Na primavera
El Niño: órgão de meteorologia dos EUA confirma formação e prevê intensificação do fenômeno
Período prolongado de temperaturas acima da média das águas do Pacífico pode gerar mais chuva no sul do Brasil e seca no Norte e no Nordeste


O Serviço Nacional de Meteorologia da Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA, sigla em inglês) confirmou nesta quinta-feira (11) a formação do El Niño no Pacífico tropical.
O fenômeno ocorre quando as águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial ficam mais quentes do que o normal, o que, no Brasil, pode gerar mais chuva na região Sul e seca no Norte e no Nordeste.
A previsão da NOAA é de que o El Niño se intensifique para um nível moderado ou forte durante o outono do hemisfério Norte – ou seja, quando ocorre a primavera no Brasil, que começa no final de setembro.

A NOAA estima 63% de probabilidade de um El Niño muito forte entre o fim de 2026 e o início de 2027. Especialistas da agência afirmam que, caso as projeções se confirmem, o fenômeno poderá rivalizar com alguns dos eventos climáticos mais intensos observados desde 1950.
Motivo de preocupação
Para o climatologista Francisco Aquino, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a confirmação do El Niño exige atenção, mas não permite concluir que o Rio Grande do Sul viverá uma repetição das enchentes históricas de 2023 e 2024.
— A gente não pode afirmar que, tendo esse El Niño junto com a mudança do clima, teremos enchentes iguais às de 2023 e 2024. Mas, sem dúvida, entendemos que o estado do clima do planeta Terra, leia-se mudança do clima e El Niño, eleva a chance de desastres climáticos. Isso é uma realidade — afirma.
Segundo Aquino, o fenômeno ainda está em estágio inicial. Hoje, o Pacífico apresenta um El Niño considerado fraco, mas a expectativa é de fortalecimento ao longo dos próximos meses.
— Até a primavera teremos um El Niño moderado, podendo ser forte até o fim da estação. Mesmo assim, já pode haver bastante chuva concentrada — diz.
O pesquisador ressalta que o inverno já é, historicamente, um período de aumento das chuvas e das inundações no Estado e que o El Niño costuma potencializar esse padrão. Ainda assim, ele destaca que os eventos extremos registrados em setembro de 2023 e maio de 2024 dependeram de uma combinação rara de fatores atmosféricos.
— Em 2023 e 2024 tivemos ondas de calor muito intensas, que ajudaram a segurar ciclones e frentes frias sobre a nossa atmosfera. Com isso, recebemos umidade direta do Atlântico e da Amazônia, favorecendo tempestades muito intensas e duradouras. Tudo isso precisaria se repetir para termos um evento semelhante — explica.
Tragédia ainda não é esperada
A avaliação é compartilhada por outros especialistas ouvidos pela reportagem. O meteorologista Murilo Lopes, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), afirma que, apesar da elevada probabilidade de um El Niño muito forte, não existe hoje um cenário que indique uma tragédia semelhante à de 2024.
— Uma intensidade maior do El Niño não constrói, necessariamente, um cenário para termos uma tragédia daquela proporção. Seriam necessários outros fatores atmosféricos atuando ao mesmo tempo.
O meteorologista Melquizedek Rafael Duarte da Silva, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), destaca que o principal efeito esperado para o Sul do Brasil continua sendo o aumento das chuvas e da frequência de tempestades, especialmente entre a primavera e o verão, período em que o fenômeno deve atingir seu pico de intensidade.
— O efeito clássico do El Niño, seja ele moderado, forte ou muito forte, é o aumento das chuvas na Região Sul. A gente pode ter aumento da frequência de tempestades e ocorrência de enchentes. Se o fenômeno evoluir para um evento muito forte, esse efeito pode ser intensificado — destaca.
A meteorologista Josélia Pegorim, da Climatempo, também pondera que os impactos do fenômeno variam de um episódio para outro.
— Um El Niño não é igual ao outro. O que podemos afirmar é que ele está em desenvolvimento e que existe expectativa de um evento forte ou muito forte. O maior risco é de aumento da frequência da chuva e de tempestades durante a primavera e o verão — diz.
A Defesa Civil estadual também acompanha a evolução do fenômeno. Segundo a meteorologista Vanessa Gehm, os efeitos devem começar a ser percebidos nos próximos meses, com aumento da ocorrência de chuvas intensas e temporais, mas ainda não é possível apontar quais regiões poderão ser mais afetadas.
O climatologista Francisco Aquino destaca ainda que o cenário atual é agravado pelo aquecimento global. Segundo ele, estudos climáticos já indicavam que o Rio Grande do Sul teria, nas próximas décadas, mais episódios de chuva intensa e concentrada, aumentando o risco de inundações.
— O que surpreendeu foi que, em 2024, vimos uma rapidez e uma intensidade que, nas nossas projeções, aconteceriam apenas por volta de 2050. Aprendemos que uma atmosfera com mais umidade, junto com o El Niño, pode gerar algo daquela magnitude — acrescenta.
Por isso, o pesquisador defende monitoramento constante da evolução do fenômeno nos próximos meses:
— Precisamos esperar cerca de três meses para ter mais clareza sobre as condições do Pacífico Equatorial e saber se realmente teremos um El Niño forte. O principal risco está associado a chuvas intensas, seja por longos períodos, seja concentradas em um curto espaço de tempo.
El Niño
O El Niño ocorre quando a temperatura no Pacífico equatorial está 0,5ºC acima da média por vários meses consecutivos.
A confirmação do fenômeno já era aguardada por meteorologistas, que percebiam o aquecimento gradual da área oceânica nos últimos meses.
A NOAA também monitora a atmosfera sobre essa região do Pacífico buscando um padrão chamado "Circulação de Walker", um fluxo de ar massivo de leste para oeste impulsionado pelas diferenças de temperatura e pressão entre os oceanos quentes do oeste e os oceanos frios do leste.
Quando a Circulação de Walker se desfaz e a água mais quente se desloca para leste, em direção à América do Sul, o El Niño é declarado.
O episódio mais recente de El Niño foi registrado entre 2023 e 2024, quando o fenômeno contribuiu para o excesso de chuva que culminou na maior enchente da história do Rio Grande do Sul.