Notícias



Representatividade

Parada Livre reúne milhares em Porto Alegre em apoio a pautas LGBTQIA+ na política

Vigésima nona edição do evento ocorreu neste domingo (14) no Parque da Redenção e teve como tema “Nosso orgulho na urna”

14/06/2026 - 21h53min

Atualizada em: 14/06/2026 - 21h53min


Isabella Sander
Isabella Sander
Enviar E-mail

Bandeiras coloridas, roupas brilhantes, música e dança tomaram conta do Parque da Redenção neste domingo (14), durante a 29ª edição da Parada Livre de Porto Alegre. Mesmo com o tempo úmido e o céu nublado, o evento teve a participação de milhares de pessoas, que uniram o tom tradicionalmente celebrativo dessa data a uma mensagem de mobilização política. Neste ano, o tema da parada foi "Nosso Orgulho na Urna", um convite à reflexão sobre a participação da população LGBTQIA+ nos espaços de poder e nas decisões eleitorais.

Uma das mais antigas do país, a Parada Livre de Porto Alegre tornou-se Patrimônio Cultural Imaterial do município em 2025. A programação reuniu apresentações artísticas, serviços públicos voltados à cidadania e a tradicional marcha ao redor da Redenção.

Para quem acompanha o evento há décadas, a data representa muito mais do que uma festa.

Renan Mattos/Agencia RBS
Ingryd Fontoura vai à Parada Livre desde a sua primeira edição.

— Eu fui a todas as paradas, nunca perdi nenhuma — conta a aposentada Ingryd Fontoura, 69 anos.

Participante desde a primeira edição, a idosa afirma que percebe mudanças importantes na forma como a população LGBTQIA+ é vista pela sociedade.

— Acho que a gente está tendo um pouco mais de respeito. E respeito é importante. A gente cria amizade, carinho. Melhorou bastante — relata Ingryd.

"Muitas coisas mudaram"

A sensação de avanços conquistados apareceu em diferentes relatos ouvidos pela reportagem. Entre eles estão o reconhecimento de direitos, a ampliação da inclusão no mercado de trabalho e uma presença maior da diversidade nos espaços públicos.

Renan Mattos/Agencia RBS
Naomi Lins acredita que muitos novos espaços foram alcançados pela comunidade LGBTQIA+ desde que começou a ir à parada.

Bailarino e frequentador da parada há mais de uma década, Gelcio Eduardo, 31 anos – que, no evento, dava vida à drag Naomi Lins – acredita que o evento contribuiu para abrir caminhos.

— Muitas coisas mudaram. A gente tem muito mais espaço no mercado de trabalho e no convívio com a população. Essas conquistas vieram das lutas que a gente faz para ter um espaço aberto na sociedade — afirma Naomi.

Apesar disso, os participantes ressaltam que ainda existem desafios. Questões como discriminação, violência e exclusão social continuam presentes no cotidiano de parte da comunidade.

— O que falta para nós hoje é um pouquinho mais de cuidado com a sociedade gay, principalmente com as pessoas de baixa renda — avalia a drag.

Renan Mattos/Agencia RBS
Vanielly considera que é importante ir à parada para que Porto Alegre seja cada vez menos discriminatória.

A percepção também é compartilhada por Vanielly Saldanha, 28 anos. Para a jovem, embora Porto Alegre seja frequentemente vista como uma cidade diversa, o preconceito segue vivo.

— A gente tem que apoiar todos os grupos. Porto Alegre, por mais que seja uma cidade muito inclusiva, ainda tem muita discriminação em muitos lugares — afirma.

Neste ano, a proximidade das eleições municipais ajudou a dar o tom político da manifestação. Para os organizadores, o objetivo foi chamar atenção para a importância da representação LGBTQIA+ em espaços institucionais.

Ocupação dos espaços

Fundador e organizador da Parada Livre, Célio Golin destaca que a ocupação desses espaços sempre foi uma reivindicação histórica do movimento.

— Os espaços de poder sempre foram ocupados por homens brancos e cis. Quando pessoas LGBT ocupam esses lugares, isso muda a cultura e cria outras relações de poder na sociedade — afirma.

Para muitos participantes, a defesa de direitos passa pelas escolhas nas urnas.

— Não adianta a gente só celebrar e lutar se, na hora de escolher nossos representantes, não levar em consideração as pautas e os projetos que eles têm para a nossa comunidade — diz Vinícius Rodrigues, 32 anos.

Vinícius vê a parada como uma resposta coletiva a problemas persistentes:

— Ainda continuam expulsando jovens de casa, as pessoas trans ainda morrem muito. É uma luta festiva, mas é uma festa de luta também.

Entre reivindicações e celebrações, a multidão que ocupou a Redenção ao longo do dia mostrou que, quase três décadas depois da primeira edição, a Parada Livre segue sendo um espaço de encontro, visibilidade e mobilização. 

Para muitos dos presentes, os avanços conquistados ajudam a explicar o clima de comemoração. A permanência dos desafios, por sua vez, ajuda a entender por que a marcha continua reunindo milhares de pessoas ano após ano.


MAIS SOBRE

Últimas Notícias