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Licitação em andamento

Vai dar tempo de proteger Porto Alegre dos efeitos do El Niño? Prefeitura acelera licitação de obras; veja prazos estimados 

Enquanto especialistas ainda monitoram possíves datas de formação e intensidade do fenômeno, gestão corre para concluir trabalhos de prevenção; assunto foi tema do Ta na Mesa, da Federasul, nesta quarta

28/05/2026 - 10h19min


Marcelo Gonzatto
Marcelo Gonzatto
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Sérgio Gonzalez/Federasul
Sartori, Capeluppi, Goelzer e Melo durante reunião-almoço na Federasul, nesta quarta-feira (27).

Uma das principais obras planejadas para aumentar o nível de proteção de Porto Alegre contra enchentes deverá ser licitada nos próximos dias. O projeto que prevê a construção de um novo dique de cem metros próximo à freeway foi finalizado e está sob revisão e detalhamento de custos por parte de técnicos da prefeitura.

A expectativa do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) é de que o contrato seja assinado até o final de junho, e de que as obras durem entre dois meses e dois meses e meio a um custo de pouco mais de R$ 30 milhões. Em evento realizado nesta quarta-feira (27), na sede da Federação de Entidades Empresariais do Rio Grande Sul (Federasul), sobre possíveis impactos do El Niño, o prefeito Sebastião Melo garantiu que as intervenções serão feitas em ritmo "chinês" — com trabalho inclusive à noite:

— Essa licitação está saindo nos próximos dias, de forma emergencial, e vai ser uma obra chinesa, dia e noite, com refletores enormes — disse o prefeito.

A pressa se justifica pela perspectiva de formação iminente do El Niño. O aquecimento anômalo da água no Pacífico Central eleva a umidade no sul do Brasil e, em consequência, o risco de temporais, enchentes e deslizamentos de terra. Projeções da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA) dos Estados Unidos indicam 82% de chance do fenômeno se confirmar até julho, e 96% até o final do ano. Ainda é difícil, porém, prever quando o aquecimento do Pacífico vai provocar as alterações atmosféricas que aumentam a chuva no Estado e qual será a dimensão desse acréscimo. O impacto também depende de fatores de curto prazo difíceis de antever, como eventuais bloqueios atmosféricos que mantenham o mau tempo sobre uma mesma área por vários dias (o que ocorreu em 2024).

Se a prefeitura cumprir os prazos anunciados nesta quarta, aumentam as chances de a Zona Norte estar mais protegida caso se confirme o excesso de chuva. A NOAA estima que o El Niño deve ganhar força depois da primavera, chegando a uma probabilidade de 37% de que o evento seja "muito forte" no final do ano. Porém, as projeções ainda carregam um significativo grau de incerteza e será preciso monitorar a evolução do fenômeno ao longo das próximas semanas para definições mais precisas.

Melo fala em cidade "muito mais preparada" 

Para discutir medidas preventivas e possíveis impactos do mau tempo, Melo, o presidente da corretora Brasoja, Antonio Sartori, e o secretário da Reconstrução Gaúcha, Pedro Capeluppi, participaram da tradicional reunião-almoço Tá na Mesa com mediação do presidente em exercício da Federasul, Rafael Goelzer. Sob o tema "El Niño: o agro, as cidades e os governos", o prefeito da Capital voltou a garantir que Porto Alegre está "muito mais preparada" hoje do que durante a enchente devastadora de maio de 2024.

Parte das obras destinadas a aumentar a segurança da Capital, porém, segue em andamento — como a correção das últimas três das 14 comportas, melhorias nas casas de bombas e nos diques externos. Uma das intervenções consideradas prioritárias para evitar enchentes na Zona Norte, em uma região que inclui o Aeroporto Internacional Salgado Filho, é a implantação de um novo dique de cem metros, o fechamento das galerias do Arroio Areia a fim de evitar o refluxo da água em períodos de chuva e a instalação de bombas submersíveis que retirem a água acumulada nos chamados pôlderes (termo usado para designar uma área protegida) 7 e 8 (veja detalhes no infográfico).

Conforme o diretor-presidente do Dmae, Vicente Perrone, a expectativa é de que o serviço esteja pronto até o final de agosto. Durante seu discurso, Melo chegou a fazer uma súplica a diretores de empreiteiras para evitarem disputas (a exemplo de ações judiciais) que possam atrasar o processo burocrático de contratação:

Vou fazer um apelo aos empreiteiros do Brasil, do Rio Grande do Sul e da cidade que vocês amam.... Briguem por qualquer obra, menos essa. Deixem a prefeitura escolher os melhores, que tenham capacidade financeira e técnica para fazer, porque a gente não pode brincar com fogo ou com o El Niño.

SEBASTIÃO MELO

Prefeito de Porto Alegre

No total, os projetos de proteção executados ou previstos para o município somam cerca de R$ 2,3 bilhões. Cerca de R$ 300 milhões, ainda a serem captados, são necessários para a Zona Sul — hoje sem estruturas de proteção. Como não há tempo de realizar as obras necessárias ainda este ano, eventuais cheias impulsionadas pelo El Niño deverão ser contidas nessa região por meio do uso de bags (sacos impermeáveis que formam barreiras ao serem empilhados) e de bombas de sucção.

Governo do RS destaca avanços na Defesa Civil

O secretário da Reconstrução Gaúcha, Pedro Capeluppi, destacou o fortalecimento da Defesa Civil, investimentos em tecnologia de monitoramento climático, a criação de planos de contingência municipais e a construção de estruturas mais resilientes como pontos em que o Rio Grande do Sul avançou ao longo dos últimos anos com o objetivo de fazer frente a eventuais novas enchentes:

— Muitas ações de curto prazo não são de infraestrutura. Cito aqui a transformação feita na Defesa Civil estadual e dos municípios ao longo dos últimos dois anos. Não só a capacidade de integração, mas de ação também.

A nossa Defesa Civil do Estado quadruplicou de tamanho. Temos hoje um volume, uma quantidade de equipamentos que não tínhamos em 2024.

PEDRO CAPELUPPI

Secretário da Reconstrução Gaúcha

Capeluppi observou ainda que todas as 497 cidades gaúchas têm, hoje, planos de contingência atualizados. São planos de ação destinados a mitigar os impactos de eventuais problemas como cheias ou deslizamentos.

Preocupação do agro

Apesar dos investimentos em prevenção, o presidente da Brasoja, Antonio Sartori, afirmou que o setor agropecuário gaúcho segue vulnerável a um eventual desastre climático:

— Não discuto o que colocaram o secretário e o prefeito, estamos melhores do que em 2024, mas as coisas estão mudando muito rápido, e os parâmetros de referência do passado hoje não valem mais.

Estou muito preocupado. Espero que não seja tão grave como muitos estão projetando (...). Se vier um evento muito forte, não estamos preparados.

ANTONIO SARTORI

Presidente da Brasoja

Sartori avaliou que faltam políticas públicas de apoio ao setor, o que dificulta a adoção de planos de prevenção no campo.

— Será cada um por si — declarou.

O presidente da Brasoja disse ainda que a região mais suscetível a problemas é a Metade Sul — que já vem sofrendo por conta de fatores como o baixo preço do arroz e quebras de safra. Ele citou ainda uma provável redução na área plantada de trigo (cultura vulnerável ao excesso de umidade) por conta da expectativa de mais chuvas neste ano. 

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