Notícias



Alerta global

Com caso suspeito em investigação no RS, o que se sabe sobre o surto de ebola no mundo e os riscos para o Brasil

Homem de 64 anos que retornou de Uganda testou positivo para malária, mas material foi enviado à Fiocruz para descartar o vírus

12/06/2026 - 10h25min


Isadora Garcia
Isadora Garcia
Enviar E-mail

O Rio Grande do Sul investiga um caso suspeito de ebola. Um homem de 64 anos, que recém retornou de Uganda — país africano que enfrenta um surto da doença — testou positivo para malária. Material coletado será analisado pela Fiocruz, enquanto pessoas próximas passarão por acompanhamento durante 30 dias.

No Estado de São Paulo é investigado o caso de uma mulher de 31 anos com histórico de viagem à República Democrática do Congo. Até o momento, não há confirmação laboratorial da doença. Ela permanece em leito de isolamento, com quadro estável.

Apesar do avanço nas investigações, o Centro de Vigilância Epidemiológica classifica o risco de um surto de ebola no Brasil ou na América do Sul como muito baixo

Abaixo, entenda a situação do surto atual, as formas de contágio e por que a chance de um surto no país é muito baixa

O surto atual do vírus ebola na República Democrática do Congo, no continente africano, tem aumentado os números. Há pelo menos 220 mortes suspeitas, além de 900 casos suspeitos, conforme dados recentes divulgados pelo diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus. 

Segundo ele, 101 casos foram confirmados, com 10 óbitos devido à doença. Em Uganda, país vizinho, são cinco casos confirmados e uma morte.

Em 17 de maio, a OMS declarou a situação como emergência de saúde pública de importância internacional.

No Brasil, a Sociedade Brasileira de Infectologia publicou uma nota técnica, afirmando que a evolução para um cenário de pandemia "não é considerada provável no momento".

O que é o ebola

O ebola é um vírus que foi descrito a partir de uma epidemia que aconteceu em 1976. À época, os focos estavam na República Democrática do Congo e no Sudão do Sul, no continente africano. Um destes surtos aconteceu em uma aldeia próxima ao Rio Ebola, dando nome à doença.

Como destaca a médica infectologista Tarsila Viecelli, diretora da Sociedade Gaúcha de Infectologia, o ebola causa uma doença febril de alta letalidade. Dos casos que contraem a enfermidade, entre 25% e 90% morrem.

Transmissão não é pelo ar

Badru KATUMBA/AFP
Trabalhadores desinfetam local durante remoção de corpo de uma vítima suspeita de ebola em Uganda.

A transmissão do vírus ebola se dá, principalmente, pelo contato com sangue, tecidos ou fluidos corporais de indivíduos contaminados (vivos ou mortos) ou com objetos e superfícies infectadas, como roupas. 

Uma pessoa só transmite a doença quando está apresentando sintomas. O ebola não é transmitido pelo ar.

De acordo com o Ministério da Saúde do Brasil, o vírus passa a circular entre seres humanos a partir do contato com sangue, órgãos ou fluidos corporais de animais infectados. Os reservatórios naturais mais prováveis — isto é, onde o vírus vive e se multiplica — são morcegos da família Pteropodidae que se alimentam de frutas. 

— O risco de transmissão para outros países e o risco de uma pandemia são muitos baixos. Os vírus respiratórios como covid-19 e influenza têm uma transmissão por aerossol, por via respiratória, e têm uma transmissibilidade muito mais alta — compara a médica infectologista.

Sintomas parecidos

O período entre a infecção pelo vírus e o aparecimento dos primeiros sintomas varia de dois a 21 dias. Segundo a OMS, os principais são:

  • febre
  • fadiga
  • mal-estar
  • dores musculares
  • dor de cabeça
  • dor de garganta

A lista se assemelha a uma série de outras enfermidades, como dengue e influenza. De acordo com a médica infectologista, algo que diferencia o ebola é a prevalência maior de pacientes com febre e sem tantos sintomas respiratórios. 

Apenas pelo que o paciente apresenta, porém, não é possível concluir que se trata da doença. Para confirmação, é necessário realizar o exame PCR.

De acordo com a OMS, os sintomas também podem evoluir para:

  • vômito
  • diarreia
  • dor abdominal
  • erupções cutâneas
  • comprometimento das funções renais e hepáticas

Em casos mais graves, conforme a entidade, podem aparecer sangramentos internos e externos, como secreção nas gengivas e sangue nas fezes.

Não há vacina

Não é a primeira vez que acontece um surto de ebola na África: essa já é a 17ª epidemia desde 1976. 

De 2014 a 2016, período do maior surto já registrado, houve cerca de 28,6 mil casos suspeitos em Guiné, Serra Leoa e Libéria, com 11,3 mil mortes, segundo informações da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Para o diretor-geral da OMS, pelo menos três aspectos geram desafios no enfrentamento atual. 

  • Em primeiro lugar, o atraso na detecção do surto, com a epidemia avançando mais rápido do que a capacidade de contenção
  • Em segundo lugar, os confrontos nas províncias de Ituri e North Kivu, na República Democrática do Congo, que já levaram ao deslocamento de 100 mil pessoas e causam desconfiança em relação a autoridades externas na região 
  • Por último, o fato de que não há vacinas ou tratamentos aprovados para a cepa que causa o surto atual, a Bundibugyo

Como esclarece a infectologista Tarsila, a opção médica é apenas por aliviar os sintomas. Atualmente, anticorpos monoclonais servem para tratamento quando a cepa responsável é outra, a Zaire.

Os desafios no controle da doença

Glody MURHABAZI/AFP
Profissionais de saúde transportam um paciente com suspeita de ebola na República Democrática do Congo.

Presidente da Sociedade Brasileira de Virologia, a bióloga virologista Betânia Paiva Drumond ressalta que há necessidade de mais estudos sobre o vírus e que isso exige laboratórios de nível alto de biossegurança.

Entre os desafios para o controle da doença, a especialista também acrescenta que o ebola costuma se espalhar em áreas vulneráveis e de difícil acesso.

— Em algumas das regiões onde esses vírus circulam, as pessoas têm hábitos de caça para se alimentar. Elas podem se alimentar de carne de animais silvestres. Então, são os costumes sociais e culturais que as colocam em um risco maior de exposição a esses vírus — complementa.

Ela pontua ainda que, de tempos em tempos, haverá pessoas entrando em contato com o vírus naturalmente e, assim, podendo transmitir para outras pessoas:

— É difícil prevermos quando esses surtos vão acontecer.

Por que o risco no Brasil continua muito baixo?

O principal fator que afasta o risco de uma transmissão em massa como a da covid-19 é o mecanismo de infecção do vírus ebola.

  • Não é respiratório: o ebola não é transmitido pelo ar, por gotículas ou aerossóis.
  • Contato direto: o contágio só ocorre pelo contato direto com fluidos corporais (sangue, sêmen, vômito, diarreia, urina ou saliva) de uma pessoa que já apresenta os sintomas da doença. Alguém infectado, mas sem sintomas, não transmite o vírus.

Como o contágio exige um contato extremamente íntimo ou cuidados hospitalares sem a proteção adequada, o potencial de o vírus se espalhar rapidamente por transporte aéreo e gerar infecções em massa no Brasil é considerado mínimo por infectologistas. O Ministério da Saúde informou que, seguindo as diretrizes da OMS, o país mantém a vigilância ativa em portos e aeroportos, mas não planeja fechar fronteiras ou impor restrições de viagem.

A médica infectologista Tarsila responde que o risco de chegar ao Brasil é "muito baixo"

— Não temos um tráfego aéreo intenso entre esses países e o Brasil. E também porque esperamos que as medidas de vigilância estejam operantes após a OMS decretar emergência.

A avaliação da bióloga virologista Betânia segue a mesma linha:

— Não podemos falar em risco zero, mas ele é muito baixo. Nós não temos animais infectados aqui porque esse vírus não existe naturalmente no Brasil até onde sabemos, mas as pessoas infectadas podem viajar e, eventualmente, entrar em contato com outras pessoas.

O que diz o Ministério da Saúde?

O Brasil não tem registro de ebola. Em 2014 e 2015, dois casos suspeitos foram notificados: um em Cascavel (PR) e outro em Belo Horizonte (MG). Após exames, os dois tiveram resultado negativo para ebola.

Consultado por Zero Hora, o Ministério da Saúde informou que ativou o Plano de Contingência Nacional para Febres Hemorrágicas Virais e intensificou a vigilância, especialmente em pessoas com histórico de viagem aos dois países com casos confirmados.

De acordo com o órgão, esse plano prevê:

  • identificação precoce de eventuais casos suspeitos, com notificação imediata
  • isolamento seguro do paciente
  • monitoramento de contatos para reduzir o risco de transmissão

O órgão afirmou também que, seguindo orientação da OMS, o Brasil "não deve adotar fechamento de fronteiras nem restrições a viagens e ao comércio".

Últimas Notícias