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Apoio animal

"Dá uma emoção como se eu fosse criança ainda": os benefícios da pet terapia para pessoas 60+

Interação com bichos traz alegria e alivia a solidão de idosos. Zero Hora acompanhou visita de voluntárias com cães a residentes do Asilo Padre Cacique, em Porto Alegre

21/06/2026 - 20h10min


André Malinoski
André Malinoski
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Jeff Botega/Agencia RBS
Vilma Brandina Jacinto Mazarem (D), 89 anos, guarda fotos com os pets que visitam o asilo.

Assim que enxergam as cadelas Kety, nove anos; Macarena, três anos; e Mercedes, um ano, chegando ao Asilo Padre Cacique, em Porto Alegre, conduzidas por um grupo de voluntárias, os residentes saem dos quartos e começam a interação

Visivelmente alegres e até emocionados, alguns fazem questão de pegar os animais no colo. Os acamados das enfermarias também recebem as visitas.

A cena acompanhada pela reportagem na última terça-feira (16) é típica das ações do projeto Pet Acolhe, que promove a terapia assistida por animais (TAA), também conhecida como pet terapia.

Essa metodologia tem sido empregada para levar benefícios cognitivos, emocionais e físicos a pessoas 60+ por meio do contato com animais treinados, como cães e cavalos.

Reconhecida no Brasil pelo Conselho Federal de Medicina e pelo Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional, a pet terapia auxilia na autoestima e no processo de socialização dos idosos.

Pets passam por seleção

Jeff Botega/Agencia RBS
A veterinária Ana Carolina Barreto Coelho (E) com as voluntárias Luiza Crestani (C) e Gabrieli Carvalho (D).

O Pet Acolhe é um projeto de extensão do curso de Medicina Veterinária do Centro Universitário Ritter dos Reis (UniRitter), em Porto Alegre, inspirado em outro semelhante desenvolvido pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel).

A médica veterinária e professora Ana Carolina Barreto Coelho, 38 anos, idealizadora do projeto, conta que os pets pertencem aos integrantes do grupo voluntário e passam por uma seleção para ver se são dóceis e não oferecem riscos aos idosos. Atualmente, há 15 animais cadastrados.

As visitas começaram há quatro anos. No início, limitavam-se a instituições próximas da universidade, como o Lar Gustavo Nordlund. Na sequência, outros asilos entraram no circuito, como o próprio Padre Cacique, um lar de deficientes visuais e uma escola infantil. No total, são promovidas cerca de seis visitas por semestre.

— A gente fica em torno de uma hora com os idosos — explica Ana Carolina. — Muitas vezes, esse tempo varia de acordo com os animais que estão conosco, porque eles (pets) acabam mostrando quando estão cansados e querem parar.

Além da idealizadora, duas estudantes do curso participaram da visita ao Padre Cacique: Luiza Crestani, 23 anos, e Gabrieli Carvalho, 25.

Experiência transformadora

Jeff Botega/Agencia RBS
Pet terapia traz benefícios a pessoas 60+.

A veterinária nota que muitos residentes não costumam sair de suas acomodações, mas, quando as voluntárias chegam com os animais, fazem questão de se locomover:

— Alguns relutam, mas o pet vai ganhando o coração deles. O carinho e o afeto são as coisas que mais nos tocam.

Aluna do oitavo semestre de Veterinária, Luiza Crestani participa há dois anos da iniciativa.

— No ano passado, realizamos uma ação de Natal. Neste ano, uma de Páscoa. Trouxemos um docinho, conversamos e pintamos os ovinhos. É muito legal ver como eles ficam felizes de receber a nossa visita — relata.

Estudante do sexto semestre do mesmo curso, Gabrieli Carvalho diz que se sente honrada em dividir as visitas com os animais:

— Poder participar e ver os idosos felizes não tem preço. Isso fez mudar a minha visão de mundo.

"Dá uma aquecida no coração"

Jeff Botega/Agencia RBS
Dona Maria Sueli Alves, 98 anos, adora animais.

Dona Maria Sueli Alves, 98 anos, não perdeu tempo. Assim que soube da chegada dos pets, pegou uma das cadelas no colo. A idosa vive há quatro anos na instituição.

É maravilhoso para nós. Eu, principalmente, sempre gostei de bichos — comenta.

Natural de Pinheiro Machado, na Campanha, Maria Sueli teve um cachorro vira-latas e um gato angorá. Também teve alguns pássaros. 

— Dá uma emoção como se eu fosse uma criança ainda — diz, acariciando os pets no colo. — Quando eles vêm, sinto uma paz muito grande, porque eles são muito amorosos. Dá uma aquecida no coração.

"Eu me apaixono de ver"

Jeff Botega/Agencia RBS
Catarina Vargas da Silva (de rosa), 72 anos, recebeu as visitas na enfermaria.

Na enfermaria feminina, as cadelas fazem grande sucesso entre as acamadas. São residentes que necessitam de cuidados especiais.

Natural de Porto Alegre, Catarina Vargas da Silva, 72 anos, vive há 32 no asilo. A ex-copeira não escondia o sorriso com a visita repentina dos pets. No passado, ela teve gatos como animais de estimação.

— Eles são muito lindos. Eu me apaixono de ver — diz Catarina assim que vê os pets entrarem na enfermaria.

Dona Vilma Brandina Jacinto Mazarem, 89 anos, natural de Dom Pedrito, mora há 15 no Padre Cacique. Quando vivia no município da Campanha, teve cães e outros animais. A idosa mostra à reportagem fotos com os pets das visitas anteriores ao asilo. 

— Nós recebemos mãe e filha da mesma raça, que moram no mesmo canil. É uma felicidade — conta, com a voz embargada de choro.

Residentes cuidam de dois cães

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Jane Beatriz Barros Peixoto de Silveira (C) cuida dos cães do asilo com Luiz Marques Ferreira (E) e Ifigênia Granja (D).

Dois cães vivem no próprio asilo: o poodle Lupinho, cinco anos, e a beagle Dolly, um ano. Quem cuida deles é a residente Jane Beatriz Barros Peixoto de Silveira, 77 anos, com a ajuda dos colegas Ifigênia Granja, 74, e Luiz Marques Ferreira, 68. 

— O problema aqui são os vovozinhos escondidos que querem dar bolacha, pão, tudo que os cachorros não podem comer. Querem agradar — diverte-se Jane, para quem a pet terapia ajuda e acalma. — Mesmo aqueles de coração mais duro vão ali.

Para o recreacionista Daniel dos Santos, 30, a percepção após as visitas é de transformação entre os residentes:

— Todas as vezes que esse grupo do Pet Acolhe vem, traz alegria, afeto, amor e carinho. Conseguimos ver o sorriso, o abraço, algo bem acolhedor, tanto dos estudantes quanto dos animais.

Jeff Botega/Agencia RBS
Lilico Leal (de boné), 84 anos, interagiu com os animais na enfermaria masculina.

A visita ainda passou pela enfermaria masculina. Ali, a interação ocorreu com o acamado Lilico Leal, 84 anos, que perdeu a capacidade de falar após sofrer um acidente vascular cerebral. No asilo desde 2007, Lilico foi porteiro da própria instituição no passado. Sentado em uma poltrona, fazia o sinal de coração com as mãos para os visitantes.

Memórias de vida recuperadas

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Asilo Padre Cacique abriga cerca de cem idosos.

A coordenadora médica do Asilo Padre Cacique, Júlia Santana Trombetta, explica que em ambientes de institucionalização é comum prevalecerem sentimentos de solidão, inutilidade e pouca interação social entre os residentes.

— Toda essa experiência com pets também evoca memórias biográficas. Eles ficam pensativos sobre o passado e a história que tiveram. Há evidências e percebemos na prática uma melhora (na diminuição) da agitação e da confusão mental nos pacientes com demência — atesta Júlia.

Segundo a profissional, a pet terapia é utilizada no Asilo Padre Cacique tanto para pacientes com declínio cognitivo quanto para os demais:

— Os que têm capacidade de resgatar memórias conseguem trazer a lembrança do cachorro que tiveram na infância. E os que não têm essa capacidade de memória, apenas com a presença do animal, apresentam melhora do humor, da ansiedade e ficam mais engajados com o senso de cuidado próprio.

Diminuição do sentimento de isolamento dos idosos

A psicóloga Ana Rita Martins emprega a pet terapia para auxiliar o atendimento de jovens e adolescentes. Nessas ocasiões, coloca sua cadela golden retriever Olívia, de seis anos de idade, para interagir com os pacientes no consultório.

Recentemente, ela começou a levar Olívia a um lar de idosos nas imediações do Colégio Farroupilha, em Porto Alegre. A iniciativa visa a auxiliar uma paciente, mas os demais residentes também se beneficiam e participam dos encontros.

— Essa interação estimula a memória, a atenção e a comunicação dos idosos. Até aqueles que já não estavam mais falando muito começam a compartilhar mais e trazer histórias de vida e dos bichinhos que tiveram — narra.

A psicóloga observa que os idosos acolhem os pets e encaram a visita como uma atividade. Dessa maneira, querem se levantar das cadeiras e caminhar com os animais durante as horas de interação. 

— A pet terapia funciona como um alívio na vida deles. É uma promoção de bem-estar geral — conclui.

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