Coluna da Maga
Magali Moraes: o cordão do tênis
Colunista escreve às segundas e sextas-feiras no Diário Gaúcho


Ele sempre anda em par, mesmo assim vou me referir ao cordão no singular porque tem algo de único nele. Me dei conta disso quando troquei o cordão do meu amado All Star de cano alto, e errei no tamanho. Não parece, mas é preciso quase um metro e meio de cordão pra esse modelo de tênis, acredita? Tive que comprar outro que preenchesse todos os ilhoses vazios. Achei por bem cumprir o ritual. Se o cano é alto, que o cordão alcance do início ao fim.
Não lembro quantas vezes troquei o cordão do tênis durante a infância dos meus filhos, nem de quando eu era pequena. Por mais que antes os produtos durassem mais, pés de criança crescem rápido. E o tênis passa adiante do jeito que for. Já na vida adulta, a gente se dar ao trabalho de comprar outro cordão é querer renovar essa relação. Com o perdão do trocadilho, reatar laços. Valorizar a nossa história juntos. Se eu ainda tenho muito chão pela frente, por que não o tênis?
Chuva
Vida longa ao cordão novinho que se une a um tênis sobrevivente a incontáveis chicletes grudados em suas solas (e outras coisas indesejáveis). Que já pegou bastante chuva. Que sai de casa de manhã cedo e volta tarde da noite. Que dá 10 mil passos por dia e pega chulé. Que se aperta dentro da mala de férias. Que leva a culpa por ter apertado a unha (ih, ela vai escurecer). O tênis que fica esquecido semanas, meses ou anos dentro do armário. E num belo dia, volta à ativa.
É trabalho em equipe, é parceria. Logo o cordão novo acumula experiências. Se for branco, suja também. Se for preto, desbota. Se for de passeio, conhece o mundo. Se for esportivo, corre, joga, cansa, ganha e comemora junto. Tomara que ele não se importe de ser amarrado com dois nós pra garantir. Não é falta de confiança, até o melhor cordão pode desamarrar sozinho. E que ele não ligue pra essa moda de tênis sem cordão. Vai passar.