, de forma a viabilizar sua execução", diz a nota da prefeitura (veja, mais abaixo, a resposta completa).

"Morreu na casca"

Segundo Guilherme Carlin, proprietário do Espaço Cultural 512, os empresários locais esperam a modernização para impulsionar negócios afetados pela pandemia e pela enchente de 2024.

— Ficamos felizes e esperançosos quando foi noticiado o projeto das ruas completas. A qualificação do espaço público faz o bairro ficar mais atrativo para novos negócios e clientes. A falta de investimento prejudica na persistência, de uma expectativa de seguir investindo: até onde vale a pena se nem mesmo a prefeitura tem feito a parte dela? — questiona o empreendedor, que tem o negócio há mais de 20 anos na João Alfredo.

Morador da rua desde criança e empresário há 40 anos, Edson Feldmann, 60, diz que o projeto fez os empreendedores da região investirem em uma promessa não cumprida.

— É um projeto interessante, mas que "morreu na casca". A importância dessa revitalização é crucial para a rua. Os bares estão fechando, o pessoal está indo embora. Fizemos investimentos e empréstimos para receber esse público que viria, mas nada aconteceu. Isso nos deixa sem vontade nenhuma de reinvestir no bairro — afirma Feldmann.

Morador do bairro desde 2024, Andrew Duarte, 33 anos, avalia que o investimento na rua seria uma forma de melhorar a experiência de quem frequenta o bairro.

— Me mudei para cá porque gosto da vida noturna, de estar nesses ambientes, mas tem que ter mais organização para transitar. Não podemos ficar jogados na calçada. Porto Alegre deveria entender a Cidade Baixa como um bairro boêmio que sempre tentou ser, em vez de expulsar as festas e bares — comenta o bancário.

Renan Mattos/Agencia RBS
Moradores e empresários aguardam melhorias na via.

O que previa o plano

Duas etapas da "Rua Completa" foram planejadas: a primeira, chamada de urbanismo tático, foi finalizada em 2019 com o objetivo de melhorar a sinalização viária, com pinturas no asfalto para diminuir o espaço dos veículos e aumentar a circulação de pedestres.

Outro foco era reduzir a velocidade para frear os acidentes no trecho. Foram feitos recuos na pista, sinalizados com tinta verde, e rotatórias ao longo dos 650 metros de extensão da via.

A segunda fase, que não teve início, focava na realização de obras permanentes, com ampliação das calçadas em até três vezes, implementando espaços de lazer com bancos e arborização, os chamados parklets.

Também estavam planejadas a melhoria em paradas de ônibus, iluminação, instalação de bicicletários, zeladoria urbana (lixo, capinação e poda de árvores) e drenagem. Segundo previsão da época, a ideia era que a contratação da empresa responsável pelas obras ocorresse em 2022.

Ao chegar à Secretaria Municipal de Obras e Infraestrutura (Smoi), porém, o projeto parou para ser atualizado antes que fosse lançado um edital. A prefeitura alegou que a proposta anterior não considerava os impactos da obra durante a execução, como dificuldade de acesso ao comércio local e desvio do transporte público.

Os estudos para a segunda fase foram feitos pela Secretaria de Mobilidade Urbana (SMMU), em conjunto com a Smoi, e ficaram prontos no fim de 2023. 

Em 2020, a gestão municipal disse que estariam assegurados R$ 3 milhões de investimento para a obra por meio de um financiamento do Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF), a mesma instituição que financiou a revitalização da orla do Guaíba.

Renan Mattos/Agencia RBS
Ideia principal da obra é dar mais espaço para pedestres e reduzir o trânsito de veículos.

O que diz a prefeitura:

"A Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana (SMMU) informa que o projeto executivo da rua João Alfredo, no conceito de Ruas Completas, está pronto e é o mesmo já apresentado anteriormente, sem alterações previstas até o momento.

O custo inicialmente estimado para implantação do projeto era de aproximadamente R$ 7 milhões. A administração municipal permanece aberta à busca de possíveis fontes de recursos, alternativas de financiamento e também a eventuais interessados em subsidiar ou apoiar a implantação do projeto, de forma a viabilizar sua execução.

A prefeitura não possui prazo definido para a execução da obra. Após a enchente de 2024, a prioridade da administração municipal passou a ser a captação de recursos e financiamentos destinados às obras de drenagem urbana, contenção de cheias e recuperação da infraestrutura da cidade.

O projeto prevê soluções de desenho urbano voltadas à qualificação do espaço público, com foco em oferecer uma experiência mais segura, acessível e democrática para todos os usuários da via, incluindo pedestres, ciclistas, transporte público e veículos. A proposta contempla a reorganização equilibrada do espaço viário, priorizando segurança viária, mobilidade e convivência urbana."

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