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Choque térmico

Ciclones extratropicais estão mais frequentes no RS? Veja o que a ciência diz

Nos últimos anos, fenômenos climáticos passaram a apresentar maior intensidade e potencial de danos no Rio Grande do Sul.

03/06/2026 - 09h31min


Vinicius Coimbra
Vinicius Coimbra
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Jonathan Heckler/Agencia RBS
Ciclones extratropicais causam chuva intensa e vento forte.

Ao contrário do que se poderia imaginar por conta dos estragos causados nos últimos anos, ciclones extratropicais não se tornaram mais frequentes no Rio Grande do Sul. O que aumentou, segundo pesquisadores, é a intensidade deles. Por consequência disso, as mudanças climáticas no planeta tendem a deixá-los mais agressivos no futuro.

A preocupação para especialistas e órgãos públicos em 2026 é a influência que um provável "super" El Niño pode causar no Estado, já que o fenômeno costuma fortalecer ciclones.

Ciclone extratropical é um sistema de baixa pressão atmosférica que se forma fora das regiões tropicais, ou seja, nas médias e altas latitudes do planeta. Ele extrai a "força" do calor dos oceanos e nasce do choque térmico entre massas de ar com temperaturas diferentes.

— O ciclone funciona como um sistema de defesa do planeta para manter o equilíbrio térmico. O RS está posicionado em uma área estratégica para a ocorrência desse fenômeno, pois recebe massas de ar frias e quentes — explica Leydson Dantas, meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).

No oceano e na atmosfera existem temperaturas quentes e frias que fortalecem a termodinâmica propícia para a formação de ciclones

LEYDSON DANTAS

Meteorologista do Inmet

O estudioso contextualiza que o Inmet tem uma rede de monitoramento, com estações próprias e imagens de satélite,  e também recebe dados de outros países sobre as condições do planeta. Com isso, é possível prever a ocorrência do fenômeno e emitir alertas.

Temos um horizonte de previsão de sete dias para saber se vai haver um ciclone no Rio Grande do Sul. No caso da rota, o ideal é atualizar a cada 48 horas para observar se vai se confirmar. A intensidade, por sua vez, deve ser analisada a cada seis ou 12 horas, para ter tempo de um planejamento estratégico dos órgãos locais — explica.

Porém, o Inmet não divulgou informações sobre frequência e quantidade dos ciclones no Estado. A reportagem fez o mesmo pedido para o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), mas não recebeu o levantamento até o fechamento da reportagem.

Monitoramento acadêmico

O comportamento de ciclones, entretanto, é objeto de estudos acadêmicos. Segundo Michelle Simões Reboita, professora de Ciências Atmosféricas da Universidade Federal de Itajubá (Unifei), de Minas Gerais, a costa leste da América do Sul possui três regiões favoráveis à formação de ciclones: sudeste e sul do Brasil – onde se encaixa o Rio Grande do Sul –, Uruguai e sul da Argentina. 

Em cada área, há ocorrência de ao menos quatro por mês. No entanto, os estudos feitos pela pesquisadora com dados de 1980 a 2025 mostram uma estabilidade na quantidade de eventos do tipo, mas com aumento de intensidade.

— Os ciclones extratropicais têm origem próxima da costa e se deslocam para leste ou sudeste atingindo maior intensidade quando mais afastados (em alto-mar). Porém, vários casos de ciclones desde 2023 têm se formado entre o nordeste da Argentina e o oeste do RS. Assim, apresentam intensificação sobre o continente, causando mais danos à sociedade — destaca a pesquisadora, doutora em meteorologia pela Universidade de São Paulo (USP).

Windy/Divulgação
Passagem de ciclone extratropical na região sul do Brasil em junho de 2023 .

Outra preocupação dos especialistas é a de um futuro com o planeta ainda mais aquecido por conta das mudanças climáticas. Nos últimos anos, os principais centros de medição indicam que a Terra tem quebrado recordes de temperatura média atmosférica e oceânica.

— Meus estudos com colaboradores na linha das mudanças climáticas indicam que na região do sul do Brasil e Uruguai há uma tendência de aumento da frequência de ciclones, bem como de sua intensidade, o que se reflete em ventos mais intensos e maiores volumes de precipitação — acrescenta a professora.

Além do longo prazo pessimista, os próximos meses podem ser problemáticos no Estado por conta da possibilidade de um "super" El Niño, caracterizado pelo aquecimento acima da média e persistente do Oceano Pacífico equatorial.

— Se naturalmente há eventos extremos no RS, com o El Niño eles tendem a ser mais frequentes. Os anos de 2023 e 2024 são exemplos disso. Não podemos afirmar que toda vez que o fenômeno ocorrer vai provocar inundações da mesma forma, mas a ciência mostra que o ambiente atmosférico é favorável — sugere Francisco Aquino, climatologista e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Relembre ciclones que causaram estragos no RS nos últimos anos

Junho de 2023

Mateus Bruxel/Agência RBS
Enchente em Caraá, no Litoral Norte, uma das mais afetadas pelo ciclone de junho de 2023.

O ciclone que trouxe vendavais associados a muita chuva entre os dias 16 e 17 deixou ao menos 15 mortos, mais de 2 milhões de pessoas afetadas, 3,2 mil desabrigadas e 4,3 mil desalojadas, além de pontes caídas, cidades devastadas, casas destruídas, rodovias bloqueadas, rastro de lama, sujeira e entulhos.

A tempestade varreu toda a faixa nordeste do Estado, afetando municípios da Região Metropolitana, da Serra, do Vale do Sinos e do Litoral Norte.

Julho de 2023

Lauro Alves/Agencia RBS
Temporais causaram queda de árvores e de energia elétrica, principalmente na zona sul do Estado.

A passagem do fenômeno climático provocou ventos acima de 100 km/h, bloqueou rodovias e deixou milhares de pessoas sem energia elétrica. Ao menos uma morte foi confirmada no município de Rio Grande, na Metade Sul — uma das áreas mais atingidas pelo mau tempo.

Setembro de 2023

Mateus Bruxel/Agencia RBS
Muçum e Roca Sales estiveram entre as cidades mais afetadas pela cheia do Rio Taquari.

Além da chuva intensa, um conjunto de fatores ocasionou a cheia histórica no Vale do Taquari – entre eles, a formação de um ciclone extratropical. A inundação causou ao menos 50 mortes no RS, vários desaparecidos e um rastro de destruição nos municípios da região, especialmente em cidades como Muçum, Roca Sales e Lajeado.

Novembro de 2023

Lucas Abati/Agencia RBS
A cidade de Muçum sofreu com as tempestades de 2023.

Outro evento causado, entre outros fatores, pela formação de um ciclone extratropical, afetou um terço dos municípios gaúchos, deixou cinco mortos, mais de 7 mil desalojados e originou enchente com marca histórica em Porto Alegre.

Outubro de 2024

A formação de um ciclone extratropical entre o Uruguai e a Fronteira Oeste causou chuva e vendavais pelo Estado que afetaram pelo menos 50 municípios. Em alguns pontos, as rajadas de vento ultrapassaram 100 km/h, derrubaram árvores e provocaram falta de energia elétrica.

Maio de 2025

Camila Hermes/Agencia RBS
Chuvarada causou alagamentos em Mostardas, no sul do Estado.

O temporal causado por um ciclone extratropical atingiu cidades de várias regiões do Estado. Alegrete, Agudo, Santa Maria, São Sepé, São Pedro do Sul, Dilermando de Aguiar, Cidreira, Balneário Pinhal, Mostardas e Palmares do Sul estiveram entre os municípios mais afetados. Em Porto Alegre, houve pontos com acúmulo de água e até mesmo a operação do trensurb registrou interrupções.

Julho de 2025

Jonathan Heckler/Agencia RBS
Ciclone extratropical agitou as águas do Guaíba em julho de 2025.

Ao menos 13 municípios das regiões Central, Sul e Litoral reportaram danos por conta do ciclone extratropical que se formou próximo à costa do Estado.

Rajadas de até 102 km/h foram observadas. Mais de 340 mil clientes ficaram sem luz. As cidades mais impactadas foram Porto Alegre e Viamão, na Região Metropolitana, e Capão da Canoa e Osório, no Litoral.

Dezembro de 2025

Neimar De Cesero/Agencia RBS
Em Flores da Cunha, na Serra, o fenômeno levou a prefeitura a decretar situação de emergência.

O mau tempo provocado pela passagem de um ciclone extratropical resultou em prejuízos para diversas regiões do Rio Grande do Sul no começo de dezembro.

Entre os principais transtornos relatados, houve destelhamentos, quedas de árvores e falta de energia elétrica. Cidades mais impactadas, como Camaquã, na Região Sul, e Flores da Cunha, na Serra, chegaram a decretar situação de emergência.

Maio de 2026

Defesa Civil de Rosário do Sul/Divulgação
Pluviômetro da prefeitura de Rosário do Sul mediu 354 milímetros em menos de oito horas de chuva na cidade.

Em pelo menos duas oportunidades – entre os dias 1 e 2 e 8 e 9 do mês –, o Rio Grande do Sul teve temporais causados por ventos fortes e chuva intensa que causaram estragos na maioria das regiões. Em ambos os casos, a formação de um ciclone extratropical foi apontada como um dos fatores para as tempestades.

E a enchente de 2024?

Duda Fortes/Agencia RBS
Em Porto Alegre, onde quatro mortes foram registradas, o nível do Guaíba aumentou 4m04cm em seis dias.

A chuva que causou as enchentes do final de abril e do início de maio de 2024 em diversos pontos do Rio Grande do Sul e deixou mais de 140 mortes foi agravada por um bloqueio atmosférico, que manteve a nebulosidade por muitos dias nas regiões gaúchas.

O evento é diferente da passagem de um ciclone extratropical. Em comum entre os dois fenômenos estão suas características de ocorrências extremas e atípicas.

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