Arte e ancestralidade
"Dou às árvores mortas uma chance de viverem outra vez": luthier de Viamão cria tambores com troncos descartados
Artista, capoeirista e educador social Cássio Tambor confecciona instrumentos que se diferenciam por preservarem as formas naturais da madeira

Antes de serem tambores, foram árvores. Alguns ainda conservam raízes que se projetam para fora do corpo do instrumento, como se buscassem a terra. Outros mantêm curvas e bifurcações que, tendo sido moldadas pela própria natureza, renegam qualquer tentativa humana de padronização.
Dispostos em um ateliê no bairro Lomba do Sabão, em Viamão, na região metropolitana de Porto Alegre, os instrumentos musicais parecem ostentar uma identidade híbrida: são, ao mesmo tempo, árvore, tambor e obra de arte.
As peças nascem pelas mãos do luthier Cássio Guimarães Pereira, 46 anos, homem que faz da própria vida uma ode ao tambor. Justamente por isso, preteriu o sobrenome de batismo para se tornar apenas Cássio Tambor, alcunha que não poderia lhe cair melhor.
Há mais de 20 anos, ele se dedica a recolher pedaços de árvore que encontra em calçadas, terrenos baldios e outras áreas urbanas para, então, transformá-los em atabaques, congas, sopapos e outros tipos de tambores que se diferenciam, justamente, por preservarem as formas naturais da madeira.
— Realizo um trabalho artístico, social e ecológico. Resgato restos de árvores descartadas de forma irregular no ambiente urbano, depois de serem destruídas, muitas vezes, em nome do progresso. Eu dou às árvores mortas uma chance de viverem outra vez — resume o luthier.

Como nasce um tambor
O processo de criação começa muito antes de qualquer ferramenta tocar a madeira, no momento em que Cássio depara com os troncos. Ele esclarece que não realiza uma "busca ativa" dos materiais — ou seja, não sai pela cidade procurando restos de árvore para fazer tambores.
O luthier utiliza somente troncos que o próprio destino coloca em seu caminho. Também precisa sentir algum tipo de "conexão" com a matéria-prima, o que lhe indicará que "existe um desejo da natureza de se ressignificar".
— Se não houver essa conexão, eu não recolho. Já quando acontece, não sossego enquanto não levo o tronco para o meu ateliê. Pode ser que no momento do encontro eu esteja sem condições de transportar, mas eu volto depois para buscar — explica.
Há quem possa julgar a conexão descrita por Cássio como insanidade, mas há muita lucidez e técnica envolvidas na confecção artesanal de um tambor. A primeira etapa consiste em retirar a casca superficial da árvore e toda a parte de dentro do vegetal, preservando apenas a camada mais resistente da madeira.
Para isso, ele conta com o auxílio da natureza. O luthier deixa os troncos dispostos no terreno onde está situado seu ateliê — um sítio cercado por áreas de mata que também abriga o projeto Capoeira Park, de Cássio —, para que insetos e microrganismos realizem a decomposição da madeira. Quando esse processo está concluído, Cássio consegue remover mais facilmente o cerne de cada peça.
O tempo de cada tambor nascer
Ele explica que poderia utilizar ferramentas de corte para tornear mais rapidamente o interior dos troncos, mas prefere realizar o processo de forma natural — ainda que isso aumente bastante o tempo de confecção dos tambores, que pode se estender por meses.
— Cada tambor tem o seu tempo para nascer. É um tempo ditado pela natureza, não é o tempo que eu quero — observa ele. — As formigas, as larvas e os microrganismos trabalham comigo na limpeza interna dos troncos. Eu só interfiro quando vejo que a peça chegou ao nível de decomposição que eu preciso.
Com o tronco já oco, é hora de lixá-lo por dentro e por fora — uma lixação leve, que serve apenas para "lapidar" a peça, sem a intenção de modificar suas curvas naturais, Cássio enfatiza.
Uma nova forma de vida
Depois, inicia-se a aplicação de químicos que protegem o material da ação de microrganismos e o envernizamento, que traz brilho e mais durabilidade ao tronco. Assim, a peça que um dia foi árvore começa a se aproximar da sua nova forma definitiva, à medida que ainda preserva aspectos de sua identidade primeira.
— Mantenho as rachaduras, cavidades e raízes. Não quero esconder que é um tronco, quero evidenciar. Vejo o tambor como uma árvore que viveu anos, proporcionou sombra e oxigênio, e agora busca uma nova forma de vida — reflete Cássio.
A finalização completa vem com a instalação do couro — geralmente de boi ou de cabra —, que é preso ao corpo do instrumento por meio de parafusos. Essa etapa é fundamental para a qualidade do som que sairá do tambor — que dá sentido ao vagaroso trabalho do luthier.
— Cada tambor tem um som próprio, que é perfeito porque é único, e a minha função é revelar essa perfeição. Do leigo ao mais renomado percussionista, desejo que todos toquem meus tambores e percebam a excelência sonora que eles têm — afirma.

Início pela fé
Apesar da preocupação com os aspectos musicais, Cássio não vê os tambores apenas como instrumentos. Quando fala de suas criações, o luthier utiliza também termos como "objetos sagrados" e "obras artísticas", que embrulham as peças em um invólucro feito de música, espiritualidade e arte.
Essa mesma simbiose atravessa a origem e o desenvolvimento da relação de Cássio com os tambores. Frequentador de terreiros de umbanda desde a barriga da mãe, foi em nome da fé nos orixás que suas mãos tocaram pela primeira vez o couro de um tambor.
Para as religiões de matriz africana, os tambores são, de fato, objetos sagrados. É pelo toque dos atabaques que as entidades são invocadas ao mundo material, e um dos postos mais importantes na hierarquia dos terreiros é justamente o de ogan, o responsável por tocar os tambores e zelar por eles.
Cássio ocupou essa posição, o que possibilitou que aprendesse não só a percutir, mas também a fazer a manutenção dos instrumentos. Mas há uma diferença grande entre conservar um tambor e construí-lo do zero como ele faz agora, da forma mais ancestral possível.
O dom da luthieria — ofício de construir e reparar instrumentos musicais — surgiu como "missão" e "presente divino", Cássio conta. O primeiro tambor confeccionado por ele foi ordenado por uma entidade durante uma celebração religiosa realizada no Parque Saint'Hilaire, em Viamão.
— O caboclo (manifestação de espíritos que, na umbanda, representam os povos originários e a sabedoria ancestral) apontou para um tronco que estava perto e ordenou que eu recolhesse, levasse para casa e fizesse um tambor para a terreira — narra.
Missão cumprida

Cássio não sabia como fazer o instrumento musical. Sequer sabia o significado da palavra luthier — construtor e regulador de instrumentos —, que só viria a descobrir muitos anos depois. Mas quem seria imprudente a ponto de desobedecer a ordem de um caboclo?
Munido dos conhecimentos que adquiriu como ogan e de uma boa dose de inventividade, ele cumpriu a missão atribuída pela entidade: transformou, pela primeira vez, um tronco em tambor.
Quando entregou o instrumento para a casa de religião, seguindo à risca a orientação passada pelo caboclo, Cássio sentiu, também pela primeira vez, a dor de se desapegar de uma criação sua.
— Resolvi fazer outro, porque queria ter ao menos um que fosse meu. Mas aí comecei a fazer outro e outro e outro... Só sei que, quando me dei conta, estava com 12 tambores dentro de casa e não tinha espaço para mais nada — lembra.
Batismo na arte
Foi mais ou menos nessa época que Cássio, recém entrando na casa dos 20 anos, entendeu que os tambores que produzia — além de instrumentos musicais e objetos sagrados para as religiões de matriz africana — eram também obras de arte.
Para isso, contou com a clarividência de outro preto velho, este vindo do mundo carnal: Pedro Homero (1933-2005), renomado artista plástico, músico e ativista de Porto Alegre, conhecido por ter sido um dos fundadores da Frente Negra de Artes Plásticas.
Cássio trabalhava como ajudante na confecção de fantasias e carros alegóricos da tribo carnavalesca Os Tapuias, histórica no Carnaval de Porto Alegre, quando seus caminhos cruzaram com os de Homero. O veterano das artes conheceu o luthier durante uma visita à antiga sede da entidade no bairro Santana, em Porto Alegre, em parte do terreno que hoje abriga o Condomínio Princesa Isabel, e ficou entusiasmado com os tambores confeccionados por ele.

Foi pela boca de Pedro Homero que Cássio ouviu, pela primeira vez, a designação de artista ser atribuída a si.
— Pedro Homero disse que o que eu fazia era arte e que nunca tinha visto ninguém fazer tambores como os meus. Então, me falou para participar de uma feira que aconteceria na Imperadores do Samba, em razão do Dia da Consciência Negra. Lá eu conheci a elite da arte negra em Porto Alegre. Foi a primeira vez que expus o meu trabalho de uma forma artística — lembra.
Padrinho artístico
A relação se estreitou ao longo dos anos, e Cássio se tornou uma espécie de afilhado de Pedro Homero no meio das artes plásticas. Após a morte dele, em 2005, o luthier assumiu a missão de preservar o acervo e o legado do padrinho artístico, integrando a Rede de Acervos Afro-Brasileiros do Museu Afro Brasil Emanoel Araujo, de São Paulo.
As obras de Pedro Homero, em sua maioria pinturas que retratam a mitologia dos orixás, ornam as paredes do ateliê de Cássio. No chão estão os tambores que tanto encantaram o artista — e que também nasceram da fé nas divindades africanas.
— Pedro Homero, meu mestre e padrinho, enxergou em mim uma semente para dar continuidade ao seu legado. Sou eternamente grato a ele por isso — diz Cássio.
Exposição de tambores
Imerso nesse sentimento, o luthier-artista celebra agora a sua maior exposição individual. Os tambores de Cássio podem ser apreciados em uma sala-galeria localizada no segundo piso do Shopping João Pessoa, em Porto Alegre (veja ao final como visitar).
Os instrumentos desempenham uma função contemplativa de obra de arte. Ou seja, não estão expostos como mercadorias, mas como itens a serem admirados pela beleza e pelo simbolismo que carregam.
Embora eventualmente comercialize seus tambores, Cássio é enfático ao afirmar que a venda não é o objetivo final de seu trabalho. Antes de vender um tambor, precisa se assegurar de que o interessado entende o significado ancestral do instrumento e está disposto a preservá-lo.
— Não sou vendedor ou comerciante. Sou luthier, artista, artesão, capoeirista e educador social — enumera Cássio.

— Para mim, é difícil me desapegar dos meus tambores. Quando estou trabalhando em um tambor, sinto as melhores emoções e sensações. É um estado de dedicação a algo maior. Quando ele fica pronto e é tocado, é como se eu sentisse o meu coração bater fora do peito — diz.
O batuque dos instrumentos é o que faz com que o luthier, agitado na maior parte do tempo, acalme seus pensamentos céleres para entrar em um transe que começa na natureza e termina nele próprio: Cássio Tambor, o homem cujo coração não bate, percute.
Como visitar a exposição
- A mostra, localizada no segundo andar do Shopping João Pessoa (Av. João Pessoa, 1.831), em Porto Alegre, pode ser visitada de segunda a sábado, das 9h às 21h, e aos domingos e feriados, das 12h às 18h
- A inauguração oficial está marcada para o dia 4 de julho, às 18h, e contará com a presença do luthier
- A data de encerramento da exposição ainda não foi definida