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Legado eterno

Entenda por que Pedro Ortaça era conhecido como "último Tronco Missioneiro"

Movimento que também teve Noel Guarany, Cenair Maicá e Jayme Caetano Braun transformou a música regionalista ao cantar personagens esquecidos

08/06/2026 - 05h00min


Camila Bengo
Camila Bengo
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Marcelo Carôllo/Agencia RBS
Pedro Ortaça, que morreu aos 83 anos, foi um dos expoentes dos Troncos Missioneiros.

Com a morte de Pedro Ortaça, aos 83 anos, o Rio Grande do Sul despede-se de um de seus movimentos mais fundamentais. Ao lado de Noel Guarany, Cenair Maicá e Jayme Caetano Braun, Ortaça ajudou a construir a música missioneira — vertente que transformou a canção regionalista ao colocar no centro da narrativa personagens até então esquecidos.

O cantor morreu na madrugada de 29 de maio, em decorrência de complicações após a amputação de uma das pernas. Ele sofreu paradas cardiorrespiratórias e não resistiu.

Mais do que cantar a vida no campo e as paisagens do Estado, os quatro artistas, considerados "Troncos Missioneiros", questionaram a desigualdade social, exaltaram a identidade indígena do Rio Grande do Sul e musicaram as delícias, mas também as dores de se nascer gaúcho e, sobretudo, missioneiro. 

— Aqui nas Missões se formou o Rio Grande do Sul. Viemos de uma raça que não se entrega por nada. O músico não deve cantar só flores, mas também a realidade de seu povo — justificou Ortaça em reportagem publicada por Zero Hora em 2015.

Compartilhando princípios ideológicos na música e na vida, Pedro Ortaça, Noel Guarany, Cenair Maicá e Jayme Caetano Braun viraram os Troncos Missioneiros no final dos anos 1980 — embora a parceria do quarteto datasse de bem antes. A alcunha foi o título de um disco conjunto dos quatro lançado pela gravadora USA Discos, que acabou se transformando no próprio movimento musical missioneiro.

A música dos excluídos

Tude Munhoz/Agencia RBS
Pedro Ortaça na 9º Califórnia da Canção Nativa, em 1979.

A ligação do grupo com a região das Missões não se restringia à geografia: era também ancestral. Os quatro artistas buscaram na memória da formação missioneira do Estado a base para criar uma estética própria, tanto nas letras quanto nas sonoridades. Foram influenciados pela cultura indígena que pulsa naquele território, buscando referências também em ritmos tradicionais de países latino-americanos como a Argentina e o Uruguai.

Juntos, os Troncos Missioneiros consolidaram uma mudança de paradigma para a música regionalista. Valorizaram a contribuição de personagens negligenciados nas narrativas acerca da formação do Estado, como indígenas e negros, e jogaram luz sobre o cotidiano das camadas populares da sociedade gaúcha, em uma época na qual o cancioneiro regional ainda se concentrava em narrar a vida das elites estancieiras.  

Pedro Ortaça reconhecia que, ao lado dos amigos, abriu espaço para temas que antes quase não apareciam no âmbito nativista. 

— Não havia uma cultura na música daqui de falar sobre os nossos ancestrais, os índios, os negros, os pobres, a história do Rio Grande. A maioria só versava sobre dançar baile e senhores da terra — disse a Zero Hora em 2023.

Arquivo Pessoal/Reprodução
Pedro Ortaça e Jayme Caetano Braun em Brasília, em 1976.

Noel Guarany foi um dos primeiros a alcançar projeção nacional com esse tipo de canção, alinhado aos movimentos da música de protesto produzida em países vizinhos. Jayme Caetano Braun costurou elementos da oralidade, transformando em pajada as reflexões que ampliaram o alcance da poesia missioneira.

De voz melodiosa, Cenair Maicá eternizou a natureza nas canções, antecipando discussões sobre preservação ambiental. Já Pedro Ortaça agrupou esses elementos em uma interpretação marcada pela oralidade do interior missioneiro.

A nobre missão do último Tronco

Após o falecimento dos companheiros, Ortaça ganhou a alcunha de "o último Tronco Missioneiro", abraçando a nobre missão de manter vivo o legado e os princípios do movimento. 

— Essa música que criamos um dia, há mais de 50 anos, está enraizada no povo do Rio Grande, e isso é importantíssimo. Porque fala de justiça, fala de alegria, fala de satisfação e denuncia alguma coisa errada que existe no nosso país. E essa é a cantiga que eu represento, junto com Noel, Cenair e Jayme. Me sinto realmente realizado e feliz por Deus ter me dado a oportunidade de chegar até aqui — declarou ele em entrevista ao programa Playlist, da Rádio Gaúcha, em abril de 2025.

Nos últimos anos, Pedro Ortaça vinha sendo reconhecido como símbolo dessa herança cultural. Em 2024, foi escolhido patrono dos Festejos Farroupilhas. Já no ano passado, recebeu o título de doutor honoris causa da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

Tadeu Vilani/Agencia RBS
Após o falecimento dos companheiros, Ortaça ganhou a alcunha de "o último Tronco Missioneiro".

Agora, o caminho aberto por ele e os demais troncos seguirá sendo trilhado por seus sucessores diretos, os filhos e demais familiares que dão continuidade ao trabalho iniciado pelos quatro. Entretanto, o movimento espalhou herdeiros por todo o Estado.

A corrente missioneira influenciou as gerações seguintes de músicos gaúchos, e a sonoridade cunhada por eles pode ser percebida, inclusive, em artistas mais contemporâneos. Com a partida de Ortaça, chega ao fim a existência física dos Troncos Missioneiros. O legado, contudo, permanecerá. 


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