Retratos da Vida
Idosos transformam vivências em teatro e denúncia social
Integrantes do Programa Sesc Maturidade Ativa apresentam espetáculo desenvolvido a partir de reflexões sobre formas de violência contra a pessoa idosa

Em Porto Alegre, que é a capital brasileira com maior proporção de pessoas acima dos 60 anos, histórias que muitas vezes ficam em silêncio ganham corpo e emoção no palco. Nesta segunda-feira (29), às 14h, o teatro do Sesc 4º Distrito apresenta um espetáculo que vai muito além do entretenimento, trata-se de um convite à reflexão sobre o envelhecimento e, principalmente, sobre o respeito à pessoa idosa.
Criado por integrantes do Programa Sesc Maturidade Ativa, a peça marca as ações do Junho Violeta, mês dedicado à conscientização e ao combate à violência contra idosos, iniciativa que alerta para o fato de que a proteção e o respeito aos idosos são deveres de toda a sociedade, chamando a atenção para a importância de denunciar os abusos. As cenas, escritas e encenadas pelos próprios participantes, trazem à tona situações reais vividas por muitos deles: abandono familiar, descaso dentro de casa e as dificuldades enfrentadas nas cidades que ainda não estão preparadas para acolher o envelhecimento.
Pessoas 60+ representam 21,9% da população da Capital - cerca de 292 mil moradores -, o que faz da cidade a capital brasileira com maior proporção de idosos, segundo o Censo Demográfico 2022 do IBGE. Ainda assim, a realidade de muitos idosos segue marcada por invisibilidade e desrespeito.
Foi justamente para provocar esse debate que nasceu a montagem teatral.
“A proposta surgiu como uma provocação para que os participantes refletissem sobre diferentes formas de violência que podem atingir a população idosa e encontrassem, por meio da arte, uma forma de sensibilizar a comunidade sobre o assunto” – explica Adriana Aires, facilitadora do programa, no material de divulgação do projeto.
Experiências reais
A encenação é resultado de semanas de encontros, debates e ensaios. Mais do que um exercício artístico, o processo se transformou em espaço de partilha. É o caso de Eliane de Araújo Fraga, 72 anos, uma das participantes do espetáculo. Com uma trajetória antiga no teatro, ela reencontrou no Sesc um caminho que pensava ter ficado no passado:
– Eu participo do Sesc há bastante tempo, quase 10 anos, mais ou menos. Quando surgiu essa oportunidade, eu não pensei duas vezes. Eu amo teatro - conta.
Mas, para além da paixão pela arte, Eliane leva ao palco experiências que conhece de perto.
– O que está faltando na nossa sociedade é educação. O respeito ao idoso está cada vez pior. Ainda bem que existe o Junho Violeta, que deve ser mais bem divulgado, para as pessoas se conscientizarem. Isso é uma coisa muito séria. Tratam como se o velho fosse lixo descartado - afirma.
Ela relata que o preconceito por idade não começou agora, já aos 40 anos sentiu as primeiras barreiras no mercado de trabalho. Hoje, a discriminação aparece em pequenos gestos do cotidiano.
– A gente vai em uma loja, entra em um ônibus, e as pessoas te olham de cima a baixo. Muitas vezes nem te atendem - desabafa.
Outro ponto sensível abordado na peça é a solidão. Para Eliane, a falta de companhia é uma das dores mais silenciosas do envelhecimento.
– A pessoa nessa idade quer companhia, mas a companhia é difícil. Tem que ter amigos verdadeiros - diz.
Ainda assim, ela encontra no programa um novo sentido para o dia a dia. Quando perguntada sobre continuar atuando, ela responde ligeiro:
– Quero, até quando Deus permitir, com certeza. Eu amo, a minha vida é o Sesc, achei o meu lugar no mundo. Sempre fui muito ativa, gosto de sair, passear, viajar. Mas para mim, depois que eu entrei no Sesc, eu comecei a viver novamente.
A montagem
O grupo de teatro, que reúne cerca de dez participantes - entre eles uma integrante de 94 anos -, é apenas uma das atividades oferecidas pelo Sesc Maturidade Ativa. O programa inclui também oficinas de inclusão digital, esportes adaptados, dança e em agosto, também será iniciada uma oficina de canto e coral na unidade. Na capital gaúcha, as unidades do Sesc Alberto Bins, Protásio Alves e Azenha também contam com o programa, atendendo diferentes bairros. Também há um grupo que funciona junto ao Shopping Total, com programação e oferta de atividades que variam de grupo para grupo.
A participação nos grupos é gratuita. Algumas oficinas específicas possuem taxa de adesão, como a oficina de teatro do Sesc 4º Distrito, cujo investimento é de R$ 45 mensais.
A apresentação de hoje é, acima de tudo, um alerta. A violência contra a pessoa idosa nem sempre é física, muitas vezes se manifesta na negligência, no isolamento ou na falta de escuta. Dar visibilidade a essas situações é o primeiro passo para transformá-las.
Junho Violeta
O Junho Violeta é uma campanha dedicada à conscientização e ao combate à violência contra a pessoa idosa, destacando a importância de denunciar qualquer forma de abuso. A mobilização faz referência ao Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa, celebrado em 15 de junho. A data foi instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 2011, com o objetivo de sensibilizar a sociedade sobre o enfrentamento à violência contra a população 60+. Diversas iniciativas na Capital promovem inclusão e acolhimento para pessoas idosas. Confira algumas:
/// CRAS (Centros de Referência de Assistência Social) - oferecem oficinas gratuitas de convivência, artesanato, inclusão digital e direitos para idosos, basta se direcionar ao Cras da sua região que estão disponíveis no site da prefeitura.
/// Grupo de crochê e tricô – atividade gratuita realizada nas sextas-feiras, das 14h30min às 16h, no Santuário de Nossa Senhora Aparecida.
/// Se Vira nos 60+ - projeto gratuito no Teatro Renascença e divulgado, com datas e horários, no Instagram @inclusao.poa
Saiba onde buscar ajuda
Casos de violação de direitos podem ser denunciados e acompanhados por diferentes canais:
- Centro de Referência em Direitos Humanos - (51) 3289 -2084; (51) 3289-2075; (51) 3289-7093; ou 0800 642 0100
- Delegacia de Proteção ao Idoso - (51) 3288-2390
- Coordenação de Direitos da Pessoa Idosa - (51) 3289-8432
- Disque Direitos Humanos - disque 100 ou WhatsApp (61) 99611-0100
- Defensoria Pública do RS - (51) 3211-2233
- Alô Defensoria - disque 129
- SAMU - disque 192
- Corpo de Bombeiros - disque 193
- Disque 181 – Canal gratuito e anônimo para denúncias de crimes
*Com orientação e supervisão de Émerson Santos