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Companheiros de vida

"Acaba sendo um luto não reconhecido": encontro em Porto Alegre promove apoio e reflexão sobre a perda dos pets

Realizado pelo Death Café em parceria com veterinárias paliativistas, evento reuniu mais de 30 pessoas na tarde deste sábado

01/06/2026 - 10h15min


Carlos Redel
Carlos Redel
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A tarde deste sábado (30) teve lágrimas de saudades, mas também escuta, apoio e afeto. Promovido pelo Death Café, um evento realizado na cafeteria Fermata 29, no bairro Farroupilha, em Porto Alegre, colocou em pauta um luto que, segundo os participantes, muitas vezes, é diminuído: o da morte dos pets.

No total, 32 pessoas se reuniram para tomar café, comer bolo, mas, principalmente, compartilhar as suas experiências relacionadas a perda dos parceiros — seja cachorro, gato, hamster, periquito, cavalo, porco, peixe ou qualquer outro animal de estimação que, no final das contas, torna-se uma companhia para todas as horas, um membro da família.

Segundo a criadora do Death Café em Porto Alegre, a fisioterapeuta com mestrado em Gerontologia Biomédica e especialização em Saúde Pública, Cristiane Moro, 53 anos, a ideia deste tema inédito surgiu a partir de veterinárias paliativistas que participam de algumas reuniões do projeto itinerante, realizado mensalmente em cafeterias.

— A perda do pet, às vezes, acaba sendo um luto não reconhecido, invisível para a sociedade, mas muito difícil para os responsáveis. E o nosso projeto tem justamente esse compromisso de ser um espaço propício para a gente discutir os processos de finitude, de morte — destaca Cristiane.

Durante uma hora e meia, os participantes falaram sobre as suas histórias e lembranças com seus bichinhos, sentindo-se em um ambiente seguro para abrir o coração e diluir o sofrimento. Alguns puderam falar, inclusive, sobre como a partida do pet, muitas vezes, é mais dolorosa do que a de um parente, tamanha a proximidade.

— Um ambiente desses é terapêutico. É uma forma de diluir o sofrimento e faz a gente refletir, porque a informação nos informa, mas a falta dela nos deforma. E quando a gente não conversa, quando a gente não aborda um tema, mesmo que seja a partida de um companheiro ou o medo de que ele parta, isso nos deforma — conta a gerontóloga Daniela Stein, 58, que tem um "cachorrilho", mistura de cachorro com filho, chamado Lucky, de 11 anos.

A médica veterinária paliativista Cláudia Cantagalo, 42, foi quem propôs a ideia de realizar o encontro com o tema dos pets, uma vez enxerga que as pessoas acabam ficando com vergonha de compartilhar em determinados ambientes o seu luto. E como o Death Café já é um espaço acolhedor, que está caminhando para completar uma década de trocas sobre a morte e a finitude, seria o ambiente perfeito. A tarde ensolarada, com a temperatura morna de 20°C contribuiu ainda mais para ser um encontro satisfatório para todos.

— Os animais são parte da família, muitas vezes eles são filhos. E tem o lado dos veterinários, que muitas vezes que não conseguem expressar esses sentimentos, lidar com as perdas dos seus pacientes. Também queríamos que fosse um espaço para abordar a finitude dos nossos pets e a questão dos cuidados paliativos, que ainda está engatinhando na veterinária, mas que é tão importante para que o animal tenha qualidade de vida e parta sem dor — comenta Cláudia.

Com respeito

O tamanho do amor que se sente é o tamanho da falta que vai fazer. E isso independe se é uma pessoa ou um animal — disse uma das participantes que estava com a palavra.

A dinâmica das conversas do Death Café sempre é abordar a finitude sem tabu — inclusive, em determinado momento do encontro, foi reforçado que não passa de superstição a ideia de que, se falar da morte, vai acabar atraindo. Afinal, a única certeza de todo o ser vivo é que, um dia, o fim vai chegar. Por isso, o projeto enfatiza a importância de compartilhar sonhos, saudades, medos e desejos para que, assim, se possa viver da melhor maneira possível, tirando as ânsias bagagens. Tudo sem julgamento.

Entre as inquietações dos participantes, vários falaram da falta de sensibilidade de pessoas para com a dor de quem perdeu um pet, assim como a dificuldade de se abordar o tema no trabalho. Os presentes trouxeram exemplos de países que já dão licença para os empregados poderem se afastar e cuidar dos bichinhos doentes ou tratar dos rituais fúnebres.

— A gente traz a nossa vivência, a nossa experiência para aprofundar um pouco mais essas temáticas que os participantes vão apresentando, trazendo repertório para as pessoas, ajudando elas a buscarem mais informações e a exercitarem a sua autonomia. É uma construção — detalha a psicóloga Natalia Schopf Frizzo, 36, que tem mestrado em Psicologia e Saúde especialização em Cuidados Paliativos, além de ser uma das responsáveis pelo Death Café.

Não é um encontro para entregar respostas, então é normal que as pessoas saiam com dúvidas — e esta é a chave: colocar os participantes para pensar, refletir sobre e existência, mas conseguindo nomear o que está se sentindo.

A professora Tathi Jaeger, 41, esteve presente no encontro e compartilhou a sua história: há menos de um ano, perdeu a mãe, Elizabeth, em um incêndio, enquanto tentava salvar os seus seis animais — que também morreram na tragédia. Hoje, ela lida com o luto ao lado da cachorrinha Joana, de 12 anos.

— Achei tudo muito bonito, porque não se tem espaço para falar sobre o luto. Eu vivo em um meio acadêmico muito duro, onde não se pode muito falar sobre, seja o luto humano ou o luto animal também. Ao mesmo tempo, a sociedade nos cobra para rapidamente voltarmos às nossas atividades e superarmos o luto. Só que as pessoas não entendem que o luto está sempre ali. Mesmo tu voltando à vida, sorrindo, brincando, estás em luto ainda — enfatiza Tathi.

O próximo Death Café será realizado na última semana de junho. Para saber a data e o horário, basta acompanhar o projeto nas redes sociais. Os encontros são gratuitos — o participante paga apenas o que consumir na cafeteria escolhida — e não é preciso fazer cadastro. Basta chegar e conversar ou, simplesmente, ouvir.

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