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Impactos da inundação

"Recuperamos muita coisa, mas ainda há o que fazer": dois anos após enchente, moradores lutam para se reerguer em Porto Alegre

Trabalho de reconstrução prossegue em casas e empresas de bairros como Centro, Menino Deus, 4º Distrito e Sarandi

04/05/2026 - 10h51min


Marcelo Gonzatto
Marcelo Gonzatto
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Em 3 de maio de 2024, Porto Alegre afundou diante do avanço lento e imparável do Guaíba. Dois anos depois de enfrentar sua pior enchente, que elevou o Guaíba ao nível inédito de 5m37cm nas imediações do Cais Mauá, grande parte da população de algumas das áreas mais atingidas ainda trabalha para recuperar em definitivo suas casas e os pequenos negócios tomados pela água lamacenta, repor perdas ou pagar dívidas.

No Sarandi — bairro mais castigado da Capital — foram impactadas 26 mil pessoas e 8,1 mil edificações. Casas limpas e reocupadas dominam o cenário hoje, mas ainda dividem espaço com imóveis vazios, abandonados ou à espera de melhorias. Quem conseguiu se recompor, ainda que parcialmente, em muitos casos agradece ao apoio de parentes, amigos e desconhecidos por ter superado o período agudo da crise. Muitos comerciantes elaboraram planos próprios de contingência, que incluem até colocar equipamentos caros sobre rodas para sair em disparada caso outra inundação se insinue.

Ao todo, 160 mil moradores da cidade foram afetados diretamente pelo dilúvio urbano que escorreu pelos bueiros, por entre o Muro da Mauá, sobre os diques da Zona Norte e pelo flanco desprotegido da Zona Sul.

Veja, a seguir, algumas das histórias de quem sofreu os transtornos da pior tragédia já vista na Capital e como está o processo de recuperação de moradias e negócios de pequeno porte 730 dias após a catástrofe de maio de 2024.

Mateus Bruxel/Agencia RBS
Empresas do 4º Distrito exibem inscrição relativa à tragédia.

Sarandi tem casas em reforma e imóveis abandonados

Um trecho de menos de 50 metros da Avenida Alcides Maia sintetiza o cenário atual no bairro Sarandi, zona norte de Porto Alegre, após ter submergido durante a pior cheia já vista em Porto Alegre. A poucos passos, se encontram uma casa em reforma, outra ainda à espera de melhorias e um imóvel abandonado cujas aberturas os vizinhos decidiram concretar para evitar que continuasse sendo utilizado como depósito irregular de lixo.

— Chegava a sair um cheiro ruim lá de dentro. Os antigos donos foram embora, e a casa ficou desprotegida. Levaram portas, janelas, tudo. Então a vizinhança resolveu fechar com tijolo e cimento para evitar que isso continuasse acontecendo — explica o empresário Sílvio Leandro Engel, 60 anos, proprietário de uma confecção especializada em fabricar uniformes.

Renan Mattos/Agencia RBS
Gislaine e Sílvio elaboraram um plano de contingência para proteger equipamentos.

Na tarde de quinta-feira (30), Engel entrou no galpão onde funciona a fábrica com quatro rodinhas cor de laranja em mãos. A ideia era instalar as peças sob um compressor que foi danificado pela umidade e cujo conserto custou R$ 6 mil. Agora, todo o maquinário da confecção está sobre rodas.

A medida faz parte de um plano de contingência elaborado por Sílvio e sua esposa, Gislaine Souza, 53, em caso de outra catástrofe. Pelas contas da dupla, se a água voltar a subir, conseguem deslizar os equipamentos para dentro de um caminhão e enviá-los para um local seguro em menos de uma hora e meia.

— Tivemos um prejuízo de R$ 300 mil a R$ 400 mil. A casa de madeira onde funcionava a fábrica veio abaixo. Conseguimos construir um galpão novo (de alvenaria), ainda melhor. Mas falta expandir a estrutura para dar conta de todo o equipamento e construir uma nova casa para meu pai no andar de cima — conta o empresário, em referência a Pedro Engel, 88 anos.

Renan Mattos/Agencia RBS
Casa de Wilson Júnior ainda exibe marcas da água na parede.

No outro lado da rua, duas casas contíguas ilustram o contraste do bairro entre as reformas em andamento e os imóveis ainda à espera de recuperação. À direita, uma moradia recebe a primeira pintura desde que a água recuou. À esquerda, o motoboy Wilson Júnior, 33 anos, segue vivendo de forma improvisada na mesma moradia de dois pisos de onde foi resgatado no começo de maio de 2024.

— A água chegou até o teto do primeiro andar. Saí de barco do segundo piso, com três cachorros e duas amigas — relembra o motoboy.

A residência foi limpa, mas, até hoje, faltaram recursos para uma recuperação completa. Júnior improvisou uma mesa com um retângulo de vidro sobre cavaletes, e sua geladeira é um freezer de uso comercial que traz a marca de um refrigerante.

— A gente conseguiu limpar e improvisar algumas coisas. A ideia agora é começar a reformar, se organizar para pintar, deixar em condições, montar tudo de novo. A maior dificuldade é ter recurso. Os materiais e a mão de obra não estão muito em condições (de preço baixo) — complementa Júnior.

Renan Mattos/Agencia RBS
Moradia abandonada no bairro Sarandi.

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Marcas lembram tragédia no 4º Distrito

Quem circula pelas ruas do 4º Distrito — outra das zonas mais afetadas — por vezes depara com inscrições que relembram o pior momento já experimentado por moradores e empresários locais. O texto, exposto em fachadas, diz "Enchente — Maio 2024" e traz riscos curvos que lembram as ondulações do Guaíba.

Uma dessas marcações, que busca transformar trauma em demonstração de resiliência, decora a porta de vidro da mecânica do empresário Vagner Vaqueiro Dias, 47 anos, dedicada à customização de automóveis.

— Nós tínhamos a customização e uma mecânica aqui ao lado, que a minha esposa cuida. Quando a água subiu, foram perdidos 18 carros nas duas empresas. Nós ficamos 72 dias sem poder trabalhar, e nossa casa também foi inundada. Ainda perdemos o nosso próprio carro — recorda Dias.

Mateus Bruxel/Agencia RBS
Vagner Dias guarda placa em referência à grande cheia.

O prejuízo com maquinário, peças e insumos chegou a cerca de R$ 400 mil. Ainda assim, o empresário conseguiu reabrir as portas e está quitando as dívidas remanescentes.

— Já conseguimos resolver cerca de 70%. Ainda estamos trabalhando para solucionar o restante. Transferimos a mecânica para outro ponto próximo, mas a customização está funcionando apenas em parte do espaço. Ainda não consegui ajeitar toda a parte de trás.

O empresário revela que contou com a solidariedade de muitos clientes para se reerguer:

— Recebi muita procura de clientes querendo antecipar valores para ajudar, para fazer o serviço depois. Recebi produtos de outros Estados, de parceiros que trabalham com isso também, lá de São Paulo, principalmente. Mandaram máquinas, cola, couro, muita coisa.

Para reduzir riscos em caso de um novo imprevisto, Dias evita deixar muitos carros no interior do estabelecimento, e já identificou uma área segura para onde pode levar os veículos rapidamente em caso de previsão de enchente.

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Recuperação no Mercado Público da Capital

Mateus Bruxel/Agencia RBS
Groffe Jr. conseguiu recuperar clientela graças a financiamento.

— Posso chorar?

Essa é a resposta do sócio-proprietário do Rancho Nativo, Lair José Groffe Júnior, 52 anos, quando perguntado se daria uma entrevista sobre a aluvião que tomou sua banca no Mercado Público — um dos principais marcos do Centro Histórico submersos durante a tragédia. Mas o choro do comerciante de erva-mate, cuias e produtos gauchescos, que se confirmaria poucos minutos depois, não é um pranto de desespero.

Apesar de imensas dificuldades, conseguiu reabrir as portas, recuperar a clientela e vai quitando aos poucos as dívidas deixadas pela elevação do Guaíba. Júnior, como é conhecido, se emociona ao lembrar da ajuda que recebeu até de desconhecidos ainda no pior momento da tragédia.

— Quando a gente reabriu, em julho (de 2024), muitas pessoas queriam ajudar. Muitas até compraram antecipadamente, pagando na hora para retirar depois. Outras diziam que não precisava dar desconto... Teve gente do Brasil inteiro que ajudou. Então a tragédia acabou servindo para erguer ainda mais a nossa loja. Conseguimos recuperar o movimento de antes e passamos a vender online também — conta, enxugando as lágrimas, o comerciante.

Calcula ter investido cerca de R$ 100 mil para reestruturar o ponto. Para dar conta da despesa, obteve um financiamento via Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe).

— Felizmente, consegui, mas teve muita gente que não conseguiu (o financiamento) — complementa o empresário.

O Mercado ficou fechado por 41 dias e reabriu parcialmente em 14 de junho de 2024. A prefeitura destinou inicialmente R$ 2 milhões para a recuperação emergencial do prédio e isentou temporariamente os lojistas do pagamento das permissões (espécie de aluguel dos espaços). Segundo o município, nenhum dos cerca de cem permissionários precisou fechar as portas em razão da cheia, que elevou o nível da água a 1m50cm no interior do prédio — conforme registra uma placa afixada na entrada defronte ao Largo Glênio Peres.

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Portas serradas em casa do Menino Deus

Mateus Bruxel/Agencia RBS
Taís recuperou a casa, mas ainda precisa trocar os armários.

Quem entra na casa da aposentada Taís Terra, 60 anos, estranha alguns detalhes no interior da moradia localizada na Rua Grão-Pará, bairro Menino Deus. As portas do banheiro e dos armários não chegam até o piso. Acabam antes, de forma abrupta, deixando exposto um tanto do que há no outro lado de cada tábua.

As partes inferiores dos retângulos de madeira tiveram de ser serradas devido aos estragos causados pela água ao longo de 10 dias em que a enchente de 2024 tomou a região — a linha de corte, pouco abaixo do nível do joelho, até hoje é um indicativo preciso da altura a que o Guaíba subiu dentro do imóvel.

— A água e a umidade acabaram inchando a madeira, e tivemos de cortar as portas. Recuperamos muita coisa, mas ainda há o que fazer, como trocar a porta do banheiro e comprar novos armários para os quartos — afirma Taís.

Ao longo do último par de anos, ela e o marido conseguiram refazer a cozinha, trocar a cama, comprar uma nova mesa, uma cristaleira e um armarinho. Para limpar o piso, foi preciso alugar uma enceradeira industrial. Quando o Guaíba refluiu, deixou para trás uma camada espessa, dura e malcheirosa de barro. Hoje, ainda é possível observar uma leve coloração de tom marrom pouco acima dos rodapés nas paredes. Uma nova pintura interna também vai ficar para mais adiante.

Até hoje, a aposentada recorda com aflição de quando começaram a se avolumar os indícios de que um fenômeno histórico estava a caminho:

— Os bombeiros passavam aqui na frente, dizendo para a gente sair porque a água iria chegar. Eu não acreditava que fosse acontecer, mas aconteceu. Tive de ficar na casa de uma irmã, na praia, com o meu marido e três cachorros.

Taís não acredita que outra inundação vá ocorrer tão cedo, apesar dos prognósticos de El Niño para o final de 2026.

— Acho que foi um fato isolado. De qualquer forma, acho que não dá para viver pensando o tempo todo que vai acontecer de novo — avalia a moradora do Menino Deus, que ainda trabalha para deixar sua casa nas mesmas condições de antes de maio de 2024.

Os números do Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis (Secovi-RS) indicam uma confiança generalizada nas condições do bairro. O preço médio do aluguel subiu 11% entre março de 2025 e o mesmo período de 2026, em um índice quase três vezes superior ao da inflação nesse intervalo. O valor de R$ 36 por metro quadrado, em termos nominais, supera os R$ 33 verificados no final do ano da enchente que marcou a história da metrópole.

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