Contenção e remoção
De roupas a móveis, barreira retirou 1,5 mil toneladas de lixo do Arroio Dilúvio em 10 anos; veja como funciona
Estrutura atua como último filtro que busca evitar que material descartado incorretamente chegue ao Guaíba

Um sistema aparentemente simples evitou que 1,5 mil toneladas de lixo tivessem como destino o Guaíba nos últimos 10 anos. O peso equivale a cerca de metade da capacidade de uma piscina olímpica. Entre os resíduos estão garrafas plásticas, latas, roupas e até móveis despejados no Arroio Dilúvio, desde a nascente, em Viamão, até a foz, em Porto Alegre.
A Ecobarreira Arroio Dilúvio é o mecanismo por trás desta quantidade de rejeitos retirada do córrego que corta a capital gaúcha. A estrutura fica na Avenida Ipiranga, na altura do Parque Marinha.
Como funciona a ecobarreira?

A iniciativa, que completou uma década em março deste ano, funciona como um último filtro que busca evitar que o lixo descartado incorretamente chegue ao principal corpo hídrico da Região Metropolitana e, mais adiante, à Lagoa dos Patos e ao Oceano Atlântico.
— Durante todo o caminho que a água faz (pelo Arroio Dilúvio), ela tem a contribuição da cidade em termos de resíduos e de esgoto irregular. Esse resíduo vai junto com a água até o Guaíba, poluindo o meio ambiente — explica Luiz Carlos Zancanella Junior, que está à frente do projeto desde a concepção.
A ecobarreira é totalmente financiada pela iniciativa privada. A prefeitura de Porto Alegre atuou cedendo espaço e licenças para a construção da estrutura às margens do arroio e fazendo a destinação dos rejeitos para o aterro sanitário.
As etapas do processo
O funcionamento da Ecobarreira Arroio Dilúvio ocorre a partir de um sistema de contenção física e remoção mecânica de resíduos flutuantes dividido em:
- Barreira física: a estrutura utiliza módulos flutuantes de plástico (boias amarelas) instalados no curso do Arroio Dilúvio para conter o lixo que desce flutuando
- Direcionamento: essas boias são posicionadas estrategicamente para que a própria correnteza do arroio direcione o lixo naturalmente até uma das margens
- Captura em gaiola: na margem para onde o lixo é conduzido, existe uma espécie de gaiola onde os resíduos ficam retidos
- Içamento: um operador garante que o lixo entre na gaiola, que é então içada até uma plataforma
- Triagem e separação: no local, o lixo é colocado em sacos e é feita uma separação do que pode ser reciclado (como garrafas PET e outros plásticos) do lixo comum e orgânico
- Destinação final: os resíduos recicláveis são recolhidos e tratados por uma empresa especializada. Já o lixo comum é colocado no passeio para ser recolhido pelos caminhões do DMLU, que o levam para a zona de transbordo na Lomba do Pinheiro
Como surgiu a ideia da ecobarreira

O projeto foi concebido pelo cientista da computação Luiz Carlos Zancanella Junior, responsável por gerir a ecobarreira. Já o financiamento é totalmente do Instituto Safeweb, braço focado em sustentabilidade do Grupo Safepar.
— A ideia da ecobarreira nasceu em 2015, quando eu estava vendo um feed no meu Facebook e vi um vídeo de uma barreira que tem lá nos Estados Unidos chamada Mr. Trash Wheel. Gostei da ideia, gostei do objetivo, gostei de várias coisas e pensei: “Por que não fazer isso em Porto Alegre?” — conta.
Zancanella não percebe que haja uma conscientização da população quanto ao despejo irregular de lixo no arroio, nem uma diminuição na quantidade que é captada pela rede de boias.
Responsabilidade legal

O projeto da ecobarreira no Arroio Dilúvio exemplifica ações que se conectam diretamente às diretrizes do Novo Marco Legal do Saneamento. Conforme a legislação, a limpeza urbana e o manejo de resíduos sólidos são componentes fundamentais para a universalização do saneamento básico.
Entretanto, a prefeitura ainda caminha para cumprir as metas até o prazo final, em 2033. Em abril deste ano, o Executivo municipal assinou um contrato de regulação dos serviços de gerenciamento de resíduos sólidos urbanos com a Agência Estadual de Regulação dos Serviços Públicos Delegados do Rio Grande do Sul (Agergs).
Com isso, prefeitura e Agergs passarão a atuar juntas na fiscalização dos serviços prestados pelo Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU). O principal objetivo é que o manejo de resíduos sólidos seja feito por meio de uma parceria público-privada (PPP).
Enquanto isso, iniciativas bancadas pelo setor privado buscam mitigar os danos causados pelo descarte incorreto de resíduos na natureza e pela poluição.